O Dom Casmurro sanguinário

 

 

 

                        “Todo crime deságua numa confusão de hemácias”

(do narrador não identificado)

 

 

                       A cada dia tenho mais motivos para crer que os livros nos procuram ou evitam, dependendo de haver ou não afinidade entre eles e nós, ou até mesmo do estado de humor, deles e nosso.

                       Em novembro de 2010, havia lido sobre o lançamento do primeiro romance de Marco Lucchesi, escritor, ensaísta, poeta, tradutor e editor da Biblioteca Nacional,  autor de uma vasta obra fartamente premiada e reconhecida no Brasil e no exterior (candidato favorito para ocupar a cadeira vaga da ABL).

                       Soube pela breve resenha que na sua estreia como romancista, tomando como ponto de partida um crime passional que ocorrera no Rio de Janeiro dos tempos de Machado de Assis, Lucchesi enveredava por uma narrativa sustentada por fatos e referências da época que levariam a supor que Machado de algum modo teria se inspirado naquele homicídio ao escrever Dom Casmurro e que, a exemplo da infeliz mulher assassinada, Capitu seria apenas outra vítima de uma sociedade machista que sistematicamente absolvia os varões que cometiam crimes a pretexto de lavar a honra, embora Bentinho não tenha matado (fisicamente) a mulher.

                       A minha paixão por Machado logo se alvoroçou e fiquei muito interessado no romance, mas com os atropelos do final de ano me esqueci completamente dele.

                       Minha livraria predileta (além dos sebos) no Rio de Janeiro é a Livraria da Travessa, principalmente a de Ipanema (R. Visconde do Pirajá, 572) e as do centro (na R. 7 de Setembro, Av. Rio Branco e R. do Ouvidor), mais acolhedoras. Pode parecer bobagem,  porém mesmo sendo de uma mesma rede cada livraria tem personalidade própria, não apenas em decorrência das instalações, mas sobretudo pela disposição dos livros, pelo ambiente, pelos atendentes e até pelos frequentadores.

                       Havia zanzado por algumas delas, comprado livros e CDs. Fui quase todos os dias na de Ipanema, mais próxima do nosso hotel, na qual, aliás, há um café e restaurante com ótimos pratos frugais, vinhos e espumantes honestos, a preços bem razoáveis.

                       Na manhã da nossa partida, vagueando pela Visconde de Pirajá, chamou-me a atenção uma pequena livraria (Livraria Galileu) da qual não me dera conta antes, que me pareceu bem simpática, e nela entrei. Logo no primeiro balcão deparo com o romance de Marco Lucchesi, O Dom do crime (que não havia visto na Travessa, onde por certo também deve estar à venda) e imediatamente me veio à lembrança a referência do lançamento. Claro que tratei de comprar o livro, que parecia estar ali a se exibir para mim e me livrar do esquecimento. 

 

 

                       Que deliciosa surpresa! Com pouco mais de 150 páginas, que não se consegue parar de ler, o livrinho me proporcionou momentos do mais puro deleite.

                       Por sua formação acadêmica, de crítico literário e pesquisador, Lucchesi poderia ter optado por um ensaio ou uma obra documental, como alguns de seus livros anteriores. Preferiu, porém, o romance e acertou em cheio ao criar engenhosamente um personagem narrador, não identificado, contemporâneo de Machado, que conta a história para os pósteros. Trata-se de um velho advogado, que ao ser aconselhado pelo médico a escrever suas memórias como terapia, acredita que a vida alheia seja bem mais interessante e mergulha nas reminiscências do crime ocorrido em 1866, em que o médico José Mariano da Silva, enlouquecido de ciúmes e convicto da traição da mulher, Helena Augusta, acaba por matá-la cruelmente, seccionando-lhe a jugular com um bisturi.

                       Logo no início, bem ao estilo de Machado, o personagem narrador explica:

 

                       “Fui ao Hotel Globo. Pedi uma taça de vinho do Porto e acendi meu havana. A cabeça não saía do tribunal e do crime da rua dos Barbonos. Passaram-se quarenta anos e aquela história ainda me confunde.

                       É sobre isso que pretendo escrever, caro doutor Schmidt: as memórias dos outros. Prometo frear o tom, mais comedido, talvez mais frio, como querem os positivistas. Um livro sem opiniões. Beirando o cinismo. Ou quase.

                       Machado e meus contemporâneos não terão acesso a estas páginas. Vou depositá-las na arca do sigilo do Instituto Histórico e Geográfico e manifesto claramente o desejo de que esses rabiscos só poderão ser abertos depois de 6 de novembro de 2010, quando serei um espectro, assim como os personagens deste libelo. Se houver descendentes, não meus, que respondam. Os que vagamos nestas folhas estaremos desaparecidos. Apenas a memória dos nomes. Quem há de se ofender com minhas palavras, quem há de me convocar para um duelo, depois de sopesar uma verdade sobre a qual cabem tantas dúvidas?

                       Aos fatos senhores. Aos fatos!”

 

                       O homicídio realmente ocorreu e teve grande repercussão na sociedade carioca daqueles tempos. O Dr. José Mariano da Silva chegou a ser médico do pai do poeta Olavo Bilac. Foi defendido pelo famoso criminalista de então, Busch Varela, tio de Fagundes Varela. Ao pesquisar, descobri que existe um livro a respeito dos acontecimentos, escrito por Eulálio Leandro:  O Juri da Corte 1866: O crime do Dr. José Mariano da Silva.

                       A partir disso, e do fato de que Machado na época trabalhava no Diário do Rio de Janeiro e certamente teve conhecimento direto do noticiário, o personagem narrador (ou o autor) acredita ser possível que o crime haja servido de inspiração para Machado de Assis escrever Dom Casmurro.

                       O personagem narrador (mesmo convencido da inocência de Helena Augusta e aparentando — ou simulando — certa antipatia por Machado) vale-se dos argumentos da defesa e da promotoria durante o julgamento para nos conduzir ao mesmo dilema machadiano: Helena Augusta (Capitu) teria mesmo traído o Dr. José Mariano (Bentinho), ou tudo não passaria de uma teia de falsas suspeitas e intrigas em que o marido se enredou (ou foi enredado) e não conseguiu se libertar?

                      

 

 

   Em uma entrevista, o próprio Lucchesi anota:

 

 

 

                       “É claro que como critico literário eu não acredito que um fato explique o que a obra literária realiza. Ela é maior do que tudo. E isso vale mais para Machado. No entanto, as coincidências mereceriam alguma consideração, porque existem ressonâncias importantes. Mas a ficção de Machado está além de toda factualidade.”

 

                       O paralelo e a mescla entre realidade e ficção, a presença constante, mas bem dosada, de metalinguagem e erudição, o texto refinado, ágil e saboroso arrastam o leitor por um labirinto cuja aflição maior é terminar de percorrê-lo ao final do livro, com a imensa vontade de permanecer nas suas vielas intrincadas, como aquelas mesmas que atravessamos ao longo da vida.

 

 

 

 

 

4 comentários

  1. Gilberto de Mello Kujawski
    06/02/11 at 15:04

    Antonio Carlos

    Agora o relógio marca 17,45 hs. desta 6a.feira, 4 de fevereiro.
    Faz meia hora recebi seu presente, “O dom do crime”, de Marco
    Lucchesi. Na minha ignorância pensei que fosse um escritor italiano.
    Não suspeitava que é brasileiro, carioca e talentoso como você
    explica no seu blog.
    Já li o primeiro capítulo e fiquei impressionado. O homem é um alquimista insigne. Mistura o gosto pela memória, pelo crime folhetinesco, pelos personagens extravagantes, e pelo absurdo, destilando tudo no “verso cristalino” do seu estilo.
    Perturbador, com a sombra de Machado de Assis perpassando todas as páginas. Uma descoberta literária.
    Só quero agradecer a lembrança de me mandar o livro. Fidalguia de intelectual mineiro de outros tempos…
    Vale a pena andar a esmo pelo Rio, cheio de segredos antiquários.

    Abração do

    Gilberto.

  2. Lilian
    08/02/11 at 17:01

    Se gosto tanto de crimes, na ficção, que fique bem claro, talvez leia tal livro, que entrará na fila dos muitos outros que me esperam, nesse momento em que me sinto sem tempo pra nada. As horas passam, os dias correm, o tempo voa… mal consigo ler os jornais, ou, pelo menos, as manchetes, para manter-me “atualizada” quanto às ocorrências desse mundo que se tornou tremendamente maluco… (não li Alice no País das Maravilhas – gostava de estórias de princesas – mas tudo me parece meio fantástico, absurdo mesmo, nos dias que estamos vivendo. – Será que nossos antepassados também tinham tal sensação quanto ao seu tempo?)

    • sonia kahawach
      09/02/11 at 10:56

      Acho que sim, querida. Meu pai dizia quando eu era pequena e me lembro bem (e olha que ele já era idoso, pois quando nasci ele tinha 60 anos!), que situação pior do que estava ocorrendo não podia acontecer. E eis que agora o tal Tiririca em sua vã filosofia fala a mesma coisa. E o pior é que vamos vendo que tudo pode ser bem pior a cada dia.
      Importante é aproveitar cada instante de felicidade que sempre é feita de pequenos detalhes.

      • Lilian
        10/02/11 at 10:08

        Soninha, obrigada pela resposta!
        Em relação a quase tudo, vivo me perguntando se “o mundo” sempre foi assim.
        Coisas surpreendentes acontecem o tempo todo, mesmo quando penso que “já vi tudo”.
        Imagino que tenha sido um privilégio ter um pai com idade bastante para lhe transmitir sabedoria.
        Um abraço!

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