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De como participei da fundação da Academia Brasileira de Letras

 

 

“É certo; então reprimamos

esta fera condição,

esta fúria, esta ambição,

pois pode ser que sonhemos;

e o faremos, pois estamos

em mundo tão singular

que o viver é só sonhar

e a vida ao fim nos imponha

que o homem que vive, sonha

o que é, até despertar.”

 

(“A vida é sonho” (excerto), Calderón de la Barca)

 

 

 

Saídos da Livraria Laemmert, os circunspectos cavalheiros encasacados entraram por volta das 17 horas na confeitaria, tiraram as cartolas e os chapéus ao se sentarem numa ampla mesa reservada, ao fundo.

Logo foram atendidos por dois garçons, igualmente impecáveis nos seus trajes. A maioria preferiu chás variados, torradas, bolachinhas e outras guloseimas servidos àquela hora e que eram a especialidade da Casa. Alguns poucos arriscaram um xerez ou um vinho do Porto. Eu fui um deles.

O grupo observava uma tácita hierarquia. Os mais jovens eram todo ouvidos e pouco falavam. E o centro da reunião era o senhor de barba e cabelos encanecidos, amulatado, de pince nez, que falava pausadamente de modo a disfarçar uma leve gaguez. Tratava-se de Joaquim Maria Machado de Assis, intelectual consagrado, cronista, contista, dramaturgo, jornalista, poeta, novelista, romancista, crítico e ensaísta.

— Como sabem os senhores, apóio a ideia dos confrades Medeiros de Albuquerque e Lúcio de Mendonça de criarmos uma Academia Brasileira de Letras, nos moldes da Academia Francesa, e creio mesmo que tal providência, por necessária,  já se faça tarda, não para colhermos a efêmera glória mundana, mas como um marco da instituição de uma literatura nacional.

Ouvia-o atentamente, enlevado com a lucidez e elegância que expunha seu pensamento, a velada ironia de suas observações, tal como em seus romances, contos, poemas e crônicas.

Que honra e privilégio estar na companhia de tantas figuras admiráveis, especialmente dele, e a participar de momentos que haveriam de se tornar históricos!

Mas o que fazia eu ali?

Era um dos mais moços e sentia a vaga sensação de ser um estranho, embora nenhum dos convivas denotasse isso, tratando-me com lhaneza e afabilidade natural dos amigos.

O próprio Machado de Assis algumas vezes pareceu dirigir-se a mim, com o esboço de um sorriso, aparentando certa afeição, como se eu fosse um pupilo dileto ou até mesmo um filho, que ele nunca teve (ou teve, segundo as más línguas).

Apesar de me sentir muito bem e interessado na conversação e nas opiniões que se alternavam, pressentia que a qualquer momento haveria de deixá-los.

Como se sabe, depois de várias reuniões preparatórias, a Academia Brasileira de Letras foi fundada em dezembro de 1896, e oficialmente instalada em 28 de janeiro de 1897, com Machado de Assis sendo eleito o primeiro presidente da instituição, cargo que ocupou até sua morte, ocorrida no Rio de Janeiro em 29 de setembro de 1908.

Eis que desperto no meu quarto, nesta São Sebastião do Ribeirão Preto, na manhã de um sábado do ano da graça de 2013, com as imagens vívidas do que relatei acima e uma sensação de rara euforia.

Acorro à cozinha, onde minha mulher prepara o café, e lhe conto em atropelo o sonho tão estranho quanto fascinante.

Ela, que sempre foi extraordinariamente intuitiva e com frequência faz predições que se confirmam, escuta-me com um sorriso maroto e os olhos verdejantes, e ao final diz que talvez eu possa mesmo ter estado lá. Quem sabe?

— O que mais importa é que o sonho lhe fez bem e você acordou numa manhã feliz.

De que matéria serão feitos os sonhos e as manhãs felizes?

 

 

MATÉRIA PRIMA

 

De que são feitos os sonhos?

 

Nostálgicos amores

revoltos mares

remotos temores

fragmentos de luzes

no umbroso porão

da memória ancestral

do primeiro Adão

e seu perdido Jardim

de flores, frutos, olores,

arrebatado de mim

pelo tempo e pela treva.

 

Tortuosa travessia

entre o crepúsculo e a aurora,

a vertigem do abismo me leva

a galgar trôpego e sôfrego

o promontório do dia.

 

 

Sem

 

 

Brenno Augusto Spinelli Martins

    (seu violão e o pôr do sol) 

Brenno e o violão

 

 

 

 

 

 

 

                                   Quando a jornada é louca

                                   Fica no fundo da boca

                                   Um gosto de gosto oco

                                   Porque a vida escapa um pouco

                                   Fica o relógio sem corda

                                   A cerveja fica tórrida

                                   Amendoim sem caroço

                                   A girafa sem pescoço

                                   O elefante sem tromba

                                   Ou o oásis sem sombra.

 

                                   Quando o azul fica cinzento

                                   Fica sem pinto o jumento

                                   Fica sem pinto a galinha

                                   Fica sem asa a andorinha

                                   Beija-flor fica sem flor

                                   Carmelita sem pudor

                                   Romance sem namorada

                                   E a fogueira apagada

                                   Fica o cachorro sem osso

                                   Bóia-fria sem almoço.

 

                                   Quando o caminho é incerto

                                   Fica longe o que era perto

                                   O café sem cafeína

                                   Cigarro sem nicotina

                                   Fica o doce sem açúcar

                                   A filharada sem Lucas

                                   Parece um vinho sem álcool

                                   Ou um artista sem palco

                                   Ou torcedor que não xinga

                                   Ou então um beijo sem língua.

 

                                   Quando o chão é movediço

                                   Fica o final sem início

                                   É como abelha sem mel

                                   Ou o samba sem Noel

                                   A centopéia sem pé

                                   A seleção sem Pelé

                                   João Bosco sem violão

                                   E a transa sem tesão

                                   Tim Maia sem um quilo do bom

                                   E a poesia sem Drummond.

 

                                   Quando o horizonte se esconde

                                   E o mundo fica sem onde

                                   Acaba a cor da paixão

                                   E a corda do coração

                                   Fica a bússola sem norte

                                   E o jogo de azar sem sorte

                                   Fica o crime sem  bandido

                                   E a vida sem sentido

                                   Como a morte sem nascer

                                   Ou como eu sem você.

 

image

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Um caminho para o céu (antes do avião)

 

 

              Nicolas Sauvage

Nicolas e família

 

 

 

 

 

 

 

Este poema e o anterior “Esperança” (aqui) de Nicolas Sauvage foi escrito para uma exposição “L`art au défi de l`esperance”, que foi realizada em janeiro de 2013 na Prefeitura do VI Distrito de Paris com a colaboração do artista plástico Eric Michel, com a intenção de fazer um livro objeto. Como veem, há um teor místico.

 

 

un chemin vers le ciel (avant l’avion)

 

quand j’étais enfant sur les petites routes de campagne

à vélo je me souviens de rouler sous le plafond nuageux

les rayons du soleil traversaient de biais une grande trouée

la lumière se posait en oblique comme la main de Dieu

que l’on voit dans les tableaux sombres à l’interieur des églises

 

rouler

ne pas penser à toi

penser en toi

 

rouler

me coucher avec toi m’allonger en toi

dormir avec toi dormir en toi

 

rouler

me réveiller contre toi

en toi éveillé

 

penser en toi sur cette route de campagne et garder l’équilibre

à vélo sous le plafond nuageux et

la lumière du soleil fait une échelle posée là pour aller au ciel

est-ce une main trop large à serrer trop claire à regarder

 

Nicolas Sauvage

 

bicicleta 4 (3)

 

um caminho para o céu (antes do avião)

 

quando criança nas pequenas estradas do campo

de bicicleta me lembro andar sob o céu escuro

os raios de sol atravessavam em viés uma grande brecha

a luz se punha obliquamente como a mão de Deus

que a gente via nos quadros sombrios no interior das igrejas

 

pedalar

não pensar em você

pensar em você

 

pedalar

deitar-me com você me estender com você

dormir com você dormir em você

 

pedalar

despertar contra você

em você desperto

 

pensar em você nessa estrada do campo e manter o equilíbrio

na bicicleta sob o céu escuro

a luz do sol coloca ali uma escada para ir para o céu

é uma mão tão grande para apertar e clara demais para olhar

 

 

Tradução de Adalberto de Oliveira Souza

 

 

 

O inseto

 

 

inseto 3 (3)

 

 Sobre o mármore

 insípido

 o pequeno inseto

 atônito

 patinha longitudes

 elípticas.

 

 Na vasta superfície

 álgida

 de pedra e água

 afeiçoada

 persiste no tracejo

 resignado

 sem atinar a mão

 iminente

 que sustém a existência

 precária.

 

 Seremos nós esse bicho

 errático

 a vaguear pela solidão

 inóspita

 enquanto outra mão

 onipotente

 concede a graça

 sombria

 de mais um dia

 só mais um dia?

 

 

Geratriz (II)

 

       Adalberto de Oliveira Souza

Adalberto 2 (2) 

 

 

 

 

 

 

                                                           Magia

 

 

                                                           Perfuro

                                                           o fundo da fala,

                                                           fabrico da saliva

                                                           uma caixa,

                                                           transformo-a em silêncio

                                                           no silêncio mais negro

                                                           e me cubro desta noite.

                                                           Amanheço,

                                                           manhã difusa,

                                                           mutismo de setas.

 

                                                           Para melhor uso

                                                           de minha intenção,

                                                           lacro a caixa fabricada

                                                           com o parafuso sujo

                                                           tirado da língua.

 

parafuso 

 

 

 

Todas as mulheres do mundo

 

 

“Na minha vida tem sido como se uma mulher me depositasse nos braços de outra. Isso talvez porque esse amor paixão pela sua própria intensidade não tem condições de sobreviver. Isso acho que está expresso com felicidade no dístico do meu soneto Fidelidade: que não seja imortal posto que é chama / mas que seja infinito enquanto dure.” (Vinicius de Moraes)

 

 

Vinicius e a mulher 2

Vinicius e Gilda, sua última mulher, a quem apresentava como “minha viúva”

 

 

Eu que sou um bendito fruto entre mulheres ― Maria Delucena, Carolina, Isabella, Júlia, Manuela, pela ordem de chegada ― reconheço que nessa matéria não daria nem para a saída diante do nosso poetinha maior, que em 2013 faria cem anos, e outros cem viveria para servi-las, se não fora para tantos amores tão curta a vida.

Pois não bastassem seus tantos e antológicos poemas sobre as mulheres, Vinicius chegou a escrever poeminhas sobre a mulher de cada signo do zodíaco, com a verve e a maestria de sempre.

Não sei se os escreveu por encomenda, necessidade (“e tem um dinheirinho nisso?”, como lhe perguntou um Tom Jobim pobrinho e cheio de contas a pagar, ao ser convidado para musicar a peça “Orfeu da Conceição”; Manuel Bandeira, que daria seu reino pelas três mulheres do sabonete Araxá, recebeu depois prendas do fabricante agradecido) ou mera brincadeira, mas os poemas chegaram a ser publicados num livrinho.

 

livro a mulher e o signo (Vinicius de Moraes)

 

Maria Delucena é capricorniana (há controvérsias); Carol, aquariana; Bell, sagitariana; Júlia, geminiana; e Manu, pisciana.

E vocês, minhas queridas e binárias estrelas que orbitam pelo meu céu, de que signo são?

O poema respectivo do poetinha lhes cai bem (ou vocês não são nada disso)?

A todas, todo o meu bem, e parabéns pelo seu dia, todos os dias.

 

 

 zodíaco

 

 

Áries

 

Branca, preta ou amarela

A ariana zela.

 

Tem caráter dominador

Mas pode ser convencida

E aí, então, fica uma flor:

Cordata… e nada convencida.

 

Porque o seu dominador

É o amor.

Eu cá por mim não tenho nenhum

Preconceito racial:

Mas sou ariano!

 

 

                                                 Touro

 

                                                 O que é que brilha sem

                                                 Ser ouro? – A mulher de Touro!

                                                 É a companheira perfeita

                                                 Quando levanta ou quando deita.

                                                 Mas é mulher exclusivista

                                                 Se não tem tudo, faz a pista.

                                                 Depois, que dona-de-casa…

                                                  E a noite ainda manda brasa.

                                                  Sua virtude: a paciência

                                                 Seu dia bom: a sexta-feira

                                                 Sua cor propícia: o verde

                                                 As flores dos seus pendores:

                                                 Rosa, flor de macieira.

 

 

Gêmeos

 

A mulher de Gêmeos

Não sabe o que quer

Mas tirante isso

É boa mulher.

 

A mulher de Gêmeos

Não sabe o que diz

Mas tirante isso

Faz o homem feliz.

 

A mulher de Gêmeos

Não sabe o que faz

Mas por isso mesmo

É boa demais…

 

 

                                                 Câncer

 

                                                 Você nunca avance

                                                 Em mulher de Câncer.

 

                                                 Seu planeta é a Lua

                                                 E a Lua, é sabido

                                                 Só vive na sua.

                                                 É muito apegada

                                                 E quando pegada

                                                 Pega da pesada.

 

                                                 É mulher que ama

                                                 Com muito saber

                                                 No tocante a cama

                                                 Não sei lhe dizer…

 

 

Leão

 

A mulher de Leão

Brilha na escuridão.

 

A mulher de Leão, mesmo sem fome

Pega, mate e come.

 

A mulher de Leão não tem perdão.

 

As mulheres de Leão

Leoas são.

 

Poeta, operário, capitão

Cuidado com a mulher de Leão!

 

São ciumentas e antagônicas

Solares e dominicais

ígneas, áureas e sadônicas

E muito, muito liberais.

 

 

                                                 Virgem

 

                                                 Se Florence Nightingale era Virgem

                                                 Não sei… mas o mal é de origem.

 

                                                 A mulher de Virgem aceita a amante

                                                 Isto é: desde que não a suplante.

 

                                                 Sexo de consumo, pães-de-minuto

                                                 Nada disso lhe há de faltar

                                                 O condomínio é absoluto

                                                 A virgem é mulher do lar.

 

                                                 Opala, safira, turquesa

                                                 São suas pedras astrais

                                                 Na cuca, muita esperteza

                                                 Na existência, muita paz.

 

 

Libra

 

A mulher de Libra

Não tem muita fibra

Mas vibra.

 

Quer ver uma libriana contente?

Dê-lhe um presente.

 

Quando o marido a trai

A mulher de Libra

balança mas não cai.

 

Se você a paparica

Ela fica.

 

Com librium ou sem librium

Salve, venusina

Que guarda o equilíbrio

Na corda mais fina.

 

 

                                                 Escorpião

 

                                                 Mulher de Escorpião

                                                 Comigo não!

                                                 É a Abelha Mestra

                                                 É a Viúva Negra

                                                 Só vai de vedete

                                                 Nunca de extra.

                                                 Cria o chamado conflito

                                                 de personalidades.

                                                 É mãe tirana

                                                 Mulher tirana

                                                 Irmã tirana

                                                 Filha tirana

                                                 Neta tirana.

                                                 tirana tirana.

                                                 Agora, de cama diz –

                                                 que é boa paca.

 

 

Sagitário

 

As mulheres sagitarianas

São abnegadas e bacanas.

Mas não lhe venham com grossuras

Nem injustiças ou censuras

Porque ela custa mas se esquenta

E pode ser muito violenta.

Aí, o homem que se cuide…

– Também, quem gosta de censura!

 

 

                                                 Capricórnio

 

                                                 A capricorniana é capricornial

                                                 Como a cabra de João Cabral.

                                                 Eu amo a mulher de Capricórnio

                                                  Porque ela nunca lhe põe os próprios.

 

                                                 A caprina é tão ciumenta

                                                 Que até os ciúmes ela inventa.

                                                 Mulher fiel está aí: é cabra

                                                 Só que com muito abracadabra.

 

                                                 Suas flores: a papoula e o cânhamo

                                                 De onde vêm o ópio e a maconha

                                                 Ela é uma curtição medonha

                                                 Por isso nos capricorniamos.

 

 

Aquário

 

Se o que se quer é a boa esposa

A aquariana pousa.

 

Se o que se quer é uma outra coisa

A aquariana ousa.

 

Se o que se quer é muito amor

A aquariana

É mulher macho sim senhor.

 

Porém não são possessivas

Nem procuram dominar

Ou são meigas e passivas

Ou botam para quebrar.

 

 

                                                 Peixes

 

                                                 Mulher de Peixe… peixe é

                                                 Em águas paradas não dá pé

                                                 Porque desliza como a enguia

                                                 Sempre que entra numa fria.

                                                 Na superfície é sinhazinha

                                                 E festiva como a sardinha

                                                 Mas quando fisga um namorado

                                                 Ele está frito, escabechado.

                                                 É uma mulher tão envolvente

                                                 Que na questão do Paraíso

                                                 Há quem suspeite seriamente

                                                 Que ela era a mulher e a serpente.

                                                 Seu Id: aparentar juízo

                                                  Seu Ego: a omissão, o orgulho

                                                 Sua pedra astral: a ametista

                                                 Seu bem: nunca ser bagulho

                                                 Sua cor: o amarelo brilhante

                                                 Seu fim: dar sempre na vista

 

 

 

 

Geratriz

 

       Adalberto de Oliveira Souza

Adalberto 2 (2)

 

 

 

 

 

 

 

 

FUNIL INVERSO

  

 

A unidade

guindado num poço

o funil

a idade.

Posição falsa,

falácia, falcatrua.

Pretensão unívoca

e uma retidão contrária

à área de pouso.

Neste funil

não passa caldo

só saldo de um jogo.

Solto da gravidade

retém

disperso por ócio

ou negócio da China

um caleidoscópio.

A ubiquidade

fora do poço

a única idade.

 

Water reflection inside of well, directly above

 

 

Adeus

 

 

assim falou zaratustra

 

 

                                     “Deus  está morto”

                                     Nietzsche dixit!

                                     Quem sabe se de fato

                                     morreu ou se resiste?

 

                                     (somente morre

                                     quem existe

                                     morreu Nietzsche)

 

                                     Depois de Deus

                                     morrer quem possa?

                                     Talvez a Morte

                                     (consorte nossa).

 

 

Esperança

 

             Nicolas Sauvage e família

 Nicolas e família

 

 

 

 

 

 

 

Nicolas Sauvage, poeta francês, vivendo entre a França e o Japão e, às vezes, na Koreia, nos traz em sua poesia a união entre o Ocidente e o Oriente. Esse entrelugar nos proporciona a captação de uma nova sensibilidade, diversa, nova, outra. Junto vai uma interpretação não definitiva, pois nada é perene e tudo tradução. (Adalberto de Oliveira Souza)

 

 

 

espérance

 

c’est un remerciement

d’un souffle une lumière une lueur

 

la fraîcheur qui suit enfin la canicule

la chaleur aperçue d’une douce peau

 

une plaie qui va s’effaçant s’allonge

lent épanouissement de feuillages

 

boucle lignes courbe oh jeunesse

donne du volume à la lumière

 

vert léger bleu sans couleur

un remerciement

 

Nicolas Sauvage

 

 

 

esperança

  

é um agradecimento

de uma aragem uma luz um clarão

 

a suave brisa que sucede à canícula

o calor percebido por uma pele suave

 

uma ferida que vai desaparecendo se prolonga

lenta dilatação de folhagens

 

enlaça linhas curva ó juventude

dá volume à luz

 

verde leve azul sem cor

um agradecimento

 

 Tradução de Adalberto de Oliveira Souza

 

 

amanhecer 2

 

 

 

Aos segredos que virão

 

    Selma Barcellos

Selma 2

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                                                       (foto de William Allard)

 

 

                                                           AOS SEGREDOS QUE VIRÃO

 

 

                                                    Que procura a minha menina

                                                    Curiosa assim desse jeito

                                                    Não fora o tempo tão breve

                                                    Para caminhos refeitos.

 

                                                    Mistérios, sinos, recados

                                                    Alumbres, guizos, afagos

                                                    O antigo jardim e seus magos?

 

                                                    Deixa-os quietos, menina

                                                    Dormentes, sem espanto

                                                    Por fios de poesia atados.

 

                                                    Vive segredos de novo dia.

                                                    Há muitos. É tanto.