Quando morre um escritor

 

 

 

 

                       Mesmo depois de morta, uma estrela continua a resplandecer no céu por muito tempo ainda.

                       Quando morre um bom escritor, a sua obra também continua a fulgir no céu da literatura e iluminar os leitores. Essa a sua imortalidade, que academia nenhuma lhe pode assegurar.

                       Senti muito a morte de Moacyr Scliar, que era imortal da Academia Brasileira de Letras desde 2003, mas continuará a viver na sua grande obra, e não por causa do fardão ou da cadeira.

                       Soube que havia sofrido um AVC, mas ignorava a gravidade do seu estado. Sempre me pareceu muito saudável, com enorme disposição, aparentando muito menos idade do que os seus 73 anos, que, aliás, não são demasiados hoje em dia (que consolo!).

                       Era médico atuante e por certo se cuidava. Também setentão, João Ubaldo Ribeiro confirma isso, acrescentando que “Ele até me dava conselhos, pois tenho hábito poucos saudáveis.”

                       Não o conheci pessoalmente, mas todos que conviveram com ele o descrevem como uma pessoa de extrema delicadeza, “Fazia parte de uma espécie em extinção, a dos médicos humanistas”, segundo Drauzio Varella.

                       Essa humanidade também é a marca de sua obra, em que também são presenças constantes sua origem judaica, as tradições, o humor, os conflitos e sofrimentos desse povo admirável.

                       Exemplo emblemático da sua fineza de espírito foi a postura que manteve no episódio do plágio que sofreu por parte do escritor canadense Yann Martel, vencedor do Booker Prize de 2002 com A vida de Pi, em que tomou a idéia central de uma novela de Scliar, Max e os felinos, publicada em 1981 (um jovem judeu náufrago, que sempre tivera terror de felinos, se vê obrigado a dividir o pequeno espaço de um barco com um imenso jaguar).

                       Enquanto o canadense, mesmo admitindo que havia lido uma resenha sobre o livro do brasileiro (editado no Canadá, nos EUA e na Inglaterra), procurava diminuí-lo e desclassificá-lo, chegando a declarar que era a demonstração de “como uma premissa brilhante pôde ser arruinada por um escritor menor”, Scliar elegantemente evitou a polêmica, dizendo que ela nada acrescentaria à sua obra e deixando aos leitores a palavra final.

                       Vejam que até mesmo as capas se parecem…

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

          

          

                       Moacyr Scliar publicou mais de 80 livros (mais de um por ano vivido!), ganhou inúmeros prêmios aqui e no exterior, escrevia semanalmente para a Folha de S. Paulo, sempre baseado em notícias colhidas do jornal, que veiculou hoje seu último texto de ficção (Lágrimas e testosterona, enviado pelo autor no dia 17 de janeiro).

                       Comentei aqui há pouco tempo aquele que também se tornou seu último romance, Eu vos abraço, Milhões, que me agradou muito e segundo a opinião muito mais abalizada do mestre Carlos Heitor Cony “marcará para sempre a literatura brasileira”.

                       Quando morre um escritor como Moacyr Scliar, os leitores e os livros nos sentimos órfãos e de luto, apesar da sua luz que permanece.

 

                      

 

2 comentários

  1. 01/03/11 at 19:51

    Olá meu caro amigo Antonio Carlos Augusto, todos ficamos tristes, uma sentida perda para o literatura. Essa estrela, certamente, marcou a vida de cada um de nós. Parabéns pelo belo texto e profunda homenagem.
    Paz, harmonia e mais inspiração em seus dias.

    forte abraço do leitor,

    c@urosa

  2. Lilian
    08/03/11 at 12:00

    Realmente, 73 anos, hoje (e para nós!) é pouco…
    E, além de tudo, era um “médico humanista”, quando não conseguimos, sequer, formar verdadeiros médicos.
    O céu, ou o que seja, deve estar carecendo de gente boa.

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