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Pois

 

 

           Selma Barcellos

Selma-no-Jardim-de-Luxumburgp 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                           Que melancolia é essa

                                                           Na Lisboa em que me encontro

                                                           Como se naus inda partissem

                                                           Do velho cais, d’algum ponto.

                                                           E essa névoa que insiste

                                                           Em adormecer a paisagem.

                                                           Onde os reis, descobridores

                                                           Fidalgos, navegadores

                                                           Poetas e trovadores?

                                                           Eis que subo a colina

                                                           ─ a mais alta dentre elas-

                                                           E num clarão, num lampejo

                                                           Vislumbro todos, afinal:

                                                           São manto por sobre o Tejo

                                                           A guardar, como encantados,

                                                           A bela senhora dos mares.

                                                           Mulher que recende a alecrim

                                                           E sabe a cravo encarnado.

 

 

lisboa 

 

 

Fragmentos

 

        Selma Barcellos

Selma no Jardim de Luxemburgo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

(foto de Cartier-Bresson)

 

 

Ela desviou o olhar com a leve impressão de que o conhecia. Ele, não. Ele tinha certeza. Tanto assim que à saída do elevador, delicadamente se (re)apresentou, repetiu-lhe o nome de solteira, perguntou se estava feliz, quantos filhos… Na escada rolante e pelo caminho que os levaria à rua, lembrou-se da casa em que ela morou, da sua melhor amiga, dos bailes, das músicas que dançavam, do exato ponto da praia em que ficavam, do seu maiô azul… Sentiu que era hora de ir quando ele disse lembrar-se do perfume que ela usava. Ah, os homens… Décadas sem se verem e o mesmo papo sedutor, ainda que pleno de lembranças tão precisas. Seguiram em direções opostas. Com ela, a saudade daqueles dias azuis.

 

 

“Only You” (Buck Ram / Ande Rand), com The Platters

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=3FygIKsnkCw[/youtube]

 

 

 

Um elogio ao amor puro

 

         Selma Barcellos

Selma no Jardim de Luxemburgo

 

 

 

 

 

 

 

 

“Há coisas que não são para se perceberem. Esta é uma delas. Tenho uma coisa para dizer e não sei como hei-de dizê-la. Muito do que se segue pode ser, por isso, incompreensível. A culpa é minha. O que for incompreensível não é mesmo para se perceber. Não é por falta de clareza. Serei muito claro. Eu próprio percebo pouco do que tenho para dizer. Mas tenho de dizê-lo. O que quero é fazer o elogio do amor puro. Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão.

Hoje as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria. Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em “diálogo”. O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem. A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam “praticamente” apaixonadas.

Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do amor doente, do único amor verdadeiro que há, estou farto de conversas, farto de compreensões, farto de conveniências de serviço. Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do “tá bem, tudo bem”, tomadores de bicas, alcançadores de compromissos, banancides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas.

Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo? O amor é uma coisa, a vida é outra. O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso “dá lá um jeitinho sentimental”.

Odeio esta mania contemporânea por sopas e descanso. Odeio os novos casalinhos. Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. é uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra.

A vida às vezes mata o amor. A “vidinha” é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha – é o nosso amor, o amor que se lhe tem.

Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa, o amor é outra. A vida dura a Vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também.”

 

Texto de Miguel Esteves Cardoso para o Expresso

 

 
“Que reste-t-il de nos amours” (Charles Trenet – versão de Ronaldo Bastos), com Henri Salvador e Rosa Passos
 
 
 
 

De esquinas e luz

 

      Selma Barcellos

Selma no Jardim de Luxemburgo

Queridos, na crônica da poeta portuguesa Maria do Rosário Pedreira, todos os motivos por que AMO estar na terrinha. São tantas esquinas, janelas, castelos, oliveiras, colinas, guitarras… Sua luz, quando é rio, chama-se Tejo; quando é sal, chama-se mar. E a  hospitalidade dos portuguinhas? Um abraço sem fim. Ainda ontem procurávamos um restaurante no centrinho de Cascais, quando fomos atraídos pelo convite irrecusável do garçom à porta do seu estabelecimento (favor ler com sotaque): “Estão almoçadinhos, estão?” Não deu outra, sapequei-lhe uma beijoca. E veio aquele peixe grelhado que só aqui se faz, mais o pão, o azeite, o vinho, os doces… Paixão.

 

 

 

 

“Em Portugal, o sol deita a cabeça no ombro dos muros e a chuva pinga afetuosamente nas calçadas, que têm desenhos a preto e branco para nos lembrar que vivemos num país antigo. Às vezes, exaltamo-nos com as coisas pequenas, mas lidamos com as grandes com uma brandura que é só nossa – basta dizer que fizemos uma revolução trocando o vermelho do sangue por o dos cravos. Parecemos tristonhos – e cantamos o fado de olhos fechados, porque a saudade é assunto sério – , mas ninguém como nós para inventar uma anedota mal o caldo se entorna, equilibrando qualquer tragédia com um sorriso.

Só temos um vizinho além do mar, mas é como se tivéssemos andado desde sempre de braço dado com o mundo, de tal forma recebemos o estrangeiro com o açúcar que levamos para o Brasil, o abraçamos com o calor proverbial das Áfricas e temperamos as conversas com a pimenta acartada da Índia em baús velhos.

Se o nosso espelho for um mapa, vemo-nos pequeninos, mas a verdade é que tudo se arruma com milagrosa harmonia no diminuto espaço que nos coube: a planície que o vento despenteia nas tardes de verão; o cume gelado das montanhas que nos derrete de espanto; as águas azuis que bordam uma costa tecida de areais a perder de vista ou escarpas que estendem a mão ao céu; os parques florestais onde todos os caminhos vão dar ao sossego e à beleza. Neste país, cidades cosmopolitas e buliçosas ombreiam com aldeias feitas de casas de bonecas e hortas que parecem de brincar; e as autoestradas que aproximam as nossas diferenças concorrem pacificamente com os minúsculos trilhos rasgados entre as pedras, nos quais ainda é possível encontrar um pastor empurrando, sem pressa, o seu rebanho.

Somos romanos, judeus, árabes e celtas, temos carapinha e olhos amendoados, sardas e pele curtida pelo sol; porque dentro de nós fala uma história com muitos séculos, na qual fomos longe e voltámos – e, ao voltarmos, deixámos igrejas, palácios e fortalezas, mas guardamos no coração o que os outros nos deram ou lhes pedimos emprestado. São eles, de resto, que nos fazem orgulhosos de sermos portugueses e dizem, por nós, o que quase temos vergonha de confessar, como se fosse atrevimento elogiar o lugar onde se nasceu. E, embora sejamos poucos, brincam na nossa língua tantos sotaques como eram as vozes do grande poeta Fernando Pessoa, que viu no nosso belo idioma nada mais nada menos que uma pátria. Estamos sempre de braços abertos para quem chega e é essa a melhor razão para nos vir visitar.”

 

“Meu amor marinheiro” (António Campos / Joaquim Pimentel), com Carminho 

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=uez3xGXj7go[/youtube]

 

 

Rio – Lisboa

 

         Selma Barcell0s

Selma-no-Jardim-de-Luxumburgp

 

 

 

 

 

 

 

 

Entre troca de fraldas e colo ao netinho, tempo para ler os mestres e me exibir em minha língua-vó.

Ora bem, penso que estou óptima. Capricho na entonação e pontuo as frases com um charmoso ‘não é?’, digo ‘mais pequeno’ e ‘muita fácil’ sem medo de perder o diploma, já não pergunto onde é o banheiro, a menos que procure o salva-vidas, tampouco se vendem broches; entendo quando se referem às aldrabices dos corruptos; escapo de convites com ‘tenho uma catrefada de coisas a fazer’; aqui e ali salpico um algures, primo bonito do alhures, e lá vou eu.

Não mais arregalo os olhos quando me oferecem um creme para a cara e já ouço com alguma naturalidade as expressões equivalentes a bunda, injeção e – céus! – criança. Gosto imenso de uma famosa propaganda de fraldas que diz “rabinho seco, rabinho são”. Muita boa, não é?

Aprendi que k é capa e que se algo está OK, está ocapa. Lindo pedir uma água lisa, um lume, dizer que determinado tempero sabe a mar, ouvi-los perguntar ‘estou a magoar?’. Tudo bem que uma certa tristeza – nostalgiazinha básica – está na essência dos sentires e cantares portugueses, assim como do indefectível adeus ao se despedirem. Não dizem tchau, até logo, até já. Contam-me que as cangalhas, os carros funerários, além de vários bancos para a família acompanhar o caixão, têm (tinham?) as laterais de acrílico para todo mundo ver. E sofrer junto.

Enfim, ando a fazer progressos. Inclusivamente (sim, aqui se usa) no vocabulário de berço do Cadu: já sei de chuchas, bibrões, traversinas…

No mais, como registrou Saramago, é seguir adiante. A viagem não acaba nunca. Paisagem e língua serão sempre novas.

 

Camões

 

 “Nem às paredes confesso” (Artur Ribeiro / Ferrer Trindade), com António Zambujo

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=Q6FnndViPmA[/youtube]

 

 

 

Meninos, eu li

 

       Selma Barcellos

Selma no Jardim de Luxumburgo

 

 

 

 

 

 

 

 

Da nossa correspondente em Portugal

 

 

No “Expresso” de 22/11, a propósito de “Tony Nagy, que está a ser investigado por suspeitas de enriquecimento ilícito, fugiu para o velho continente e pediu demissão por e-mail.” , comentário de um leitor que se assina Spitzer:

“O Brasil está a desenvolver-se. Há lá muita corrupção, como em todo o lado, mas lá começa a ser escândalo. Os corruptos têm de fugir do Brasil!

Quando é que os corruptos portugueses também terão de fugir?

Eu não quero viver num país onde os corruptos andam à solta, impunemente, e se tornam ministros e «conselheiros de Estado». Eu quero viver num país de onde os corruptos tenham de fugir, com medo da justiça. Eu quero viver num Brasil!”

 

 ***

 

No “Diário de Notícias” de 24/11, seção Classificados Relax VIP:

 

ANA

Senhora portuguesa, viúva, a  passar dificuldades financeiras, convive com cavalheiros em troca de ajuda! Sem experiência… Desde já agradeço pela atenção…!

 

***

 

Mas hein?

 

 

Vale a pena

 

        Selma Barcellos

Selma no Jardim de Luxemburgo

 

 

 

 

 

 

 

DOCEMETRIA

 

delicadezas:

camadas sobrepostas

ao fel do dia.

 

 

 

Neto à vista!

 

        Selma Barcellos

Selma no Jardim de Luxemburgo

 

 

Estrela Tia e Estrela Mater, Selminha ruma à Portugal para se tornar Estrela Vó do Cadu, da Constelação de Barcellos.

Mais brilho para a nossa Estrela.

 

 

 

 

Quatro anos depois…

 

E lá se vai o barquinho rumo a Cascais, roteiro de paixões evidentes, agora acrescidas do sonhado neto… Bom demais! A bordo, uma vó de primeira viagem, exultante, contando os dias para acarinhar Cadu, previsto para o finalzinho de novembro.

Assim, o Bloghetto faz aqui uma pausa. Serenada a ansiedade, recomeçamos. Ao sabor dos ventos. E de uma nova luz sobre o Tejo.

Apareçam, amigos.

Beijocas!

Selminha

 

 

Drummond 111

 

 

A 31 de outubro de 1902, em Itabira, MG, nascia o dono de uma das mais amadas e reconhecidas líricas de nosso país.

 

Estrela Binária e  Bloghetto no Dia D de Drummond.
Mundo vasto…

 

 

 

D’ après Carlos Drummond de Andrade

 

          Selma Barcellos

Selma no Jardim de Luxemburgo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                   “O homem atrás do bigode

                                   é sério, simples e forte.

                                   Quase não conversa.

                                   Tem poucos, raros amigos

                                   o homem atrás dos óculos e do bigode.”

 

Já sem o bigode da mocidade, alguns imbecis insistem em também tirar os óculos da estátua de bronze do poeta, em Copacabana.

O que ele (ou a estátua) diria?

O poema de Selminha diz.

 

MAS COMO DÓI!

 

                                   Se me chateio? Demais.

                                   Choram meus olhos inúteis

                                   e minhas retinas fatigadas

                                   já nem perguntam nada.

                                   Minhas pupilas estão gastas

                                   pela visão contínua de anjos tortos,

                                   desses que vivem na sombra,

                                   à espreita, no meio do caminho.

                                   Fosse esse gauche de óculos

                                   a estátua de uma bunda,

                                   a vasta bunda da Raimunda,

                                   engraçada, sempre sorrindo,

                                   haveria rima e solução.

                                   Eis que mais vasto é meu coração.

                                   E aqui de onde escrevo

                                   estamos todos vivos

                                   (mais que vivos, alegres) —

                                   eu, o poetinha, o Braga, o Jobim…

                                   Nada devia dizer

                                   sobre tristes fatos, ao cabo.

                                   Mas essa lua, mas esse conhaque

                                   botam a gente comovido como o diabo.

 

 

drummond não roubem meus óculos