Posts from novembro, 2014

Gênesis

 

 

Anos Dourados - Minisérie 1986 3

 

 

Desde pequeno Adamastor sentia uma dor de lado, umas pontadas esquisitas, no final do arco das costelas.

Isso não o impedia de ser um menino normal, que corria pelos jardins do antigo casarão do avô paterno, trepava nas jabuticabeiras, goiabeiras e mangueiras do vasto pomar para saborear os frutos no pé ou apenas se divertir. Gostava de brincar sozinho, imitar o canto dos pássaros, conversar com bichos ou seres imaginários.

De vez em quando a dor o incomodava, mas foi se acostumando com ela, e até se aproveitava de vez em quando para aumentá-la e assim faltar da escola ou da missa.

Preocupados, os pais o levaram a vários médicos que não encontraram nada de errado.

Quem deu a palavra final e tranquilizadora foi o velho médico da família, com sua sapiente experiência: “Isso não é nada. Quando ele crescer, sara.”

Adamastor cresceu com a misteriosa dor de lado. Já rapazola, podia defini-la melhor. Não era propriamente uma dor, mas uma sensação estranha, um desconforto, parecido com aquela fisgada de estômago vazio quando se está com muita fome.

Aos 18 anos, na faculdade, Adamastor conheceu Eveline, e desde a primeira vez em que a viu se sentiu tragado pelos seus olhos de mel, enroscado nos seus cabelos longos e serpejantes.

No baile dos calouros, depois de muita troca de olhares e sorrisos, e de algumas cubas-libres para criar coragem, tirou-a para dançar um bolero, a dor de lado dardejando mais do que nunca.

Quando a tomou nos braços e colaram os rostos no meio do salão, sentiu o perfume de maçã que ela exalava e lhe lembrou o aroma do pomar da casa do avô.

Como por encanto, a dor de lado sumiu.

Falta de ar, palpitações e tonturas passariam a acompanhá-lo pela vida afora.

 

 

Dois pra lá, dois pra cá” (João Bosco / Aldir Blanc), com Elis Regina

 

 

 

Chuva arado

 

 

folha-na-chuva-wallpaper

 

                                                           esta chuva

                                                                                  cai

                                                           como uma luva

                                                           sobre minh’alma

                                                                                  deslavada

 

 

 

Este seu olhar

 

QUANDO ENCONTRA O MEU…

 

 

 “Este seu olhar” (Tom Jobim), com Rosa Passos

 

 

 

Por que você não olha pra mim?

 

 

Ônibus crônica Selma

 

A alemã BVG, companhia de transporte público, implantou um portal de mensagens em seu site para pessoas que se esbarram nos metrôs da vida e, comportamento padrão do povo, não trocam palavra durante o trajeto, entreolham-se rapidamente, mas ficam sonhando com um reencontro: “4 de dezembro, 13h, esperamos juntos pelo metrô sentido Rudow. Você (mulher, botas e olhos marrons) entrou no mesmo vagão que eu (homem, jaqueta cinza e sacola da loja Conrad). Vamos nos ver?”.

Sei não… Tivéssemos hábitos berlinenses, a jovem “eu (loirinha, kilt e casaco de banlon, apostilas de Jornalismo), que ontem fez o percurso PUC /Praça XV com você (moreno, calça Lee, turma de Engenharia (?), perfume de Vétiver)” teria morrido de tédio. O melhor da faculdade era exatamente a paquera no trajeto.

E a categoria “imobilizados”, mencionada no artigo como aqueles que sentam, mergulham na leitura, e só se mexem na hora de descer? Tsc…tsc…  Claro que sempre houve um livro, um jornal aberto “entre meus olhos e os olhos dela, como vento enciumado batendo a janela”, já escrevera o poeta. Apenas que fingíamos ler.

Bons tempos. A fila andava (catraca seletiva!), dávamos um passinho à frente, seguíamos o fluxo… Sem pressa de chegar ao ponto final. Por entre secretas miradas e paisagens outras, eram mais delicados os percursos.

 

Selma Barcellos

Selma (perfil)

 

 

 

Desfecho

 

 

chama (fogo)

 

 

DESFECHO

  

Que solução senão

arder-se

nas chamas dos instantes.

 

Solver-se

lento

e definitivo.

 

Sem esperar,

sem pactuar,

apenas

sucumbir,

deixar-se-ir.

 

 

Adalberto de Oliveira Souza

g_adalberto

 

 

 

 

A mesa da cozinha

 

Annibal Augusto Gama

 Annibal e Pichorro 3

 

 

 

 

 

 

 

Era uma mesa enorme (a cozinha também era enorme), de tábuas lavadas e não envernizadas, com gavetas e, ao redor dela as cadeiras. Mais adiante ficava o fogão de pedra, com o seu forno, as suas serpentinas e a trempe, sobre a qual achava-se sempre o bule de café, em banho-maria. A cozinha era a nossa lareira, principalmente nas noites de inverno. Em outras noites, eram os meninos que ali se sentavam no mosaico do chão, enquanto a negra Prisciliana, sentada no rabo do fogão, lhes contava estórias de assombração. Também o cachorro enrolado, deitado no piso. O papagaio ficava no poleiro, na penumbra da dispensa.

Chegava um, chegava outro, e se abancavam diante da mesa. Eram fritados os bolinhos de polvilho azedo e, fofos, ainda quentes, levados na travessa, para serem comidos, com goles de café.

Conversava-se, vinham as notícias da cidade, os boatos, os fuxicos, as intrigas políticas.

Parentes, amigos, hóspedes, ninguém deixava de frequentar a cozinha e sentar-se ao redor da mesa.

Nas noites de verão, a porta da cozinha permanecia aberta, bem como as janelas, olhando para o grande quintal.

Para acender o fogão, de manhã, era preciso ajeitar a lenha na sua boca, entre pedaços de jornal. Depois, riscar o fósforo e chegar a sua chama nas folhas de jornal. Quando as labaredas surgiam, convinha abaná-las com a tampa de uma panela, para avivá-las. O dia inteiro, e grande parte da noite, o fogão permanecia aceso, e a água, aquecida nas serpentinas, subia para a caixa e corria de todas as torneiras abertas.

A cozinha e a sua mesa foram boa parte da minha meninice.

Graças a Deus não havia televisão, e mesmo o rádio, dando notícias da guerra na Abissínia, era precário, com a sua estática. Sim, também chegavam os jornais, e alguns iam buscá-los no próprio Correio, situado na avenida.

A educação das crianças fazia-se assim, na cozinha.

Lá para dentro, permanecia a dona da casa, com as suas visitas, e o piano alemão, em cujas teclas tocavam-se as valsas. No centro da sala de visitas, debaixo da mesinha, achava-se o álbum de retratos.

Ocorriam igualmente os saraus, em que se cantava e se declamava. Alguém vinha com o seu violino, e outro com a sua flauta.

Infalivelmente, aparecia o Doutor Eduardo, com a sua bengala; também não deixava de vir o farmacólogo, seu Joaquim.

A convivência, na cidade pequena, era cordial e amena.

No quintal a pilha de lenha, com os troncos que eram rachados pelo lenhador, que aparecia com o seu machado e as suas cunhas.

De vez em quando, tarde da noite, alguém vinha furtar a lenha rachada e empilhada no quintal. Sabia-se quem era, mas não se dava muita importância.

Meu pai encontrava-se na rua com o ladrão, e este o cumprimentava: “Como vai, Coronel?” E ele respondia, sisudo: “Vou bem, às minhas custas”.

Os namorados beijavam-se furtivamente, no escurinho do cinema.

 

 coando café. 60 x 80 cm