Posts from fevereiro, 2011

Quando morre um escritor

 

 

 

 

                       Mesmo depois de morta, uma estrela continua a resplandecer no céu por muito tempo ainda.

                       Quando morre um bom escritor, a sua obra também continua a fulgir no céu da literatura e iluminar os leitores. Essa a sua imortalidade, que academia nenhuma lhe pode assegurar.

                       Senti muito a morte de Moacyr Scliar, que era imortal da Academia Brasileira de Letras desde 2003, mas continuará a viver na sua grande obra, e não por causa do fardão ou da cadeira.

                       Soube que havia sofrido um AVC, mas ignorava a gravidade do seu estado. Sempre me pareceu muito saudável, com enorme disposição, aparentando muito menos idade do que os seus 73 anos, que, aliás, não são demasiados hoje em dia (que consolo!).

                       Era médico atuante e por certo se cuidava. Também setentão, João Ubaldo Ribeiro confirma isso, acrescentando que “Ele até me dava conselhos, pois tenho hábito poucos saudáveis.”

                       Não o conheci pessoalmente, mas todos que conviveram com ele o descrevem como uma pessoa de extrema delicadeza, “Fazia parte de uma espécie em extinção, a dos médicos humanistas”, segundo Drauzio Varella.

                       Essa humanidade também é a marca de sua obra, em que também são presenças constantes sua origem judaica, as tradições, o humor, os conflitos e sofrimentos desse povo admirável.

                       Exemplo emblemático da sua fineza de espírito foi a postura que manteve no episódio do plágio que sofreu por parte do escritor canadense Yann Martel, vencedor do Booker Prize de 2002 com A vida de Pi, em que tomou a idéia central de uma novela de Scliar, Max e os felinos, publicada em 1981 (um jovem judeu náufrago, que sempre tivera terror de felinos, se vê obrigado a dividir o pequeno espaço de um barco com um imenso jaguar).

                       Enquanto o canadense, mesmo admitindo que havia lido uma resenha sobre o livro do brasileiro (editado no Canadá, nos EUA e na Inglaterra), procurava diminuí-lo e desclassificá-lo, chegando a declarar que era a demonstração de “como uma premissa brilhante pôde ser arruinada por um escritor menor”, Scliar elegantemente evitou a polêmica, dizendo que ela nada acrescentaria à sua obra e deixando aos leitores a palavra final.

                       Vejam que até mesmo as capas se parecem…

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

          

          

                       Moacyr Scliar publicou mais de 80 livros (mais de um por ano vivido!), ganhou inúmeros prêmios aqui e no exterior, escrevia semanalmente para a Folha de S. Paulo, sempre baseado em notícias colhidas do jornal, que veiculou hoje seu último texto de ficção (Lágrimas e testosterona, enviado pelo autor no dia 17 de janeiro).

                       Comentei aqui há pouco tempo aquele que também se tornou seu último romance, Eu vos abraço, Milhões, que me agradou muito e segundo a opinião muito mais abalizada do mestre Carlos Heitor Cony “marcará para sempre a literatura brasileira”.

                       Quando morre um escritor como Moacyr Scliar, os leitores e os livros nos sentimos órfãos e de luto, apesar da sua luz que permanece.

 

                      

 

 

                        Os Salvadores da Pátria estão nas Pílulas.

 

Samba com sotaque paulistano

 

 

                        Além dos incomensuráveis Adoriran Barbosa e Paulo Vanzolini, o samba paulistano tem outros grandes representantes.

                        Um dos maiores, que encarna a figura típica do malandro, na vestimenta, no linguajar e no samba sincopado, é Germano Mathias, com 75 anos de idade e 55 de carreira. Datam dos anos 50 e 60 os seus maiores sucessos, como Guarde a sandália dela, que compôs em parceria com Aluízio de Carvalho, Malvadeza Durão, de Zé Keti, A História de um Valente, de Nelson Cavaquinho, e Joga a Chave, de Adoniran.

                        De malandro só mesmo a estampa. Sempre deu duro e mesmo assim mora hoje num pequeno apartamento de um conjunto habitacional na Vila Brasilândia, periferia de São Paulo.

                        Conta que era farrista, “metia o pau no dinheiro. Gastava em festa, corrida de cavalo e bilhar” e lamenta que a malandragem já não seja a mesma.

                        Mas ele continua o mesmo, com o gingado e o tempero das velhas batucadas e rodas de samba dos engraxates na Praça da Sé, de que participava e dá uma mostra no vídeo abaixo.

 

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História (quase) Extraordinária

 

 

 

                        Quando escrevia o post abaixo sobre a Triologia Millennium, não confiando na memória fui buscar na estante o livro de Poe, Histórias Extraordinárias, para checar as novelas ou contos por mim citados, Os crimes da rua Morgue e O mistério de Marie Rogêt.

                        Ao abrir o livro, caíram de dentro dele quatro papelotes amarelecidos e um tanto apagados da Mega Sena. Ainda dá para ler os números apostados, que o jogo se refere ao  Concurso 0896 e foi feito no dia 23 de agosto de 2007, às 10h26min. Todas elas apostas mínimas, de R$ 1,50.

                        Não tenho a menor ideia de como foram parar ali. Muito raramente aposto na Mega Sena ou em qualquer outro tipo de loteria. Longe estou de ser virtuoso, mas de todos os vícios conhecidos (será que haverá algum a ser inventado ainda?), o que menos me atrai é o jogo. Nem me lembro de haver colocado os bilhetes dentro do livro, o que também não costumo fazer.

                        Mas, se não eu, quem terá posto, e justamente no livro de Poe, entre tantos outros da estante?

                        E se uma daquelas apostas tiver ganhado um grande prêmio? Será tarde demais para reclamá-lo? Como saber?

                        Será que o fantasma de Poe (beberrão e jogador) está me pregando uma peça ou me ajudando a tornar milionário?

                        Fiquei um bom tempo com os papeluchos na mão, pensando nisso tudo e no que fazer.

                        Se tivesse o talento de Poe, poderia extrair daí mais uma história extraordinária.

                        Se fosse ganancioso trataria de apurar se estou rico ou se perdi uma fortuna por não reclamar o prêmio tempestivamente (e então me desesperar).

                        Se tivesse espírito de jogador iria repetir incansavelmente os números em novas apostas .

                        Prefiro a fantasia e o insólito.

                        A exemplo de Borges com o seu Livro de Areia, e Drummond diante da Máquina do Mundo, depois de consultar as novelas, devolvi os papeizinhos ao ventre do livro para que cumpram seu destino, enquanto sigo no meu.

  

P.S.                 Para os curiosos e supersticiosos, deixo aqui os números de uma das apostas: 07, 09, 24, 37, 58, 60. Se alguém jogar e ganhar uma grande soma com eles, contento-me com uma gratificação que me permita aposentar definitivamente, e passar o resto da vida só a ler e viajar pelo mundo.

 

 

 

 

 

                       A epopeia fenomenal, nas Pílulas.

 

Trilogia Millennium

 

 

 

Para a Carolina, neste seu dia em que me tornou pai.

 

 

 

 

                        De livros policiais ou de mistério há os que gostam e os que detestam.

                        Dos que gostam, há os que leem esses livros por mero divertimento, sem levá-los a sério, e os que lhes reconhecem a importância como gênero literário.

                        Há, ainda, os que gostam dos livros que dão ênfase à ação, e os que preferem a abordagem psicológica e a solução  racional do mistério, com o predomínio da massa encefálica sobre os músculos. Nos EUA, na tradição de Dashiell Hammett, Raymond Chandler, entre outros, os autores costumam adotar a primeira fórmula. Os ingleses e europeus em geral, na esteira de Agatha Christie, Arthur Conan Doyle e Georges Simenon, são da segunda vertente. O mestre de todos e praticamente o criador do gênero, Edgar Allan Poe, também.

                        Sou um leitor contumaz e voraz de livros policiais, de suspense ou mistério. Mais do que a história em si, creio que um bom livro dessa natureza sustenta-se, sobretudo, pelo ambiente, pela atmosfera que cria e nos aprisiona às suas páginas, que avidamente devoramos e nos custa interromper a leitura.

                        Acabamos entranhados nessa ambiência de tal maneira que ela nos acompanha no dia a dia, nos intervalos das tarefas cotidianas, não nos sai da cabeça até que retomamos a leitura. E lamentamos ao chegar ao desfecho e cerrar o livro com seus segredos desvendados.

                        Além dos grandes mestres acima citados, aos quais poderiam ser acrescidos vários outros, para os aficionados é uma delícia descobrir novos autores do seu agrado. Nos últimos tempos isso ocorreu comigo em relação ao norte-americano John Dunning, na linha da chamada série negra, com seu truculento detetive, Cliff Janeway, que abandonou a polícia para se tornar livreiro de obras raras, mas sempre acaba se envolvendo em confusões, pancadarias e crimes relacionados com livros, e ao nosso compatriota Luiz Alfredo Garcia-Rosa, com o seu Delegado Espinosa, que conseguiu a proeza de ambientar com grande talento a novela policial no Brasil (o que muitos consideravam impossível), mais especificamente no Rio de Janeiro e numa decadente Copacabana.

                        A mais recente descoberta devo à minha filha Carolina que, não bastasse me agraciar a vida com a Manuela (e nada supera isso), apresentou-me a uma série de novelas policiais escritas e passadas na modelar e gélida Suécia!

                        Trata-se da Trilogia Millennium, que já se tornou cult, de autoria de Stieg Larsson, protagonizada por um jornalista econômico investigativo, Mikael Blomkvist (um alter ego do autor, também jornalista, ativista político e dono de uma revista na Suécia, como o personagem) e uma tão estranha quanto apaixonante garota, enganosamente frágil, punk e hacker infernal, Lisbeth Salander (se a máxima de House é que todos mentem, a dela é que todos têm segredos), que acabam por se aliar em circunstâncias inesperadas.

                        Millennium é o nome da revista de que Mikael Blomkvist é um dos proprietários, e os três romances da trilogia são, na sequência: Os homens que não amavam as mulheres (título infeliz que a versão brasileira, acompanhando a francesa, deu ao original Os homens que odeiam as mulheres, muito mais representativo); A menina que brincava com fogo e A rainha do castelo de ar.

                        Acabo de ler o primeiro volume, que se fundamenta numa variação de um dos temas clássicos das novelas de mistério, o enigma do quarto fechado, engendrado por Poe, na célebre novela Os crimes da rua Morgue. Aliás, o romance de Stieg também se abebera na fonte de outra novela de Poe, O mistério de Marie Rogêt (continuação de Os crimes da Rua Morgue).

                        No caso, o ponto de partida é um provável homicídio sem cadáver ocorrido há quase 40 anos numa ilha que se encontrava isolada na ocasião, em virtude de um grave acidente de trânsito na única ponte de acesso ao continente. Outras tramas se intercalam, porém, escândalos, conflitos e segredos escabrosos de uma família da velha elite sueca, a que a vítima desaparecida pertencia.

                        A impressão que se tem da Suécia, de um país plácido, desenvolvido e civilizado desmorona diante do que tomamos conhecimento ao longo do romance. Lá como cá grassam agressões e violações a mulheres (segundo informa o livro, na Suécia 46% das mulheres já sofreram violência de um homem!), golpes financeiros, corrupção, imprensa marrom e tendenciosa.                            

                        O que nos reporta ao que diz Pessoa pelos versos de Álvaro de Campos  (Opiário):

 

                                                         “Eu acho que não vale a pena ter

                                                         Ido ao Oriente e visto a índia e a China.

                                                         A terra é semelhante e pequenina

                                                         E há só uma maneira de viver.”

 

                        A tradução da edição brasileira deste primeiro romance da trilogia é de Paulo Neves, feita a partir da edição francesa. As traduções no Brasil do inglês para o português costumam ser rebarbativas, típicas de quem conhece a primeira mas ignora as sutilezas da nossa língua, que, ao contrário do inglês, dispensa o uso de pronomes, quando não se afiguram necessários à clareza do texto. O que se tem então é uma tradução literal do inglês, repleta de inúteis e destoantes “eu”, “ele”, “ela”, “meu”, “seu”, “sua”, etc. Paulo Neves parece ter se contaminado desse vício, e mesmo traduzindo do francês, perpetra frases como esta: “Tudo porque o acaso fizera um ex-colega seu jornalista (?), na época relações-públicas da prefeitura […]”.

                        Mesmo com a tradução tacanha, o livro flui agradavelmente e nos prende ao longo de suas mais de 500 páginas, em especial pelas tramas envolventes, que se entrelaçam, pela força das personagens muito bem delineadas. E também pela curiosidade de conhecer aspectos da cultura sueca e dos seus costumes liberais.

                        Muito melhor do que eu, resumem Luiz Alfredo Garcia-Roza e Contardo Calligaris, na contracapa do livro:

 

                        “Em Os homens que não amavam as mulheres a riqueza dos personagens, a narrativa ágil e inteligente e os surpreendentes desdobramentos da história formam um conjunto magnífico que revela Stieg Larsson como um grande mestre da literatura de suspense” (Luiz Alfredo Garcia-Roza)

 

                        “O problema com Larsson é que, se agente se aventura e entra na história, está perdido, não tem como largar o livro. Talvez seja porque os protagonistas são animados por uma paixão parecida com a que motiva a curiosidade de todos nós: os dois, o jornalista bem-sucedido e a adorável jovem hacker (punk de corpo e espírito), são indivíduos sem família (ou quase), decididos a desvendar, justamente, um segredo de família.” (Contardo Calligaris).

 

                        Estou ansioso para ler os outros dois volumes da trilogia, que infelizmente não passará disso: Stieg Larsson, pouco depois de entregar aos editores os três romances, em 2004, sofreu um enfarte fulminante em casa e morreu com apenas 50 anos, sem nem mesmo ver os livros publicados e desfrutar do sucesso retumbante de crítica e de público da sua obra. Desde o lançamento em 2005, a trilogia vendeu quase três milhões de cópias somente na Suécia, tendo sido publicada em outros 35 países. Além disso, os três livros já se transformaram em filme, o primeiro deles lançado na Europa em 2009, colhendo um grande público e muitos elogios da crítica  (não há previsão de lançamento no Brasil, mas pode ser assistido em DVD).

 

 

 

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O (bom) humor português

 

 

 

                       Os portugueses são tidos como carrancudos, ríspidos e até mesmo mal-educados com os estrangeiros.

                       Puro engano. Têm eles um humor próprio e refinado, que precisa ser entendido.

                       Quando estive em Lisboa pela primeira vez, com meu pai, ficamos amigos do gerente do hotel, com o qual conversávamos longamente. De certa feita, falando sobre as piadas de portugueses que contamos no Brasil, perguntei-lhe se isso também não ocorria em Portugal em relação a nós, brasileiros, ao que ele me respondeu, muito sério:

                       — E precisa?

                       Quando retornei a Lisboa em 2009, com minha mulher, tomei conhecimento de um cartunista dos mais famosos e considerados por lá, José Bandeira.

                       Lisboeta, nascido em 1961, iniciou a sua carreira de cartunista político em 1983 no Diário de Notícias, onde publica, desde 1990, a série diária Cravo & Ferradura. Além disso, faz ilustração e o que chamam de banda-desenhada (algo como as nossas tiras), tendo publicado o livro Namoros, Casamentos e Outros Desencontros, pelo o qual recebeu o prêmio de Melhor Álbum de Tiras Humorísticas no certame da Amadora, em 2003. A este se juntaram inúmeros outros prêmios e exposições coletivas em Portugal e no exterior (Brasil, Croácia, Costa Rica, Dinamarca, Espanha, China, Turquia). Está representado no Sammlung Karikaturen & Cartoon Basel (na Suíça) e na antologia Os Melhores Cartoons Políticos da Actualidade (vol. 1992).

                       Mal comparando, digamos que ele é uma espécie de Millor Fernandes português (sem a amplitude intelectual do nosso grande mestre) já que também escreve, e bem, textos curtos e rascantes.

                       Há pouco, descobri o seu blog, Bandeira ao Vento , que passei a visitar com regularidade e do qual extraio alguns exemplos do seu humor, escrito (mantido a grafia original) e gráfico.

 

  

Conto curto

Um Homem Seguro de Si passeava pela avenida e pensava para com os seus botões: “Um Arquitecto Famoso desenhou-me a casa; um amigo, Designer de Interiores, mobilou-ma; visto apenas a roupa que um Estilista Premiado desenha para mim e não como senão em restaurantes aconselhados pelo meu mordomo. Sou finalmente uma Pessoa de Bom Gosto”.

 

Os sapatos de um homem

Dizem que para compreender um homem devemos andar um quilómetro com os seus sapatos. É uma posição filosófica razoavelmente segura: se ainda assim não o compreendemos, estamos a um quilómetro de distância e temos os sapatos dele.

 

Mínimas

O verdadeiro céptico não é o que duvida de tudo; é o que procura a solução depois de a ter encontrado.

 

A 5ª de Schubert

O fantasma de Mozart apareceu um dia a Schubert. Ambos falavam alemão, mas apesar disso cada um entendia o que o outro dizia. E ao cabo de algumas horas de boa conversa, Wolfgang perguntou ao colega:

“Não tenho mãos para o fazer eu mesmo; escreverias uma sinfonia por mim?”

Soubesse Schubert que morreria ainda mais novo do que Mozart e talvez não tivesse dito que sim.

 

Questões de Moral

A minha filha, que faz vinte anos daqui por uns dias, diz-me que está “velha”. E pergunta-me: “Achas que já tenho idade para mentir sobre a idade?”

 

 

 

 

 

Bandeira de Papel: A Greve Geral

 

 

Bandeira de Papel: Um livro 5 estrelas

 

 

 

 

 

 

 

 

                        Marotagens martinianas, nas Pílulas.

 

A perda da inocência

 

 

 

                       “Envelhecer é um crime”, diz Jeanne, personagem de Maria Schneider, enquanto se recorda da sua infância, numa das cenas de  O Último tango em Paris.

                       Se envelhecer é um crime, a morte é o que os doutrinadores do Direito Penal chamam de crime exaurido.

                       Para Schneider o crime se exauriu no último dia 3, aos 58 anos de idade.

                       Prefiro guardar sua imagem anterior ao crime e à perda da inocência, aos 19 anos, no filme do grande Bernardo Bertolucci,  linda (inteiramente fora dos padrões atuais) com sua cabeleira anelada, seu rosto de menina num corpo opulento de mulher, seios fartos, contracenando com Marlon Brando que começava a envelhecer (tinha 48 anos), mas ainda muito bonito e charmoso.

                       Há alguns anos, Schneider concedeu uma longa entrevista em que confessou ter se viciado em cocaína e heroína, dormido com homens e mulheres e até se internado em uma clínica de tratamento de doentes mentais. Grande parte disso ela atribuía ao filme, ao seu despreparo para enfrentar a enorme repercussão e por haver se sentido humilhada e manipulada por Bertolucci e Brando, o qual teria proposto a cena de sexo anal, que não constava do roteiro.

                       Realmente, O Último tango em Paris causou furor na época pelas cenas de sexo entre Brando e Schneider, em especial a célebre cena da manteiga utilizada por Paul ao sodomizar Jeanne (aliás, mais adiante, Paul encoraja Jeanne a fazer algo semelhante com ele). Por isso, muitos — talvez a maioria — se lembrem dele apenas como um filme erótico ou de sacanagem, quando na verdade é um filme esplêndido que merece ser revisto, o que acabo de fazer.

                       Trata-se de um filme intimista e sensível, sobre o encontro improvável e inviável de dois desconhecidos num apartamento vazio, onde buscam descobrir um no outro um rumo para suas vidas. Paul está em crise pelo súbito e inexplicável suicídio da mulher. Jeanne está em dúvida sobre o que deseja para si e se deve ou não casar com o jovem noivo cineasta (Jean-Pierre Léaud, queridinho de Truffaut). Enquanto para ele a vida parece acabada e sem nenhum sentido, ela ainda está insegura e confusa com o começo da vida e seus tantos sentidos. Somente o sexo é capaz de uni-los, o desespero dele com a perplexidade dela.

                       Além da cena da manteiga, em que Paul obriga Jeanne a repetir um pungente libelo contra a família e os valores decrépitos (“Vou lhe falar de segredos de família, essa sagrada instituição que pretende incutir virtude em selvagens. Repita o que vou dizer: sagrada família, teto de bons cidadãos. Diga! As crianças são torturadas até mentirem. A vontade é esmagada pela repressão. A liberdade é assassinada pelo egoísmo. Família, porra de família!”), há diversas cenas antológicas, como a em que Paul fala com o cadáver da mulher, e a em que conversa com o amante dela, ambos vestidos com robes idênticos, que ela lhes havia comprado. Ah, e a música maravilhosa de Gato Barbieri!

                       Toda a sequência final é belíssima, a começar pelo salão de tango (que me lembra, com mais luxo, a velha Confitería La Ideal, de Buenos Aires) até o clímax da morte de Paul, quando, já baleado, abre a porta e sai à sacada. O olhar de infinda tristeza que Brando exprime é digno de 100 Oscares (e há ainda o que acredito ter sido um “caco” genial dele que é tirar o chiclete da boca e grudar no parapeito).

                       Corta!

                       Ele já caído ao fundo, em posição fetal, e ela em primeiro plano com o revólver na mão a murmurar palavras aparentemente desconexas, mas plenas de significado sobre a relação desesperada dos dois: “eu não conheço ele”; “eu não sei o nome dele”…

 

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O Dom Casmurro sanguinário

 

 

 

                        “Todo crime deságua numa confusão de hemácias”

(do narrador não identificado)

 

 

                       A cada dia tenho mais motivos para crer que os livros nos procuram ou evitam, dependendo de haver ou não afinidade entre eles e nós, ou até mesmo do estado de humor, deles e nosso.

                       Em novembro de 2010, havia lido sobre o lançamento do primeiro romance de Marco Lucchesi, escritor, ensaísta, poeta, tradutor e editor da Biblioteca Nacional,  autor de uma vasta obra fartamente premiada e reconhecida no Brasil e no exterior (candidato favorito para ocupar a cadeira vaga da ABL).

                       Soube pela breve resenha que na sua estreia como romancista, tomando como ponto de partida um crime passional que ocorrera no Rio de Janeiro dos tempos de Machado de Assis, Lucchesi enveredava por uma narrativa sustentada por fatos e referências da época que levariam a supor que Machado de algum modo teria se inspirado naquele homicídio ao escrever Dom Casmurro e que, a exemplo da infeliz mulher assassinada, Capitu seria apenas outra vítima de uma sociedade machista que sistematicamente absolvia os varões que cometiam crimes a pretexto de lavar a honra, embora Bentinho não tenha matado (fisicamente) a mulher.

                       A minha paixão por Machado logo se alvoroçou e fiquei muito interessado no romance, mas com os atropelos do final de ano me esqueci completamente dele.

                       Minha livraria predileta (além dos sebos) no Rio de Janeiro é a Livraria da Travessa, principalmente a de Ipanema (R. Visconde do Pirajá, 572) e as do centro (na R. 7 de Setembro, Av. Rio Branco e R. do Ouvidor), mais acolhedoras. Pode parecer bobagem,  porém mesmo sendo de uma mesma rede cada livraria tem personalidade própria, não apenas em decorrência das instalações, mas sobretudo pela disposição dos livros, pelo ambiente, pelos atendentes e até pelos frequentadores.

                       Havia zanzado por algumas delas, comprado livros e CDs. Fui quase todos os dias na de Ipanema, mais próxima do nosso hotel, na qual, aliás, há um café e restaurante com ótimos pratos frugais, vinhos e espumantes honestos, a preços bem razoáveis.

                       Na manhã da nossa partida, vagueando pela Visconde de Pirajá, chamou-me a atenção uma pequena livraria (Livraria Galileu) da qual não me dera conta antes, que me pareceu bem simpática, e nela entrei. Logo no primeiro balcão deparo com o romance de Marco Lucchesi, O Dom do crime (que não havia visto na Travessa, onde por certo também deve estar à venda) e imediatamente me veio à lembrança a referência do lançamento. Claro que tratei de comprar o livro, que parecia estar ali a se exibir para mim e me livrar do esquecimento. 

 

 

                       Que deliciosa surpresa! Com pouco mais de 150 páginas, que não se consegue parar de ler, o livrinho me proporcionou momentos do mais puro deleite.

                       Por sua formação acadêmica, de crítico literário e pesquisador, Lucchesi poderia ter optado por um ensaio ou uma obra documental, como alguns de seus livros anteriores. Preferiu, porém, o romance e acertou em cheio ao criar engenhosamente um personagem narrador, não identificado, contemporâneo de Machado, que conta a história para os pósteros. Trata-se de um velho advogado, que ao ser aconselhado pelo médico a escrever suas memórias como terapia, acredita que a vida alheia seja bem mais interessante e mergulha nas reminiscências do crime ocorrido em 1866, em que o médico José Mariano da Silva, enlouquecido de ciúmes e convicto da traição da mulher, Helena Augusta, acaba por matá-la cruelmente, seccionando-lhe a jugular com um bisturi.

                       Logo no início, bem ao estilo de Machado, o personagem narrador explica:

 

                       “Fui ao Hotel Globo. Pedi uma taça de vinho do Porto e acendi meu havana. A cabeça não saía do tribunal e do crime da rua dos Barbonos. Passaram-se quarenta anos e aquela história ainda me confunde.

                       É sobre isso que pretendo escrever, caro doutor Schmidt: as memórias dos outros. Prometo frear o tom, mais comedido, talvez mais frio, como querem os positivistas. Um livro sem opiniões. Beirando o cinismo. Ou quase.

                       Machado e meus contemporâneos não terão acesso a estas páginas. Vou depositá-las na arca do sigilo do Instituto Histórico e Geográfico e manifesto claramente o desejo de que esses rabiscos só poderão ser abertos depois de 6 de novembro de 2010, quando serei um espectro, assim como os personagens deste libelo. Se houver descendentes, não meus, que respondam. Os que vagamos nestas folhas estaremos desaparecidos. Apenas a memória dos nomes. Quem há de se ofender com minhas palavras, quem há de me convocar para um duelo, depois de sopesar uma verdade sobre a qual cabem tantas dúvidas?

                       Aos fatos senhores. Aos fatos!”

 

                       O homicídio realmente ocorreu e teve grande repercussão na sociedade carioca daqueles tempos. O Dr. José Mariano da Silva chegou a ser médico do pai do poeta Olavo Bilac. Foi defendido pelo famoso criminalista de então, Busch Varela, tio de Fagundes Varela. Ao pesquisar, descobri que existe um livro a respeito dos acontecimentos, escrito por Eulálio Leandro:  O Juri da Corte 1866: O crime do Dr. José Mariano da Silva.

                       A partir disso, e do fato de que Machado na época trabalhava no Diário do Rio de Janeiro e certamente teve conhecimento direto do noticiário, o personagem narrador (ou o autor) acredita ser possível que o crime haja servido de inspiração para Machado de Assis escrever Dom Casmurro.

                       O personagem narrador (mesmo convencido da inocência de Helena Augusta e aparentando — ou simulando — certa antipatia por Machado) vale-se dos argumentos da defesa e da promotoria durante o julgamento para nos conduzir ao mesmo dilema machadiano: Helena Augusta (Capitu) teria mesmo traído o Dr. José Mariano (Bentinho), ou tudo não passaria de uma teia de falsas suspeitas e intrigas em que o marido se enredou (ou foi enredado) e não conseguiu se libertar?

                      

 

 

   Em uma entrevista, o próprio Lucchesi anota:

 

 

 

                       “É claro que como critico literário eu não acredito que um fato explique o que a obra literária realiza. Ela é maior do que tudo. E isso vale mais para Machado. No entanto, as coincidências mereceriam alguma consideração, porque existem ressonâncias importantes. Mas a ficção de Machado está além de toda factualidade.”

 

                       O paralelo e a mescla entre realidade e ficção, a presença constante, mas bem dosada, de metalinguagem e erudição, o texto refinado, ágil e saboroso arrastam o leitor por um labirinto cuja aflição maior é terminar de percorrê-lo ao final do livro, com a imensa vontade de permanecer nas suas vielas intrincadas, como aquelas mesmas que atravessamos ao longo da vida.