Posts from outubro, 2012

O anjo caído

 

 

    Selma Barcellos 

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O dia fatídico da profecia dos maias se aproxima,

mas para o cirurgião amigo da Selma, tanto faz…

 

 

 

 

Era 2012 ou nunca, buzinaram-lhe os maias. Desfilaria na Sapucaí.

Amigo querido, cirurgião renomado, incumbiu o anestesista da equipe de escolher a escola e a fantasia, frisando que “só não queria aquela que homenageava iogurte com alas de bactérias que organizam o intestino.”

Chegado o dia, ansioso, coração “batendo mais que as maracas, descompassado de amor”, partiu para se arrumar na casa do colega folião, repassar o samba, tomar um uisquinho desinibidor…

Porém, ai, porém. O anfitrião avisou que não ia beber por “questão de  segurança”. Concordou. Longe dele bancar o chato. A sunga (branca!) de seu Anjo veio trocada, tamanho P. Se puxava na frente, faltava atrás. Sentiu-se praticamente um Gabeira de cache-sex. Os pés até entraram nas sapatilhas. Mas os velhos e torturantes joanetes, não. Pisou na avenida, quebrou-lhe a asa esquerda e o maldito ferrinho da armação começou a feri-lo “à altura da escápula”. Passou o desfile  inteirinho apoiando a traquitana. Na moral. Como assim, a escola perder pontos em fantasia e adereços por causa dele?

Escola evoluindo, um componente bebum resolveu crocodilar sua mulher e “evoluir” ao redor dela. Fingiu que não viu, fazer o quê. Deselegante um arranca-rabo diante da multidão e das câmeras. Como assim, a escola perder pontos em evolução por causa dele?

Na dispersão, já a caminho da condução fretada, passou por uma área estranha com gente esquisita e ouviu dos rapazes alegres: _ Beleza de reguinho! Acelerou o passo. Bufava. Derretia.

_ Caríssima, que tal minha estreia na avenida? – pergunta traumatizado.

Tento filosofar, dizendo-lhe que são dores e delícias do carnaval como, de resto, da vida. Conto sobre nosso carro novinho abalroado por trás por um gringo bêbado, sem carteira e sem condição de descer para dialogar, o que nos obrigou a fazê-lo com sua acompanhante, uma afroMinnie gigantesca – a visão do inferno – , igualmente bêbada. A criatura só balançava o laçarote de bolinhas sobre a cabeleira progredida e dizia: “Xês – hic! – podem me telefonar que – hic! –  tudo será resolvido.”

_ Obrigado, Selminha, mas nada se compara a desfilar com os joanetes doendo, a asa quebrada e a bunda de fora. E a escola caiu, sabia?

Ô dó.

 

 

 

 

 

Aviso aos Navegantes

 

 

 

 

            Senhores navegantes, como alguns terão percebido, o acesso ao blog esteve instável no final da tarde.

            Segundo o meu oficial imediato, Saulo Marchiori, o problema foi com o provedor nos EUA, assolado pelo furacão “Sandy”.

            Ao que parece, já estamos navegando novamente em águas calmas (pelo menos por aqui).

            Mesmo assim, mantenham afivelados os coletes salva-vidas.

            Muito obrigado pela atenção dispensada.

 

 

Oh, Sandy!

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A vida começa e acaba todos os dias

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

8:00 – O despertador toca. Desligo com vontade de dormir. Não posso.

8:15 – Escovo os dentes e vejo que há um novo vazamento no banheiro. Interfono para o porteiro. “Problema no prédio todo. Estamos sem água”. Esbravejo. Fico puta. Penso em desmarcar todos os compromissos e voltar para a cama. Não posso.

8:30 – Tomo um café, fumo um cigarro.

8:30 – Ligo o computador, checo os e-mails. Revejo a lista de itens por fazer. Começo pagando o boleto da Receita Federal (preciso fazer a segunda via do passaporte). Transfiro o dinheiro para a conta de um locador de apartamentos no Rio de Janeiro (Eba! Vou ver o mar em dezembro). Dou parabéns aos aniversariantes no Facebook. Respondo a algumas pessoas…

10:00 – A massagista chega para me apertar na drenagem linfática. O batuque constante da reforma do apartamento de cima me irrita.

11:00 – Recebo um telefonema com um briefing para um roteiro.

11:30 – Recebo a proposta de um freela na próxima semana. Minha agenda está disponível (mais trabalho!).

12:00 – Ligo para o cliente do primeiro roteiro para tirar dúvidas. Acho que não vai ser difícil e marco para fazer as unhas (há mais de um mês não consigo ir). Começo o roteiro.

12:30 – Recebo por e-mail mais um roteiro a ser feito. Penso em cancelar as unhas.

12:50 –  Com o roteiro semi-pronto, almoço um lanche rápido no Shopping, recuso o convite de almoçar com a irmã (tenho que trabalhar).

12:55 – Ligo para os meus pais. Estão bem. Digo que amanhã vou para Ribeirão. Preciso vê-los (não volto para lá há quase dois meses).

13:20 – Faço as unhas.

14:00 – Termino e volto para casa.

15:00 – Reviso o roteiro e envio para o cliente. Hora de começar o próximo

15:45 – Recebo um e-mail do amigo GPeteanH “Recebi esse e-mail agora e estou muito triste. Como não estou em São Paulo, resolvi repassar a triste notícia… o Violla faleceu.”  Choque…

 

PAUSA – Marcelo Violla era um amigo. Um grande amigo dos meus amigos.  Portanto, meu amigo. A última vez que nos vimos foi há duas semanas no encerramento da peça “Meio Lá, Meio Cá”. Junto com Murilo Inforsato e GPeteanH, ele participou da criação da peça durante quase dois anos. Nos encontramos várias vezes. Trabalhamos juntos. Ele foi o nosso iluminador no “Prosa Afiada Conta Vinícius de Moraes”. Era um cara talentosíssimo. Trabalhava para várias companhias teatrais. Entendia muito de luz e de toda a cena teatral. Muito querido no meio das artes. Um dos mais criativos técnicos que vi trabalhar. Junto com LosbobosBobos estava cheio de planos. Estava investindo em fazer trilhas, queria outros caminhos. Na ocasião que nos vimos pela última vez eu estava sem ingresso para a peça deles. Ele me deu um de seus ingressos destinado à sua família e me disse “você vai sentar junto com a minha família”. Eu brinquei: “hoje sou team Violla”. Vi sua mãe, sobrinhos, irmã. Acho que as últimas coisas que falei foram: “Obrigada” “Tá feliz?” e “Parabéns”.

 

15:46 – Ligo para o Murilo para saber como ele está, descobrir notícias. Ele não me atende.

15:47 – Ligo para o GPeteaH com o mesmo objetivo, ele também não me atende. Sinal de que as coisas não vão bem.

15:48 – Tento descobrir algo pelo Facebook. É verdade. As pessoas começam a se manifestar.

15:50 – Decido ligar para a Laura, mulher do Murilo. Ela me conta toda a história. Não se sabe a causa da morte. Violla simplesmente foi encontrado morto na rua. Choque. Murilo está bem, em choque. GPeteaH está tentando ficar bem. Os amigos estão se mobilizando para falar com a família. Nada se sabe sobre velório. O corpo dele ainda está no hospital.

16:00 – Divido a triste notícia com minha irmã.

16:10 – Ligo de novo para o Murilo. Desta vez, converso com ele. Tudo muito triste. Muito súbito. Muito difícil de descrever. Tento avisar outros amigos em comum, troco algumas mensagens. Fico sem ação.

16:20 – Tento me concentrar no segundo texto a ser entregue. Resolvo fazer somente um rascunho. Nada deve ser lido, entregue hoje. Não dá. Fumo, tomo café, volto para o computador, revejo as fotos do Violla. Fico num ciclo doido pensando no que devo pensar, pensando no que devo dizer, pensando no que devo fazer….

 

PAUSA

 

18:24 – Recebo uma mensagem de texto no celular: “Queridos, a Manu chegou. Cheia de saúde tanto que já está mamando. Estamos no hospital São Luiz. Obrigado pelo carinho, beijos da Rê, Cauê e Manu”. A filhinha da Rê nasceu!!!!!! Bem! Saudável! Linda! Quero visitar! Quero pegar no colo! Quero…

18:25 – Repasso as notícias. Checo com amigos mais próximos como está a Renata. Ela está bem, um pouco tonta, teve que fazer cesárea. Decido que é melhor não ir vê-la hoje. Muita notícia boa para ela. Precisa descansar para dar leite para a Manu.

22:45 – Penso no Violla que se foi. Na linda Manuela que chega.

 

 

Bell Gama

Outubro de 2012

 

 

 Marcelo Violla (de verde) junto com a trupe do “Prosa Afiada”

 

OBS – Pensei muito antes de escrever esse texto. Mas, todos os amigos de Violla estão fazendo questão de homenageá-lo deixando por escrito nossa gratidão por sua existência. Essa é minha singela homenagem. Hoje não tem luz no palco. Tem estrela nova no céu. #RIPViolla

Eu também não poderia deixar passar em branco o nascimento da querida e esperada Manuela, filha da minha querida amiga Renata Ferraz e do Cauê Dias. Sou madrinha de casamento deles. Sou fã do amor deles. Sou fã de tudo que eles fazem. Com a Manu, o orgulho é ainda maior. Tudo de melhor

 

Cauê, Renata e Manu logo após se encontrarem pela primeira vez (roubei a foto da mamãe) 

 

 

 

Braço forte, pé de barro

 

 

 

 

 

Embora não seja a única, nem a mais confiável, a versão disseminada sobre a origem da Maratona remete ao ano de 490 a.C., quando soldados atenienses marcharam até a Planície de Marathónas para combater os persas, na batalha que fazia parte das Guerras Médicas.

Os persas haviam jurado aos gregos que, caso vencessem, invadiriam Atenas, violariam suas mulheres e matariam seus filhos. Temendo tal violência, os gregos combinaram que as mulheres matariam os filhos e cometeriam suicídio, caso não tivessem noticia sobre a vitória dentro de 24 horas.

Como os atenienses venceram, após uma longa e difícil batalha, Pheidippides foi incumbido pelo comandante Milcíades de correr todo o Vale de Maratona até Atenas, numa distância aproximada de 40 km, para levar a notícia e impedir a desgraça. Ao chegar, exaurido, Pheidippides só teve fôlego para dizer uma única palavra antes de cair morto: “Vencemos”.

O esforço desumano, e fatal, de Pheidippides já se afigura muito pouco diante das novas modalidades de Ultramaratona, Ironman, Triatlo, outras extravagâncias  e exorbitâncias que ninguém haverá de me convencer que sejam benéficas à saúde e ao bem-estar dos praticantes. Os chamados atletas de ponta ou de alta perfomance excedem e desafiam os limites do corpo em busca de desempenhos sempre mais espetaculares, não raro recorrendo a variados e cada vez mais sofisticados tipos de doping. A grande maioria encerra a carreira em estado lastimável, com o físico e até a mente seriamente avariados, a negar a máxima mens sana in corpore sano.

 

 

Como é doloroso ver o grande Muhammad Ali, outrora falastrão ― a bailar pelo ringue com a graça de uma borboleta e a picar os adversários como uma abelha, segundo ele próprio dizia ―,  agora cambaleante e trêmulo, com a voz quase inaudível.

 

 

 

 

 

 

Não é menos emblemático o rumoroso desfecho do caso envolvendo o cultuado Lance Armstrong, vencedor de nada menos do que sete Tours de France, e que após superar um câncer nos testículos ainda voltou a ganhar aquela prova. A investigação empreendida concluiu não apenas que ele se dopava, mas que montara um complexo esquema de produção e uso de doping, o que resultou no seu banimento para sempre do ciclismo e a cassação dos títulos. “Armstrong”, que pode ser traduzido como “braço forte”, infelizmente tinha o pé de barro, como tantos outros heróis de dantes e de agora.

 

Esses atletas, e também os grandes astros pops ((Michael Jackson e Amy Winehouse, apenas para lembrar dois exemplos mais recentes) constituem-se na representação contemporânea dos heróis ou semi-deuses da Mitologia Grega, como Aquiles, Hércules, Teseu, Perseu, Agamenon, Ajax, Édipo, entre outros, personagens que estavam numa posição intermediária entre os homens e os deuses. Possuíam poderes especiais superiores aos dos homens comuns (força, inteligência, velocidade), porém eram mortais e apresentavam alguns dos defeitos humanos (psicológicos e corporais). Seus destinos quase sempre são trágicos, punidos impiedosamente por ousarem desafiar ou contrariar os deuses.

Tenho especial predileção pela saga do titã Prometeu, que rouba o fogo divino (para muitos, símbolo do saber), ludibriando os deuses, para proporcionar à raça humana um elemento que lhe garantiria a supremacia sobre os demais seres vivos. Em razão dessa afronta, Zeus decidiu puni-lo decretando ao ferreiro Hefesto que o prendesse em correntes no alto do monte Cáucaso, por 30 mil anos, durante os quais ele teria o fígado diariamente bicado e dilacerado por uma águia ou abutre. Como o órgão se regenerava, o ciclo de sofrimento e destruição se reiniciava a cada dia. Esse mito inspirou a célebre tragédia  “Prometeu Acorrentado”,  escrita pelo poeta grego Ésquilo, no século V a.C.

Não seremos todos nós, com todos os nós, Prometeus acorrentados?

E quantas outras tragédias ainda estarão por ser escritas sobre os grandes heróis e mitos dessa nossa sociedade do espetáculo?

 

 

Leia o poema “Prometeu” no post abaixo.

 

 

 

Prometeu

 

 

 

                                               O herói sói ser

                                               como o sol,

                                               a chama que ilumina

                                               é a mesma que

                                               destrói.

 

                                               Com o fogo divino

                                               tu libertas os homens

                                               e aos deuses os iguala,

                                               mas o dilema trágico

                                               assinala:

 

                                               ainda livre tu serias

                                               se a liberdade não usasses,

                                               posto que só a tenhas

                                               por usá-la.

 

 

 Tiziano. Prometeu Acorrentado. 1548-1549. Museo del Prado, Madrid

 

 

 

 

Vingança

 

 

 

 

 

― Alô…

― Alô, de onde fala?

― Com quem o senhor quer falar?

― Com a dona Maria, aqui é o Brito, marido de aluguel…

― Marido de aluguel?

― Isso, a dona Maria me ligou pra fazer uns servicinhos, e eu quero passar o orçamento.

― Que servicinhos?

― Tá marcado aqui ó: trocar lâmpadas, uma torneira pingando, pegar um morcego que entrou ontem de noite e ela fechou na sala, tirar um ninho de pomba que está sendo feito no alto da varanda, e alguma coisinha mais…

― Eram só duas lâmpadas queimadas, que nem faziam muita falta e já troquei, o tal morcego não passava de uma borboleta, e o ninho o jardineiro tirou. Acho que só sobra a torneira pingando, mas já mandei colocar uma nova pra resolver de vez.

― O senhor é o marido?

― Sou. O marido adquirido!

― Mas ela disse que o senhor fez uma cirurgia e não podia pegar peso nem subir na escada…

― Exagero dela. Foi coisinha à toa. Já tô ótimo. O que eu não posso mesmo é cair da escada…

― Então tá. Acho que fica pra outra vez então.

― Fica. Escuta, Brito, a tua firma também tem mulher de aluguel?

 

 

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=ZXFginzWtFc[/youtube]

 

[…] 

“O remorso talvez seja a causa

Do seu desespero

Ela deve estar bem consciente

Do que praticou,

Me fazer passar esta vergonha

Com um companheiro”

[…]