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Voltam os jasmins

 

         Selma Barcellos

Selma no Jardim de Luxemburgo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                          Há de haver algum recado

                                          Na floração desse jasmim

                                          Que cresce além-muros

                                          Perpassa fios tramados

                                          E me invade o quarto

                                          Assim.

 

                                         O que quer ele de mim?

                                         Que repense novos planos

                                         Alertar-me sobre enganos

 

                                         Ou me trazer a certeza

                                         De que está tudo aqui

                                         Agora:

                                         Seu perfume

                                         Esta paz

                                         Nossas auroras.

 

                                                                                             “No ar” , verão de 2012

 

 

 

 

 

A base é uma só: être heureux

 

        Selma Barcellos

Selma-no-Jardim-de-Luxumburgp

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Não bastasse me deparar com a safira que reverberava no espelho d’água da Lagoa, almoçar na icônica Nascimento Silva, visitar a “Toca do Vinicius” – pequeno e charmoso templo da Bossa Nova, repleto de livros, songbooks, DVDs, CDs, camisetas, vinis, com um dono enciclopedicamente informado sobre música, ótimo papo – , a tarde ainda me reservava conhecê-lo.

Ça va, Pierre! exclama o dono para um senhor que entra e caminha até nós. Somos apresentados. Era Pierre Barouh. Até tentei segurar a onda que se ergueu no mar. Mas não deu, gente. O homem faz parte da trilha sonora da minha biografia e me concedi o mico de cantarolar “être heureux c’est plus ou moins ce qu’on cherche” … Ganhei o maior sorrisão e na fotografia estamos felizes.

Só esqueci de comentar com Pierre (sentiram a intimidade?) que moro em Itacoatiarrá, praia onde ele passava temporadas em priscas eras (a casa hoje é um clube), recebia Tom Jobim… Quem conta é minha vizinha, uma das mais antigas moradoras. “Itacoatiara era deserta e à noite acendíamos lamparinas. Até Antonio Maria teve casa aqui, Selminha!”.

Saí da Toca nas nuvens e com (mais) um livro do Ruy Castro sobre a Bossa Nova. Delícia de leitura. Já cheguei no Descobrimento de Búzios por Brigitte Bardot, em fotos deslumbrantes. À certa altura, lá está:

“No dia em que se reescrever a Constituição, um dos novos artigos dirá: Todo brasileiro tem direito a um cantinho e um violão. Tem direito também a cidades saudáveis, matas verdes, céus azuis, mares limpos e seis meses de verão. E tem direito a andar na praia, namorar gente bonita e ser feliz.”

Amém, Ruy. É impossível ser feliz sozinho.

  

Houve uma vez dois verões em Búzios e BB aprendeu a cantar “Maria Ninguém”, um clássico da Bossa Nova. Como Deus estava inspirado quando criou essa mulher… Confiram:

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=zRCu23SYnrk[/youtube]

 

 

 

La génesis de la vendimia

 

La génesis de la vendimia (Sergio Couri)

 

 

 

                                                 LA GÉNESIS DE LA VENDIMIA 

 

 

                                        Desde la Cordillera,  Afrodita exclama:

                                        ¨!Adornaré  el piedemonte  con viñedos,

                                        Y tantos, que  racimos,  saltando  los dedos

                                        Sobre la tierra caerán como en derrame!”

 

                                       Surge entonces Baco, y, ebrio, aterra:

                                       ¨Que sea,  pero  de las uvas,  en mi honor,

                                       Se haga el néctar más sabroso y  embriagador

                                       Bajo la línea de equinoccio de la Tierra! ¨

 

                                       Venus se suma, y, vanidosa,  dictamina:

                                       ¨!Que anime  esa fertilidad  y ese vino

                                       La mujer bella y joven,  cuál su endorfina!¨.

 

                                       ¨Amén, – dice  la Virgen de la Carrodilla-

                                       ¡Pues ante el Poder Supremo del Divino,

                                       Lo fértil, bello, el vino – todo se arrodilla!¨

 

                                                                                                                   Sergio Couri

                                                                                                                   Mendoza, enero 2014

 

 

Nota da Redação: Sergio Couri, poeta e diplomata, como Vinicius de Moraes  ─ cuja cadeira na Academia de Letras de Brasília ocupa e honra ─ é autor de diversos livros, entre os quais “Timós” (Editora 7 Letras), que reúne as obras “O vento e a vela”, “Luz e sombra” e “Pós-poesia”. Nascido em Niterói, estado do Rio de Janeiro, tornou-se cidadão do mundo não apenas em virtude da sua carreira diplomática, mas sobretudo pela virtude do poeta que se abre à vida e às pessoas de todos os cantos. Reside e trabalha atualmente em Mendoza, Argentina, onde se farta das belezas da vindima à borda da cordilheira. Após a colheita, bebemos nós dos seus versos e nos embriagamos de poesia. Não bastasse, é irmão de Selma Barcellos, levando-nos a concluir que o talento, pelo menos no caso, é genético.

 

 

Pois

 

 

           Selma Barcellos

Selma-no-Jardim-de-Luxumburgp 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                           Que melancolia é essa

                                                           Na Lisboa em que me encontro

                                                           Como se naus inda partissem

                                                           Do velho cais, d’algum ponto.

                                                           E essa névoa que insiste

                                                           Em adormecer a paisagem.

                                                           Onde os reis, descobridores

                                                           Fidalgos, navegadores

                                                           Poetas e trovadores?

                                                           Eis que subo a colina

                                                           ─ a mais alta dentre elas-

                                                           E num clarão, num lampejo

                                                           Vislumbro todos, afinal:

                                                           São manto por sobre o Tejo

                                                           A guardar, como encantados,

                                                           A bela senhora dos mares.

                                                           Mulher que recende a alecrim

                                                           E sabe a cravo encarnado.

 

 

lisboa 

 

 

Fragmentos

 

        Selma Barcellos

Selma no Jardim de Luxemburgo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

(foto de Cartier-Bresson)

 

 

Ela desviou o olhar com a leve impressão de que o conhecia. Ele, não. Ele tinha certeza. Tanto assim que à saída do elevador, delicadamente se (re)apresentou, repetiu-lhe o nome de solteira, perguntou se estava feliz, quantos filhos… Na escada rolante e pelo caminho que os levaria à rua, lembrou-se da casa em que ela morou, da sua melhor amiga, dos bailes, das músicas que dançavam, do exato ponto da praia em que ficavam, do seu maiô azul… Sentiu que era hora de ir quando ele disse lembrar-se do perfume que ela usava. Ah, os homens… Décadas sem se verem e o mesmo papo sedutor, ainda que pleno de lembranças tão precisas. Seguiram em direções opostas. Com ela, a saudade daqueles dias azuis.

 

 

“Only You” (Buck Ram / Ande Rand), com The Platters

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=3FygIKsnkCw[/youtube]

 

 

 

De esquinas e luz

 

      Selma Barcellos

Selma no Jardim de Luxemburgo

Queridos, na crônica da poeta portuguesa Maria do Rosário Pedreira, todos os motivos por que AMO estar na terrinha. São tantas esquinas, janelas, castelos, oliveiras, colinas, guitarras… Sua luz, quando é rio, chama-se Tejo; quando é sal, chama-se mar. E a  hospitalidade dos portuguinhas? Um abraço sem fim. Ainda ontem procurávamos um restaurante no centrinho de Cascais, quando fomos atraídos pelo convite irrecusável do garçom à porta do seu estabelecimento (favor ler com sotaque): “Estão almoçadinhos, estão?” Não deu outra, sapequei-lhe uma beijoca. E veio aquele peixe grelhado que só aqui se faz, mais o pão, o azeite, o vinho, os doces… Paixão.

 

 

 

 

“Em Portugal, o sol deita a cabeça no ombro dos muros e a chuva pinga afetuosamente nas calçadas, que têm desenhos a preto e branco para nos lembrar que vivemos num país antigo. Às vezes, exaltamo-nos com as coisas pequenas, mas lidamos com as grandes com uma brandura que é só nossa – basta dizer que fizemos uma revolução trocando o vermelho do sangue por o dos cravos. Parecemos tristonhos – e cantamos o fado de olhos fechados, porque a saudade é assunto sério – , mas ninguém como nós para inventar uma anedota mal o caldo se entorna, equilibrando qualquer tragédia com um sorriso.

Só temos um vizinho além do mar, mas é como se tivéssemos andado desde sempre de braço dado com o mundo, de tal forma recebemos o estrangeiro com o açúcar que levamos para o Brasil, o abraçamos com o calor proverbial das Áfricas e temperamos as conversas com a pimenta acartada da Índia em baús velhos.

Se o nosso espelho for um mapa, vemo-nos pequeninos, mas a verdade é que tudo se arruma com milagrosa harmonia no diminuto espaço que nos coube: a planície que o vento despenteia nas tardes de verão; o cume gelado das montanhas que nos derrete de espanto; as águas azuis que bordam uma costa tecida de areais a perder de vista ou escarpas que estendem a mão ao céu; os parques florestais onde todos os caminhos vão dar ao sossego e à beleza. Neste país, cidades cosmopolitas e buliçosas ombreiam com aldeias feitas de casas de bonecas e hortas que parecem de brincar; e as autoestradas que aproximam as nossas diferenças concorrem pacificamente com os minúsculos trilhos rasgados entre as pedras, nos quais ainda é possível encontrar um pastor empurrando, sem pressa, o seu rebanho.

Somos romanos, judeus, árabes e celtas, temos carapinha e olhos amendoados, sardas e pele curtida pelo sol; porque dentro de nós fala uma história com muitos séculos, na qual fomos longe e voltámos – e, ao voltarmos, deixámos igrejas, palácios e fortalezas, mas guardamos no coração o que os outros nos deram ou lhes pedimos emprestado. São eles, de resto, que nos fazem orgulhosos de sermos portugueses e dizem, por nós, o que quase temos vergonha de confessar, como se fosse atrevimento elogiar o lugar onde se nasceu. E, embora sejamos poucos, brincam na nossa língua tantos sotaques como eram as vozes do grande poeta Fernando Pessoa, que viu no nosso belo idioma nada mais nada menos que uma pátria. Estamos sempre de braços abertos para quem chega e é essa a melhor razão para nos vir visitar.”

 

“Meu amor marinheiro” (António Campos / Joaquim Pimentel), com Carminho 

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=uez3xGXj7go[/youtube]

 

 

Rio – Lisboa

 

         Selma Barcell0s

Selma-no-Jardim-de-Luxumburgp

 

 

 

 

 

 

 

 

Entre troca de fraldas e colo ao netinho, tempo para ler os mestres e me exibir em minha língua-vó.

Ora bem, penso que estou óptima. Capricho na entonação e pontuo as frases com um charmoso ‘não é?’, digo ‘mais pequeno’ e ‘muita fácil’ sem medo de perder o diploma, já não pergunto onde é o banheiro, a menos que procure o salva-vidas, tampouco se vendem broches; entendo quando se referem às aldrabices dos corruptos; escapo de convites com ‘tenho uma catrefada de coisas a fazer’; aqui e ali salpico um algures, primo bonito do alhures, e lá vou eu.

Não mais arregalo os olhos quando me oferecem um creme para a cara e já ouço com alguma naturalidade as expressões equivalentes a bunda, injeção e – céus! – criança. Gosto imenso de uma famosa propaganda de fraldas que diz “rabinho seco, rabinho são”. Muita boa, não é?

Aprendi que k é capa e que se algo está OK, está ocapa. Lindo pedir uma água lisa, um lume, dizer que determinado tempero sabe a mar, ouvi-los perguntar ‘estou a magoar?’. Tudo bem que uma certa tristeza – nostalgiazinha básica – está na essência dos sentires e cantares portugueses, assim como do indefectível adeus ao se despedirem. Não dizem tchau, até logo, até já. Contam-me que as cangalhas, os carros funerários, além de vários bancos para a família acompanhar o caixão, têm (tinham?) as laterais de acrílico para todo mundo ver. E sofrer junto.

Enfim, ando a fazer progressos. Inclusivamente (sim, aqui se usa) no vocabulário de berço do Cadu: já sei de chuchas, bibrões, traversinas…

No mais, como registrou Saramago, é seguir adiante. A viagem não acaba nunca. Paisagem e língua serão sempre novas.

 

Camões

 

 “Nem às paredes confesso” (Artur Ribeiro / Ferrer Trindade), com António Zambujo

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=Q6FnndViPmA[/youtube]

 

 

 

Meninos, eu li

 

       Selma Barcellos

Selma no Jardim de Luxumburgo

 

 

 

 

 

 

 

 

Da nossa correspondente em Portugal

 

 

No “Expresso” de 22/11, a propósito de “Tony Nagy, que está a ser investigado por suspeitas de enriquecimento ilícito, fugiu para o velho continente e pediu demissão por e-mail.” , comentário de um leitor que se assina Spitzer:

“O Brasil está a desenvolver-se. Há lá muita corrupção, como em todo o lado, mas lá começa a ser escândalo. Os corruptos têm de fugir do Brasil!

Quando é que os corruptos portugueses também terão de fugir?

Eu não quero viver num país onde os corruptos andam à solta, impunemente, e se tornam ministros e «conselheiros de Estado». Eu quero viver num país de onde os corruptos tenham de fugir, com medo da justiça. Eu quero viver num Brasil!”

 

 ***

 

No “Diário de Notícias” de 24/11, seção Classificados Relax VIP:

 

ANA

Senhora portuguesa, viúva, a  passar dificuldades financeiras, convive com cavalheiros em troca de ajuda! Sem experiência… Desde já agradeço pela atenção…!

 

***

 

Mas hein?

 

 

Vale a pena

 

        Selma Barcellos

Selma no Jardim de Luxemburgo

 

 

 

 

 

 

 

DOCEMETRIA

 

delicadezas:

camadas sobrepostas

ao fel do dia.

 

 

 

Neto à vista!

 

        Selma Barcellos

Selma no Jardim de Luxemburgo

 

 

Estrela Tia e Estrela Mater, Selminha ruma à Portugal para se tornar Estrela Vó do Cadu, da Constelação de Barcellos.

Mais brilho para a nossa Estrela.

 

 

 

 

Quatro anos depois…

 

E lá se vai o barquinho rumo a Cascais, roteiro de paixões evidentes, agora acrescidas do sonhado neto… Bom demais! A bordo, uma vó de primeira viagem, exultante, contando os dias para acarinhar Cadu, previsto para o finalzinho de novembro.

Assim, o Bloghetto faz aqui uma pausa. Serenada a ansiedade, recomeçamos. Ao sabor dos ventos. E de uma nova luz sobre o Tejo.

Apareçam, amigos.

Beijocas!

Selminha