Annibal Augusto Gama
Quando vier o inverno, teremos possivelmente alguns dias e algumas noites de bruma. A bruma não apenas esconde as pessoas, transformando-as em vultos, mas também desfaz as arestas, deixando quase tudo sem contorno. Suponho que os mortos, durante algum tempo, vivam dentro da bruma, esbarrando-se uns nos outros, a perguntarem: Onde estou? Qual é o caminho? Tanto quanto nós outros, ainda vivos, que fazemos as mesmas perguntas. Mas, nas quatro estações, vivemos antes dentro da broma. Somos permanentemente embromados, e também embromamos. Os dicionários definem primeiramente “broma” como “inseto ou verme que rói a madeira”. Só ao fim do verbete é que definem “broma” como “gracejo, chalaça, troça”.
Na broma, neste último sentido, vivemos, passa ano entra ano, neste país das arábias. É a broma geral dos políticos, dos governantes, dos comerciantes, dos publicitários. A broma também e principalmente que toma o significado de trapaça, de engodo, de tapeação. E a broma rói, como o inseto ou verme.
Que são afinal essas cúpulas em que se reúnem periodicamente os governantes dos muitos paises, os economistas, os planejadores? Broma. Prometem auxiliar-se uns aos outros, a confraternizar-se, a acabar com as barreiras e as fronteiras, a diminuir os impostos, a trazer a felicidade para todos. Bromas. Tudo continua e continuará do mesmo jeito.
As eleições sucedem-se, e são as mesmas bromas. De vez em quando, alguns se irritam, e promovem as guerras, as revoluções. São outra espécie de broma
O homem é o animal que embroma. A mulher embroma o marido, e o marido embroma a mulher. As religiões e as seitas, não raro, também embromam. As utopias não passam de bromas.
Eis porque prefiro a bruma.
Gama, eu também prefiro a bruma à broma (olha o efeito da sonoridade aí!), disparadamente. Crônica perfeita.
Abraçaço.
Mestre, nem com toda Brahma… Broma e bruma se adensam.
Como dizia meu saudoso Said: — Selmínia, a situação tá abacate branco.
Espero que não se importe de ser surrupiado semanalmente pelo Bloghetto. Broma?