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Ausências

 

       Adalberto de Oliveira Souza

 Adalberto

 

 

 

 

 

 

 

                                                        AUSÊNCIAS

 

 

                                   Meus ouvidos ainda cheios de sua voz,

                                   eu de braços e ideias cruzadas,

                                   em companhia,

                                   da desconexão timbrada

                                   no vazio do cansaço.

 

                                   Impressa a alegria cinzenta no rosto,

                                   o ritmo cambaleante das horas.

                                   a espera calada,

                                   e a pretensão de tudo dizer.

 

                                   A esperança, essa sim.

                                   colada aos anseios

                                   permanece,

                                   colando nos gestos certeza

                                   de um mundo sem tempo

                                   defronte a janela,

                                   a eterna presença dos sorrisos

                                   sem enigma.

 De noche vienes

 

 

 

Balde D’Água

 

          Annibal Augusto Gama

Annibal

 

 

 

 

 

Quando passava debaixo da janela, ela entornou sobre ele o balde d’água com que regava as plantas, no balcão. Ele olhou para cima, aborrecido. Oh, exclamou ela, me desculpe, foi sem querer. E ainda bem que não entornara sobre ele o conteúdo de um urinol, se é que ainda existem urinóis.

Por favor, entre, que eu vou enxugar a sua roupa. Ele entrou, ela ajudou-o a tirar o paletó, e tratou de ir secá-lo e passar-lhe o ferro quente. As suas calças também estavam molhadas, mas ele não iria sacar as calças. Pediu uma toalha, e enxugou-as como pode. Não conseguiu deixar de rir.

É a primeira vez em que conheço uma mulher que me entorna um balde d’água. Ela também sorriu. Nunca o vi caminhar por aqui. Explicou-lhe que viera por ali casualmente, sem dar-se conta, porque o seu caminho habitual era outro. Vestiu o paletó, e já ia embora. Aceita um cafezinho? ─ ela lhe perguntou. Aceitava, e ela lhe trouxe uma xícara de café. Mais uma vez, me desculpe. Era uma mulher de uns trinta anos, bonita, mas sem exagero. Espero que isto seja o começo de uma amizade, disse-lhe. Também espero, ela concordou.

Uns dias depois, ele passou debaixo da mesma janela. Parou e bateu na porta. Ela abriu e convidou-o a entrar. Entrou. Um cafezinho coado agora mesmo vai bem? Outra xícara de café, ele sentou-se na poltrona que ela lhe indicou, e acendeu um cigarro. Chamava-se Maria de Nazaré.

Tudo começa imprevistamente, ou é o destino, como se propala.

Maria de Nazaré contou-lhe sua vida. Morava sozinha, com a mãe, que ele ainda não vira. Providencialmente, na ocasião, a mãe estava ausente, em outra cidade, visitando parentes.

─ E o senhor, que me conta do senhor?

Não ia fazer-lhe um relatório; contou-lhe o que podia interessar, uma coisa e outra. Não me chame de senhor, que eu também não a chamarei de senhora, Maria de Nazaré.

─ Agora que nos conhecemos…

─ Por força de um balde d’água entornado…

─ Seja como for, me sinto feliz.

As mãos dela entre as mãos dele, ambos sentados um diante do outro.

Um ano depois estavam casados.

Minha leitora ocasional: quando as coisas não estão dando certo, e a vida parece um tédio prolongado, atire um balde d’água no cavalheiro que passar debaixo da sua janela.

 

regador 3

 

 “O que é o amor?” (Danilo Caymmi / Dudu Falcão), com Selma Reis

 

 

Gene é um gênio

 

Enviado por Selma Barcellos

(vídeo montagem de Antonio Romane, genial colaborador do Bloghetto Selma Barcellos)

 

  

Rádio Todo Sentimento une-se hoje à coirmã Verouvir e orgulhosamente apresenta, em primeira mão, a música que Gene Kelly sonhava dançar na antológica cena da chuva, mas, por algum motivo, não foi possível. :-)

Por falar em gênio, valendo prêmio, Romane!

 

 

 

 

Abel Ferreira tocando “André de Sapato Novo” , de André Victor Correia​

http://www.youtube.com/watch?v=SZAIwmYr5BQ

 

Obs.: Conta-se que André Correia estava num baile e passou maus momentos ao dançar com um sapato apertado. A dor dos calos, fato aparentemente banal, foi a inspiração para o talentoso compositor nos legar um dos mais populares choros da história da música brasileira. Poucas músicas têm o privilégio de poder ser identificadas por uma nota, como é o caso de  “André de Sapato Novo”. Bastava Pixinguinha extrair do saxofone seu Mi grave para todo mundo reconhecer o que vinha a seguir. Aquele grave representava a parada que faz a todo momento o indivíduo que calça um sapato novo, calos gritando dentro do calçado… (Selma Barcellos)

 

 

 

Cogitam escrever um livro?

 

         Selma Barcellos

Selma (perfil)

 

 

 

 

 

 

 

 

“Só há uma coisa mais rara do que uma primeira edição de certos autores: uma segunda edição.” (Franklin P. Adams)

 

“Não há assuntos chatos, apenas escritores chatos.” (H.L. Mencken)

 

“Fiz um curso de leitura dinâmica e li Guerra e Paz em vinte minutos. Tem a ver com a Rússia.” (Woody Allen)

 

“Levei quinze anos para descobrir que não sabia escrever, mas aí já não podia parar – tinha ficado famoso demais.” (Robert Benchley)

 

“Alguns livros são do tipo que, quando você os larga, não consegue pegar mais.” (Millôr Fernandes)

 

“Se um jovem escritor conseguir abster-se de escrever, não deveria hesitar em fazer isso.” (André Gide)

 

‘Só se devem ler livros escritos há mais de cem anos.” (Jorge Luis Borges)

 

“Se quiser ficar rico escrevendo, escreva o tipo de coisa que é lida por pessoas que movem os lábios ao ler.” (Don Marquis)

 

“Do momento em que o peguei, até a hora em que o larguei, seu livro me fez rolar de rir. Um dia pretendo lê-lo.” (Groucho Marx)

 

“Basta ler meia página de certos escritores para perceber que eles estão despontando para o anonimato.” (Stanislaw Ponte Preta)

 

“Quando Jean-Paul Sartre morreu, era Simone de Beauvoir quem eles deviam ter enterrado.” (Tomi Ungerer)

 

“Que homem teria sido Balzac se ele soubesse escrever!” (Gustave Flaubert)

 

livros_louco

 

 

 

Mélodie

 

 

 

MÉLODIE

 

 

Nicolas Sauvage

 

 

alors que le printemps

revient

comment toi

peux-tu

créer

une

nouvelle

mélodie

je t´aime et

je

t´envie

 

de revoir

pétales

pétales avant les feilles

et le vent qui

joue à les emporter les (froisser) casser

encore une fois encore

une année un

printemps

ça recommence et

pas moi

 

alors toi

avec quelques notes

notes de musique clé de

sol clé de fa

solfège on ne peut plus

barbant (partitions…)

tu inventes pour la

première fois une melodie

neuve nouvelle qui

prend

tout

l`espace

 

on dit

le cycle

le cycle des saisons

ça revient c`est

garanti

mais moi cerisier aussi

je vieillis j`embellis

je grandis j`ai comme une mélodie Danse!

 

ô immortelle

immortelle mélodie

ô immortelle

immortelle mélodie

 

 

primavera monet  “Le Printemps” – Claude Monet  (Cambridge, Mass., Fitzwilliam Museum)

 

 

MELODIA

 

 

 Tradução de Adalberto de Oliveira Souza

 

 

quando a primavera

volta

como você

pode

criar

uma

nova

melodia

eu te amo e

te quero

 

 rever

pétalas

pétalas antes das folhas

e o vento que

brinca de levá-las (ajuntá-las) quebrar

mais uma vez

um ano uma

primavera

isso recomeça e

eu não

 

então tu

com algumas notas

notas de música clave de

sol clave de fá

solfejo não se pode mais

enfadonhos (partituras…)

 inventas pela

primeira vez uma melodia

recente nova que

toma

todo

o espaço

 

dizem

o ciclo

o ciclo das estações

isso volta é

garantido

mas eu cerejeira também

 envelheço embelezo

 cresço tenho como uma melodia Dança!

 

ó imortal

imortal melodia

ó imortal

imortal melodia

 

 

 

A chave

 

             Annibal Augusto Gama

Annibal

 

 

 

 

 

 

 

Tenho uma loja que vende de tudo desde chupetas a parafusos. Há quem goste de chupeta e quem goste de chupar parafuso.

O caixeiro-viajante entrou na minha loja e, antes de me contar a última anedota, abriu sobre a minha mesa a sua mala de amostras. Era um vendedor de ferragens.

— Veja o que o senhor precisa.

Remexi nas amostras que me exibia e lhe disse:

— O que eu preciso é de uma chave para consertar a minha vida.

Então ele abriu outra maleta e exibiu-me uma chave muito estranha.

— E funciona? — eu quis saber.

— Funciona, e é cara, porque é importada. Mas o caro pode tornar-se barato.

Comprei-lhe a chave, e ele me deu algumas instruções sumárias. “O resto, ainda completou, o senhor vai encontrar no folheto, que lhe explicará tudo”.

O folheto, desdobrado, tinha mais de um metro de comprimento, e era escrito em inglês.

Levei a chave para casa, e passei muitas horas lendo o folheto, virando e revirando a chave na mão.

As primeiras experiências que fiz só serviram para me machucar as mãos, e não deram em nada.

Guardei a chave no seu estojo para me entender com outros entendidos, que talvez soubessem, como ricos e ricaços que eram, o manejo da chave, mas eles me riram na cara quando lhes pedi que me ensinassem os segredos da chave.

— Quem nasceu para tostão nunca chegará a milhão — respondiam-me.

 Foi quando Julieta me bateu na porta. Abri-a, e ela me perguntou:

— O senhor precisa de uma moça de cama, mesa, forno e fogão, que durma no emprego?

Precisava, mas antes de tudo de alguém que me ensinasse a usar chave.

Ela pegou a chave e disse-me:

— É muito simples.

Contratei Julieta, e ela, com a chave, abre latas de tomate, de sardinhas, ervilhas e leite em pó. Maneja-a perfeitamente bem.

— Ah, Julieta, não é isso que eu preciso!

— O que o senhor precisa é mudar de vida.

Vendi a minha loja e, estendido na rede, já não faço nada. Para quê? Julieta faz tudo.

 

chave

 

 

 

 

Todo menino baiano tem um jeito que Deus dá

 

       Selma Barcellos

Selma (perfil)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

caymmi 

Atrasado para uma gravação na TV, saiu praticamente da cama para o carro do Bôscoli, que lhe perguntou:

─ Não vai passar nem um pente no cabelo?

─ Não, eu já vim penteado da Bahia.

***

Carecia mesmo não. Ao rei primeiro de Maracangalha y Balangandã, à mais completa tradução de dengo com cheiro de mar, concede-se.

Para Ubaldo, Caymmi era um “fazedor de beleza”. E ainda tocava um violão recôncavo. Podia tudo.

 

Amigos, pelos 100 anos do mestre, comemorados hoje, o que vocês gostariam de ouvir? Digam lá. Por ora, Bethânia e o valentão mais doce da MPB.

 

http://www.youtube.com/watch?v=ZA1JGx-Frng

 

 

“A música é Caymmi, Caymmi é a música, e eu não seria músico se não fosse Caymmi.” (Tom Jobim)

 

“Tirem os olhos de mim, que eu nada sou além de um tocador de violão. O gênio se chama Caymmi. Então, vão ouvi-lo, vão entrevistá-lo. Ele é o mestre, ele é a música.” (João Gilberto)

 

“O melhor é Caymmi.” (Carlos Drummond de Andrade)

 

“Escrevi 400 canções e Dorival, 70. Mas ele tem 70 perfeitas e eu não.” (Caetano Veloso)

 

 

jangadeiro (Caymmi) (Jangadeiro, tela de Caymmi)

 

[…]

“Uma outra noite singular me levou para as praias da infância à espera da jangada. E se ela voltasse só? Gritei pelo nome dele, como na “Suíte dos Pescadores”. A névoa foi se desfazendo e vi não só uma embarcação. O mar vinha constelado de jangadas, os rudes remendos das velas brilhando feito veios de ouro. Estrelas cadentes iluminavam à volta com verde luz, verde arrebentação, e o que são as cristas das ondas a não ser arestas de astros antigos? Havia cardumes de rosas, rosas formosas de abril, saltando do mar como peixes, pétalas de escamas em tremeluzir de pálpebras. Chico, Bento, Pedro, Zeca, João Valentão, Anália, Jorge Amado, Carybé, todo o povo de Caymmi, o pobre povo brasileiro na miríade de jangadas. Voltavam com nossas sedes e fomes históricas, sofridos como nunca, torturados pelos cães dos poderosos, mas cheios de altivez e integridade nas roupas brancas rasgadas. E também, de relance, Dorival com a Senhora dos Navegantes, e ele sorria porque nosso futuro inova nosso passado, e neles Dorival Caymmi está sempre cantando, dulcíssimo de sal marinho, lampejo eterno em cada gota do presente.”

Podem achar que eu pirei. Pra escrever sobre Caymmi e a morte, só louco.”

(Aldir Blanc, em “A volta da jangada”, ‘O Globo’, 27/4/2014)

 

 

“Beijos pela noite”, dos amigos Caymmi, Jorge Amado e Carlos Lacerda. Bobagem…

 

 

 

 

Trajados de azul

 

 

Gabrielle Althen 2

 

 

Gabrielle Althen, poeta, romancista e ensaísta francesa vive entre Paris e Avignon.

Professora emérita da Universidade Ouest La Défense, agora, consagra-se à sua obra.

 

 

 

 

TEACH US TO CARE AND NOT TO CARE

 

 

Gabrielle Althen

 

 

La terre battue par la lumière cadavérique de l`orage n`émit pas une plainte. Le mot de mort fut écarté afin que le matin pût regagner tous les étages prescrits de la cervelle. Quant à l`humeur que ce sursaut ne permit pas d` appréhender, on la laissa sans hâte rougeoyer parmi les traces de l`éclair.

Cette maison ne voulait pas s`accoutumer à durer entre l`espoir et le regret. Il fallut bien l`ancrer dans un autre sillage. On laissa faire. Il descendit sur nous, que préférions l`ordinaire de notre étoffe de peine et le manque d`égards, et c`est ainsi, sans le vouloir, que nous fûmes affublés de bleu.

 

 

 

TEACH US TO CARE AND NOT TO CARE

 

 

Tradução de Adalberto de Oliveira Souza

 

 

A terra socada pela luz cadavérica da tormenta não emite nenhum lamento. A palavra morte foi afastada a fim de que a manhã pudesse recobrar todos os estágios prescritos do cérebro. Quanto ao humor que esse sobressalto não permite apreender, deixamos sem pressa avermelhar entre os vestígios do relâmpago.

Esta casa não queria se acostumar a permanecer entre a esperança e o pesar. Foi bem preciso encostá-la em um outro ancoradouro. Consentimos. Desceu sobre nós que preferíamos comumente nossa condição de compaixão e a falta de consideração, e foi assim, sem querer, que fomos trajados de azul.

 

 lua

 

 

 

Da arte de olhar pela janela

 

             Annibal Augusto Gama

Annibal

 

 

 

 

 

 

Provavelmente, você tem quatro ou cinco janelas na sua casa. A menos que você viva debaixo da ponte, ou de um viaduto, cujo vão se abre para a direita e para a esquerda. E você costuma, de vez em quando, olhar lá fora, através das janelas. Faz isto, mas são muito poucos aqueles que sabem a arte de espiar pelas janelas. Tentarei ensiná-la.

Para olhar pela janela você precisa primeiramente correr a cortina, seja ela de pano grosso, ou dessas lâminas de plástico que sobem e descem, puxadas por um cordão. Estas últimas cortinas não são fáceis de ser manejadas, porque geralmente enguiçam. É hora então de você soltar um palavrão. Se a cortina for de filó, você consegue espiar lá fora, através dela. Mas antes, é claro, você tem de abrir a janela e, melhor ainda, descer a vidraça. Sem fazer isso, nada feito.

Bem, depois de alguma dificuldade, você conseguiu arredar a cortina, abrir a janela e descer a vidraça. Então, você está pronto para dar uma olhada lá fora.

Mas para que você quer olhar lá fora, se pode olhar aqui dentro mesmo, e principalmente dentro de você mesmo? Não discutamos isso, já que você optou por olhar lá fora, o que é um direito seu.

Para que você olha para fora da janela? Para ver se chove, se faz sol. E, sobretudo, para ver se vai passar na calçada aquela loira boa, de vestido curto, exibindo as coxas, ou com a bunda apertada nas calças jeans, muito justas. Está na hora de ela passar. E você disfarça, se sua mulher lhe pergunta: que é que você está fazendo aí, olhando pela janela? A resposta deve ser: estou olhando as árvores e a paisagem… Mas que paisagem, ó meu? Diante de você está é o paredão de um edifício de vinte pavimentos. Ou um bruto outdoor, que o impede até de ver o céu.

Bem, você viu a loiraça que passou lá embaixo. E até lhe acenou a mão, e ela sorriu. Um dia ainda te pego, prenda minha. Saia então da janela, antes que sua mulher se irrite.

Mas você também pode ser um janeleiro de quatro costados, que não tem o que fazer, e sua mulher já se conformou com esse hábito seu. Fica o dia inteiro, e parte da noite, debruçado na janela, olhando de um lado para outro. Já está até com calo nos cotovelos. Peça à sua mulher que faça uma almofadinha, para você apoiar os cotovelos. Ela faz, coitada. Em compensação, vá lhe dizendo tudo o que se passa na rua ou na calçada: “Seu Osório, hoje, está atrasado… Vem vindo aí a perua das pamonhas… O cachorro Faísca, de Dona Vitória, fugiu de casa e está mijando no poste… Tem um sujeito discutindo com outro, na esquina… Olha lá, a pobre da Dinorá está barriguda de novo… O farmacêutico Seu Messias, com a sua maleta, entrou na casa de seu Felipe… Vai ver que Dona Olga está gripada de novo e vai tomar uma injeção na bunda… O Padre Messias vem vindo lá de cima, com o guarda-chuva aberto… Parou diante da porta da viúva Biondina, fechou o guarda-chuva e entrou… Neste mato tem coelho…”

A cidade tem muita coisa para ver e contar. E há janeleiros e janeleiras aqui e ali, que trocam informações uns com outros.

Pode ser também que você more num apartamento. E, de um lado e outro, há outros edifícios de apartamentos. Compre um binóculo, para espiar aquela moça que se despe, ali em frente, com a janela aberta. Você vai descobrir que ela tem uma pinta preta, do lado direito da barriga. Mas você deve ter cuidado, e espiar apenas por uma fresta da janela, escondido atrás da cortina.

Quando eu digo olhar pela janela, digo também escutar dali os ruídos e rumores que vêm de fora. O ronco dos automóveis, o matraquear das solas dos sapatos nas calçadas, os gritos, a sirene do carro do hospital, as buzinadas e derrapadas dos carros, as músicas estrondosas que vêm de dentro deles… É muito complexa esta arte de espiar através das janelas. E note que você também está sendo espiado por outros janeleiros. Um desaforo.

A vida é muito engraçada. Há quem espie, quem seja espiado e comentado, quem ande de um lado para outro feito barata tonta, quem para, e quem vai. Somos todos espiões uns dos outros.

 

janela indiscreta

 

 

 

Cachoeirense ausente (e que falta faz…)

 

 

         Selma Barcellos

 

 

 

 

 

 

 

 

Depois de alguma insistência, Rubem Braga resolveu aceitar o título de “Cachoeirense Ausente de 1951”, homenagem criada anos antes pelo irmão Newton para saudar os filhos ilustres da terra.

Rabugento que só, avisou às irmãs que não queria fazer discurso na praça, cumprimentar desconhecidos, nem ir ao Baile da Cidade. Não teve jeito. Fez os três.

A descontração só viria mais tarde, quando pôde enfim bebericar seu uisquinho com os amigos que levara ─ Vinicius, Millôr, Sabino, Otto Lara e Ceschiatti. No dia seguinte, apenas um compromisso oficial: inaugurar o aeroporto da cidade, tantas vezes reinaugurado e abandonado.

Hospedaram-se no melhor hotel de Cachoeiro de Itapemirim, nas proximidades da estação ferroviária, o que deixou os amigos desesperados com as manobras barulhentas das locomotivas madrugada adentro. Até que Millôr ─ ou teria sido Sabino? ou Vinicius?, ninguém sabe ao certo ─ , bateu no quarto de Braga:

─ Rubem, a que horas este hotel chega a Vitória?

Garotos formidáveis.

Mas que mania essa de ligar nossos brilhos literários e artísticos a aeroportos. Será que Millôr, a exemplo de Tom, vai virar um daqueles com forro desabando e urubus fazendo social com os passageiros?

Ele até sugeriu algo como “reconheço que nunca fiz nada para posteridade. Mas a posteridade bem que poderia fazer alguma coisa por mim. Por exemplo – me arranjar algum desses empréstimos a fundo perdido.” Não foi atendido

Braga, um apaixonado por jardins, virou nome de orquídea. Linda, vermelho-púrpura.

E Millorzinho, hein?

 

 

Rubem Braga e o seu quintal aéreo

Rubem Braga no seu mítico quintal aéreo do apartamento em Ipanema