…
o segundo exíguo
inicia
o dia contíguo
no desvão
dos dias
os dias vãos
por vias
das dúvidas
prossigo
…
“Moto-contínuo” (Edu Lobo / Chico Buarque), com Edu e Tom Jobim
Brenno Augusto Spinelli Martins
MEIO-DIA
Meio-dia
E ela espreguiça
E levita entre nuvens,
Estrelas e orvalhos
Que colheu de manhã.
Meio-dia
E ela medita
E me dita as palavras
Que quer ver escritas
No livro da tarde.
Meio-dia
E ela se excita
E recita a poesia
Que quer que eu repita
Na calma da noite.
(Foto de Claudia Pereira)
“Flor da Idade” (Chico Buarque)
Adalberto de Oliveira Souza
CONTINUAÇÃO
Busca diária busca.
busca de alfarrábios,
de cabedais resgatados,
de castiçais perdidos em muralhas
soturnas, de cata-ventos ativos
e vitoriosos,
busca do futuro
do passado, do presente.
Busca eterna busca.
Onde estou?
Onde?
Sou eu?
Sou eu?
Interrogo.
E a pergunta permanece.
Intacta.
Adalberto de Oliveira Souza
AUSÊNCIAS
Meus ouvidos ainda cheios de sua voz,
eu de braços e ideias cruzadas,
em companhia,
da desconexão timbrada
no vazio do cansaço.
Impressa a alegria cinzenta no rosto,
o ritmo cambaleante das horas.
a espera calada,
e a pretensão de tudo dizer.
A esperança, essa sim.
colada aos anseios
permanece,
colando nos gestos certeza
de um mundo sem tempo
defronte a janela,
a eterna presença dos sorrisos
sem enigma.
MÉLODIE
Nicolas Sauvage
alors que le printemps
revient
comment toi
peux-tu
créer
une
nouvelle
mélodie
je t´aime et
je
t´envie
de revoir
pétales
pétales avant les feilles
et le vent qui
joue à les emporter les (froisser) casser
encore une fois encore
une année un
printemps
ça recommence et
pas moi
alors toi
avec quelques notes
notes de musique clé de
sol clé de fa
solfège on ne peut plus
barbant (partitions…)
tu inventes pour la
première fois une melodie
neuve nouvelle qui
prend
tout
l`espace
on dit
le cycle
le cycle des saisons
ça revient c`est
garanti
mais moi cerisier aussi
je vieillis j`embellis
je grandis j`ai comme une mélodie Danse!
ô immortelle
immortelle mélodie
ô immortelle
immortelle mélodie
“Le Printemps” – Claude Monet (Cambridge, Mass., Fitzwilliam Museum)
MELODIA
Tradução de Adalberto de Oliveira Souza
quando a primavera
volta
como você
pode
criar
uma
nova
melodia
eu te amo e
te quero
rever
pétalas
pétalas antes das folhas
e o vento que
brinca de levá-las (ajuntá-las) quebrar
mais uma vez
um ano uma
primavera
isso recomeça e
eu não
então tu
com algumas notas
notas de música clave de
sol clave de fá
solfejo não se pode mais
enfadonhos (partituras…)
inventas pela
primeira vez uma melodia
recente nova que
toma
todo
o espaço
dizem
o ciclo
o ciclo das estações
isso volta é
garantido
mas eu cerejeira também
envelheço embelezo
cresço tenho como uma melodia Dança!
ó imortal
imortal melodia
ó imortal
imortal melodia
Ilustração: Annibal Augusto Gama
S.O.S.
Aquele que escreve
é o náufrago solitário
de uma ilha inventada
a lançar nas águas
mensagens cifradas
em peregrinas garrafas.
Sentado na areia
à sombra da mítica palmeira
vai grafando signos no papel
com a tinta indelével
de insolúveis angústias.
Muito além do tênue traço
que separa o mar e o céu
quem haverá um dia
de recolher na praia
a errante algaravia?
Poema de Alfredo Fressia, com tradução de Adalberto de Oliveira Souza
Alfredo Fressia
(sobre o poeta aqui)
EL ENAMORADO
Alfredo Fressia
I
Te busco en el castillo de mi cuerpo, soy
un rey abandonado en su palacio,
soy el tirano de mis mudos huesos.
Clausurado en mi cuerpo, te persigo
en la carrera de mi sangre
te veo en los ojos que me arden
hasta girar la órbita de su reposo último,
te siento impenetrable entre mi vientre
como uma dura catedral de vino.
Rey demente en su país de sangre,
te recorreré por estancias agrietadas
hasta que estalles la frontera de mi piel,
hasta que alumbres mi hueso con tu hueso,
hasta que oigan caer el esqueleto
tu acantilado varón
y mi destierro.
II
La noche, la alta noche sostenida
de celeste sonata y lenta esfera,
sucumbe si te pienso,
oh noche de tu cuerpo, desvarío
de laúd, cuerdas que sólo yo tañía.
Te oigo todavía vibrando entre mis manos
y la noche de nadie y lenta esfera
crece sola, arde sola
para nadie
su incendio de sonata.
O APAIXONADO
Tradução de Adalberto de Oliveira Souza
I
Procuro-te no castelo de meu corpo, sou
um rei abandonado em seu palácio,
sou o tirano de meus ossos mudos.
Enclausurado no meu corpo, eu te procuro
no percurso do meu sangue,
eu te vejo nos olhos que me ardem
até girar a órbita de seu último repouso,
te sinto impenetrável entre meu ventre
como uma dura catedral de vinho.
Rei demente em seu país de sangue,
percorrerei por quartos fissurados
até que estoures a fronteira da minha pele,
até que ilumines meu osso com o teu,
até que ouçam cair o esqueleto
tua falésia de varão
e meu desterro.
II
A noite, a alta noite sustentada
pela sonata celeste e a esfera lenta
sucumbe quando penso em ti
oh noite de teu corpo, desvario
de alaúde, cordas que só eu tangia.
Ouço-te ainda vibrando entre minhas mãos
e a noite de ninguém e a esfera lenta
cresce sozinha, arde sozinha
para ninguém
seu silêncio de sonata.