Não li, não assisti e não gostei

 

 

Caetano Veloso (Segundo Caderno) e Artur Xexéo (Revista O Globo) escreveram na edição deste domingo de “O Globo” sobre o filme “The life of Pi”, baseado no livro do mesmo nome de Yann Martel, cuja ideia central foi chupada da novela do saudoso Moacyr Scliar, “Max e os felinos”.

Concordo inteiramente com o que os dois disseram, com a diferença de que não li o livro de Martel nem vou assistir ao filme de Ang Lee, por melhores que sejam as referências.

É o meu jeito, talvez canhestro, certamente inútil, de protestar contra a conduta malandra e desrespeitosa de Martel, que além de se apropriar da ideia de Scliar e com ela empalmar o prêmio Booker Prize, tentou se justificar dizendo que havia lido apenas uma resenha sobre o livro do brasileiro (resenha essa que John Updike, o suposto autor, nega ter escrito), e ainda não se pejou de dizer que Scliar seria um escritor menor diante de uma grande ideia.

Não acho que em literatura, e nas artes em geral, existam ideias absolutamente novas ou originais. Nem mesmo creio que isso seja importante. Os autores de qualquer modalidade artística sempre partem de um legado preexistente, até mesmo para negá-lo e contrariá-lo. Queira-se ou não, ninguém escapa da influência daqueles que o antecederam ou lhe são contemporâneos, até mesmo de autores e obras que não se chegou a tomar conhecimento direto. É o círculo virtuoso da arte.

Nada há de errado, pois, e é até muito natural partir de um mesmo tema ou de uma mesma ideia para desenvolver uma nova obra. Os próprios artigos de Caetano e Xexéo, quase se repetindo um ao outro, são um exemplo disso.

O que me repugna é o maucaratismo, a cara de pau, o descaramento revelado por Martel. Algo parecido com o que fez Rod Stewart, que plagiou o refrão de “Taj Mahal” de Jorge Benjor e depois, para se safar do processo, cedeu os direitos autorais da “sua” composição “Do ia think I´m sexy?” para a Unicef!

Quando Moacyr Scliar morreu, em fevereiro de 2011, escrevi aqui a respeito da apropriação indébita de Martel, e fico contente agora em saber que, com Caetano e Xexéo, estou em boa companhia (sem nenhum plagiar o outro).

 

 

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 Até as capas dos livros de Scliar e Martel são muito parecidas

 

 

 

 

5 comentários

  1. Sophie
    14/01/13 at 19:54

     
    Antonio, ontem, tarde da noite, assisti a trechos de todos os filmes que concorrem ao Oscar. E fiquei maravilhada com todos eles. Se tivesse que decidir, sinceramente, eu não saberia. Fiquei apaixonada por Amour, comovida com Lincoln e extasiada com as cenas de Pi. Hoje, por acaso, enquanto trabalhava, li o artigo do Xexéo. Pô, pensei…e agora? Eu não sabia desse lance de plágio. Pelo o que assisti, o filme é lindo demais, Antonio, e eu pretendia/pretendo assisti-lo. Se eu fosse herdeira do Scliar eu não deixaria isso barato de jeito nenhum. E não seria por dinheiro, seria por justiça, que é muito mais importante.
     
    Também indignada, un beso!

  2. 14/01/13 at 22:42

    Bem ponderadíssimo, Antonio. Li os dois artigos a que você se referiu e a lembrança do plágio desavergonhado também me incomodou. 
    Sabe com que filme me emocionei? “Beasts of the Southern Wild“. Assisti-o na íntegra e fiquei impressionadíssima com a atuação da menina que, segundo li, é a primeira criança a concorrer a Oscar de melhor atriz. A atuação dela chega a ser épica. 
    Beijocas!

  3. Paulinho Lima
    14/01/13 at 22:44

    Faço das palavras sempre sabias da Sophie as minhas. Concordo em gênero, número e grau com voce. Mas vá vê o filme é muito bom e faça de conta que a história é do Scliar, por falar em Scliar, já comprou ou leu seu último livro A POESIA DAS COISAS SIMPLES. Espetacular e prazeroso de ler…um devaneio. A crõnica UM MESTRE DA HISTÓRIA CURTA é sensacional…um texto de 09/2000

  4. Sophie
    14/01/13 at 23:13

     
    Selma, esqueci de falar do filme da menininha, que é simplesmente DEMAIS! Por isso eu disse que tava difícil escolher: é cada um melhor que o outro…
     
    Paulinho, obrigada pelas sábias palavras…rs…beso!
     
     

  5. Carolgama
    14/01/13 at 23:31

    O filme, q assisti antes d saber Da polemica, e a historia Em si me pareceram auto ajuda, tudo a ser preenchidO pra ganhar o Oscar..

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