Posts in category "Selma Barcellos"

Menos, meninas…

 

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Almoço mensal da amizade em dia. Elegantes como sempre, trocam impressões sobre aquele objeto de desejo, ali, tão próximo, a lhes alvoroçar os seis sentidos.

─ Estrutura robusta, hein…

─ Mas é de comportamento pouco coerente, observa só. Isso dá um trabalho pra cultivar…

─ Questão de amadurecimento. No final é compensatório. Reparou que tem desenvoltura e expressão? Passa longe de modesto.

─ Ainda não senti a necessária untuosidade.

─ A necessária… o quê? ─ interrompo.

─ Aquela suavidade guardada num cantinho especial da língua que implora por… uma lagosta grelhada com molho de manteiga e arroz de amêndoa.

Aaaah, não. Cortei a pauta das enlouquecidas. Chatice de harmonização, gente. Tão mais simples dizer ‘gosto’ ou ‘não gosto’.

Quase apanhei. Até praga de Baco eu ouvi.

Mas nossa amizade continua firme. E rara. Vinho de boa cepa.

 

Selma Barcellos

Selma (perfil) 

 

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Desvios de rota

 

Vogue-Kids2

 

 

 

A edição de setembro da “Vogue Kids” brasileira causou polêmica ao publicar no ensaio “sombra e água fresca” fotos sensuais de meninas com a blusa levantada, calcinha aparecendo e fazendo poses sensuais.

O caso foi parar na Justiça, que suspendeu a distribuição da revista e determinou a retirada de circulação dos exemplares já distribuídos.

Em tempos desgraçadamente pedófilos, fotos assim me causam, no mínimo, desconforto.

A “Vogue” é uma revista internacional de respeito e tida como refinada, mas não é a primeira vez que assim procede. Na segunda foto acima, capa da “Vogue” francesa de agosto de 2011, caras e bocas de uma garota de 10 anos. Na outra, lançamento de lingerie para meninas de 4 a 12, com a criançada exposta em superprodução de culto ao corpo como objeto de sensualidade. Exagero meu?

Claro que um dia desfilamos pela casa com a boca borrada de batom vermelho, colares, brincos e óculos imensos, tentando equilíbrio nos saltos altos da mãe. Mas nossa sexualidade ia sendo naturalmente descoberta, em flashes  indefiníveis, fosse no encontro do pique-esconde, no salada mista, nos desvãos do quintal… Sem pressa, sem queimar etapas.

Em excelente artigo, Francisco Bosco já abordou esse “esvaziamento da infância, em tempos de acesso irrestrito, via internet, a códigos comportamentais, sexuais e emocionais do mundo adulto.” Compartilhava, inclusive, da sugestão do não menos brilhante Wisnik, mentor do híbrido “adultolescência”: uma vez que “ser adulto tornou-se um ato heroico e ser criança, quase impossível”, tornemo-nos maduros e poéticos, como quem “conclui os processos da maturidade sem deixar de arder.”

A verdade? Temo pelo amadurecimento de crianças como as das fotos. Por sua poesia, então…

 

          Selma Barcellos

Selma (perfil)

 

 

 

 

 

 

 

 

“As minhas meninas” (Chico Buarque)

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Ah, as velhas cartas…

 

           Selma Barcellos

Selma (perfil)

 

 

 

 

 

 

 

“Cada um de nós morre um pouco quando alguém, na distância e no tempo, rasga alguma carta nossa, e não tem esse gesto de deixá-la em algum canto, essa carta que perdeu todo o sentido, mas que foi um instante de ternura, de tristeza, de desejo, de amizade, de vida – essa carta que não diz mais nada e apenas tem força ainda para dar uma pequena e absurda pena de rasgá-la.”

(Rubem Braga)

 

 

 

 

 

 

Certas cartas, não adianta rasgar. Permanecem inteiras em nós. Aliás, não rasgo nem as que não recebi ou escrevi…

Nas fotos, Jane Renouardt, Valentino, Gene Tierney e Camus. Em suas expressões, vida. 

 

“Mensagem” ( Aldo Cabral / Cícero Nunes),  com Maria Bethânia (e os poemas de Pessoa)

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Fale fino, mas longe de mim

 

 

 

Senhores, à guisa de consulta, estaria em processo alguma mutação genética na voz das mulheres? Por que tantas com timbre infantilizado, esganiçado, similar a gravações distorcidas de testemunhas? Tortura ouvir certas cantoras (só Billie podia), candidatas, atrizes, repórteres, apresentadoras, entrevistadas anônimas nas ruas e, céus!, manicures gasguitas conversando por sobre a clientela imobilizada pelos alicates.

Tem uma comentarista de economia que me leva a desentendimento diário com tevezinha, velha companheira para “furos de reportagem” que mantenho ao lado do computador da Redação. Fica ali, a fofa, batendo parada e baixinho na mesma estação, até que entra a criatura do Dow Jones com aquela voz exasperante e, como se não bastasse, com o cacoete de ralentar o final de cada frase, escandindo as sílabas. Levo alguns minutos para perceber a jugular inflando e aí… sobra para tevezinha. Mute no queixo.

Tal sensibilidade a latomias e cacarejos femininos estridentes não vem de hoje. Um dos meninos, ainda no ninho, ao descobrir a neura, sem que eu percebesse mudava tevezinha para um canal japonês e saía do ambiente. Escondia-se, às gargalhadas, esperando que eu desse pela coisa e partisse para cima dele com a sapatada voadora. Que nunca acertei, diga-se.

Estou sozinha em minha aversão e percepção do agravamento do problema?

 

 

Selma Barcellos

 

 

 

Poeminha difuso

 

              Selma Barcellos

Selma (perfil)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                           no muro caiado

                                                           marcas do giz

                                                           no verso inacabado

                                                           o jasmim reflorido

                                                           (como na tarde em

                                                           que me chegaste)

                                                           as luas da varanda

                                                           as canções no vento

                                                           de primaveras tantas:

                                                           murmúrios inconclusos

 

                                                           Questão de fuso?

 

                                                                                                      Itacoatiara, outra vez setembro

 

 

 

 

De contemplações

 

             Selma Barcellos

 Selma (perfil)

 

Sempre achei que a partir da análise de parábolas iniciais é possível saber se o sistema será estocástico ou não. E que o Conjunto de Cantor, abstração em que na sua forma ideal o terço do meio de uma linha no valor entre 0 e 1 é removido ao infinito, deixando para trás uma população de pontos de corte não concentrados em valor especial, é a solução.

De forma que aplausos tardios para o merecidamente contemplado Artur Avila, aquele moço formidável da Matemática. Cá de minha parte, permaneço em total contemplação com a entidade, inatingível desde os bancos escolares. 

Jamais gostei de matemática, gente. Era pura e aplicada, isso eu era. Nunca entreguei prova só assinada, como fazia Quintana em sua igual ojeriza à matéria, nem fui reprovada. Mas, balão cativo, sonhava em me evadir daquelas aulas.

Minha paixão sempre foi português. Adorava calcular a raiz etimológica de palavras primas, decifrar frações próprias e ordinárias da alma dos poetas…

Álgebra, sim, me encantava. Tinha letrinhas.

 

 

teco-teco

 

 

De azul e amigos

 

         Selma Barcellos

Selma (perfil)

 

 

 

 

 

 

 

 

Com seu invejável poder de síntese, Verissimo está a cavaleiro quando diz que “escrever é fácil, difícil é resumir”. Coisa de craque este relato dele de um encontro com Suassuna, Millôr…
Babei. Literalmente.

 

 

 

 

O  ENCONTRO

 

Os peixinhos nadavam por entre as nossas pernas. Estávamos no mar em frente à casa do José Paulo e da Maria Lecticia Cavalcanti, Praia do Touquinho, Lagoa Azul, Pernambuco, Brasil, América do Sul, Terra, Via Láctea, universo, com água pela cintura. Quem éramos nós? Millôr e Cora, Gravatá, Lucia, eu e peixinhos anônimos.

Zé Paulinho e Maria Lecticia tinham providenciado tudo para que o prazer dos seus hóspedes fosse completo: sol decididamente pernambucano, céu e mar de um azul irretocável, uma mesa flutuante com guarda-sol em cima coberta de coisinhas para comer e bebidinhas para beber.

A um sinal do Zé Paulinho, vinham mais camarão, mais marisco, mais caipirinha, mais pássaros, menos pássaros, mais brisa, menos brisa — e de repente, descendo na nossa direção pela praia como uma aparição, um convidado convocado pelos Cavalcanti para que o dia fosse mais que perfeito: o Ariano Suassuna. De calção de banho!

Ele entrou no mar, e os peixinhos continuaram nadando entre as nossas pernas, sem nenhuma curiosidade intelectual. Eles só estavam ali para pegar os restos da mesa flutuante, alheios ao grande momento, como se um encontro de Millôr Fernandes e Ariano Suassuna com água pela cintura acontecesse todos os dias.

Nós, ao contrário dos peixinhos, nos encharcávamos do momento. Eu, chupando um picolé de mangaba — eu mencionei que também havia picolés de mangaba? — finalmente descobria o sentido da palavra “embasbacado”.

Depois do encontro no mar, um almoço magnífico — não fosse comandado pela dona Maria Lecticia. E o dia mais que perfeito terminou com uma visita a um terreno próximo onde o Zé Paulinho criava bodes. Nosso anfitrião queria nos mostrar um animal que importara da África do Sul e que, de tão antipático e posudo, recebera do Suassuna o apelido de “Somebode”.

 

(Luis Fernando Verissimo, 27/7/2014, em O Globo)

 

Pode isto, Arnaldo?

 

         Selma Barcellos

Selma (perfil) 

 

 

 

 

 

 

 

Queridos, o Bloghettinho recebeu a irrecusável proposta de cobrir o certame futebolístico que se avizinha diretamente de Amsterdam, Paris e Cascais. :-)

Blogueira de chuteira, top Nelson Rodrigues e Armando Nogueira, aceitei o convite e, se Deus quiser, vamos estar fazendo uma boa cobertura. Temo apenas não segurar a emoção quando Tostão entrar em campo. Joga muito.

Nossos correspondentes em Berlim, Rio de Janeiro e São Paulo já estão a postos com toda a força imagética, poética, épica e dramática que o evento requer. Mas hein?

No mais, a regra é clara:
                                            Amo vocês!!! 

 

Voltamos em 21 de julho.

 

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Silêncio companheiro

 

 

          Selma Barcellos

Selma (perfil)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Dois dedinhos de prosa (e verso) sobre amigos, em silêncio companheiro, obsequioso… 

 

 

 

Uma longa mesa de amigos, na churrascaria Plataforma, era o refúgio de Tom Jobim contra o sol do meio-dia e o tumulto das ruas do Rio de Janeiro.

Naquele meio-dia, Tom sentou-se em mesa separada. Num canto, ficou tomando chope com Zé Fernando Balbi. Compartilhava com ele o chapéu de palha, que usavam em turnos, um dia um, no dia seguinte o outro, e também compartilhavam outras coisas:

– Não – disse Tom, quando alguém chegou perto. — Estou numa conversa muito importante.

E quando outro amigo se aproximou:

– Você me desculpe, mas nós temos muito para falar.

E a outro:

– Perdão, mas nós dois estamos discutindo um assunto sério.

Nesse canto separado, Tom e Zé Fernando não se disseram uma única palavra. Zé Fernando estava em um dia fodido, num desses dias que deveriam ser arrancados do calendário e expulsos da memória, e Tom o acompanhava, calando chopes. E assim ficaram, música do silêncio, do meio-dia até o final da tarde.

Não tinha mais ninguém por lá quando os dois foram-se embora, caminhando devagar.

 

(Eduardo Galeano, em ‘Bocas do Tempo’)

 

 

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ainda ontem

convidei um amigo

para ficar em silêncio

comigo

 

ele veio

meio a esmo

praticamente não disse nada

e ficou por isso mesmo

 

(Paulo Leminski)

 

Paulo-leminski-em-foto-de-1984 

 

 

 

Dias Nublados

 

         Selma Barcellos

Selma (perfil)

 

 

 

SHAKE

 

 

Recentemente, em seu já antológico artigo “O Brasil está com ódio de si mesmo”, órica mutação. Segundo o cronista, espontaneidade e graça, que eram nossa marca, deram lugar à fúria inesperada, à perda da solidariedade primal, quase instintiva, a “dores nunca antes sentidas”.

Em “À flor da pele”, Joaquim Ferreira dos Santos retoma o assunto. Não mais que de repente, pondera, somos todos suspeitos, roda-se a baiana, puxa-se a peixeira, privadas caem na nossa cabeça, todo mundo “fuleco da vida”. Por onde andarão, pergunta, “o homem cordial, o gajo afável desta patriamada gentil, a namoradinha do Brasil, a velhinha de Taubaté, o Jeremias, o bom, os descendentes do Profeta Gentileza”…? E antevê: “Se Stefan Zweig, morto em 1942, baixasse num centro mediúnico da Vila da Penha, seria linchado por ter publicado o livro em que chamava o Brasil de ‘país do futuro’”.

Está feia a coisa, sim. Convém nos acalmarmos. Afinal, estão chegando os alquimistas e os convidados desta já insuportável Copa do Mundo. Urgem bom-humor e etiqueta. Certa décadence avec élégance, por que não? Nada de guardar cartão de visitas dado por asiáticos até que eles se despeçam, não puxar conversa nem cadeira para muçulmanas (só o marido pode), jamais estender a mão esquerda (tida como impura, a da higiene) para iranianos, não bocejar para colombianos, e por aí vai.

Não sei se vos contei. Há alguns meses, visitando o Marrocos, o filho da blogueira adentrou um banheiro público onde havia, bem no centro, uma espécie de cuba, imensa, retangular, com água escorrendo continuamente. Não teve dúvida. Engatilhou. Só sentiu uma mão no ombro e uma voz ao pé d’orelha: “Não faça isso. Esta é a pia onde lavamos as mãos e os cotovelos para as orações”. Jura que ouviu o sssip! da adaga. Está correndo até hoje.

Agora falando sério. Com o pote até aqui de mágoa e a irritação que nos une em torno da grande área, imagina se algo acontece na pia das nossas devoções?

Cantemos, irmãos. Cariocas são bonitos, cariocas são bacanas…

 

“Cariocas” (Adriana Calcanhotto), com ela

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