Os portugueses são tidos como carrancudos, ríspidos e até mesmo mal-educados com os estrangeiros.
Puro engano. Têm eles um humor próprio e refinado, que precisa ser entendido.
Quando estive em Lisboa pela primeira vez, com meu pai, ficamos amigos do gerente do hotel, com o qual conversávamos longamente. De certa feita, falando sobre as piadas de portugueses que contamos no Brasil, perguntei-lhe se isso também não ocorria em Portugal em relação a nós, brasileiros, ao que ele me respondeu, muito sério:
— E precisa?
Quando retornei a Lisboa em 2009, com minha mulher, tomei conhecimento de um cartunista dos mais famosos e considerados por lá, José Bandeira.
Lisboeta, nascido em 1961, iniciou a sua carreira de cartunista político em 1983 no Diário de Notícias, onde publica, desde 1990, a série diária Cravo & Ferradura. Além disso, faz ilustração e o que chamam de banda-desenhada (algo como as nossas tiras), tendo publicado o livro Namoros, Casamentos e Outros Desencontros, pelo o qual recebeu o prêmio de Melhor Álbum de Tiras Humorísticas no certame da Amadora, em 2003. A este se juntaram inúmeros outros prêmios e exposições coletivas em Portugal e no exterior (Brasil, Croácia, Costa Rica, Dinamarca, Espanha, China, Turquia). Está representado no Sammlung Karikaturen & Cartoon Basel (na Suíça) e na antologia Os Melhores Cartoons Políticos da Actualidade (vol. 1992).
Mal comparando, digamos que ele é uma espécie de Millor Fernandes português (sem a amplitude intelectual do nosso grande mestre) já que também escreve, e bem, textos curtos e rascantes.
Há pouco, descobri o seu blog, Bandeira ao Vento , que passei a visitar com regularidade e do qual extraio alguns exemplos do seu humor, escrito (mantido a grafia original) e gráfico.
Conto curto
Um Homem Seguro de Si passeava pela avenida e pensava para com os seus botões: “Um Arquitecto Famoso desenhou-me a casa; um amigo, Designer de Interiores, mobilou-ma; visto apenas a roupa que um Estilista Premiado desenha para mim e não como senão em restaurantes aconselhados pelo meu mordomo. Sou finalmente uma Pessoa de Bom Gosto”.
Os sapatos de um homem
Dizem que para compreender um homem devemos andar um quilómetro com os seus sapatos. É uma posição filosófica razoavelmente segura: se ainda assim não o compreendemos, estamos a um quilómetro de distância e temos os sapatos dele.
Mínimas
O verdadeiro céptico não é o que duvida de tudo; é o que procura a solução depois de a ter encontrado.
A 5ª de Schubert
O fantasma de Mozart apareceu um dia a Schubert. Ambos falavam alemão, mas apesar disso cada um entendia o que o outro dizia. E ao cabo de algumas horas de boa conversa, Wolfgang perguntou ao colega:
“Não tenho mãos para o fazer eu mesmo; escreverias uma sinfonia por mim?”
Soubesse Schubert que morreria ainda mais novo do que Mozart e talvez não tivesse dito que sim.
Questões de Moral
A minha filha, que faz vinte anos daqui por uns dias, diz-me que está “velha”. E pergunta-me: “Achas que já tenho idade para mentir sobre a idade?”
Bandeira de Papel: A Greve Geral
Bandeira de Papel: Um livro 5 estrelas
O “e precisa?” foi bom. Como diz o José Simão, da Folha, “este é o país da piada pronta”.
Olá meu caro e bem humorado amigo Antonio Carlos Augusto, seu texto me fez lembrar do grande humorista português Raul Solnado quando lhe perguntaram se ficava triste com as piadas de português aqui no Brasil, e se lá em Portugal eles também faziam piadas com os brasileiros. A resposta foi a seguinte: Não precisamos fazer piadas com os brasileiros, o Brasil já é uma grande piada.
Parabéns pelo texto, muita paz e harmonia e mais inspiração.
PS: Por falar em humor, postei humor quase negro lá no dimenor.
forte abraço
C@urosa
Ótima e feliz lembrança. Solnado (que era engraçado até no nome e fazia um tipo um tanto “sonado”) antecipou o gerente do hotel de Lisboa.