De mãos dadas

 

 

Selminha e Carpinejar, dois textos que se casam…

 

   Selma Barcellos

Selma 2 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Partilhei com aquele menino alumbramentos, espantos e descobertas da infância. Só ele podia entrar nas minhas brincadeiras. Até me atirar mamonas.

Volta e meia, sem que entendêssemos por quê, estávamos de mãos dadas, olhando fixamente um para o outro.

Um dia, desenhei a lápis o contorno de duas mãos no mármore do degrau da varanda e escrevi em letras microscópicas: “Vamos ficar sempre assim?”.

Claro que a mãe leu, que me fez apagar tudo, que me inquiriu sobre o “assim”, proibiu o menino de brincar lá em casa…

Mudou-se algum tempo depois. Adolescemos em bairros distantes.

Fui encontrá-lo anos mais tarde, ao buscar o filho na escola onde eu lecionava.  

_ Selma, lembra de mim? – perguntou inseguro, em meio à pequena multidão que se formava à saída das aulas. Assenti com um sorriso, trocamos breves palavras. 

Vontade de dizer o quanto aquele imenso quintal perdera a graça sem nós… Não consegui. 

Ontem, ao achar esta crônica dobradinha na caixa de delícias (cultivo a mania), revi o menino, nossas mãos, o jardim. E disse.

 

 

ANA PAULA 

 

Só a conheci quando tinha seis anos. Não sei o que anda fazendo. Nem sei como é. Lembro que era gordinha, charmosa, e muito educada.

Cabelos lisos, negros, com cheiro de goma misturado à flor de laranjeira.

Nossa brincadeira predileta consistia em remar numa banheira branca encalhada no pátio da creche Patinho Feio. Eu tapava um olho como pirata e a protegia dos canhões inimigos (as mamonas da gurizada). Desde ali, eu pisco quando falo a verdade. A verdade fica parecendo uma mentira, não tem jeito.

Será que trabalha num banco, casou, tem filhos? Será que lembra de mim?

Pensava que a namorava no jardim de infância. Porque segurava minha mão para entrar em aula, almoçar, escovar os dentes. Em fila indiana, do mais baixo para o mais alto. A sorte é que tínhamos a mesma altura e ficávamos próximos. Lado a lado. Quando segurava a minha mão, me considerava um eleito. Não percebia que todas as crianças eram obrigadas a segurar a mão do seu vizinho. Acreditava que segurava minha mão porque me desejava.

Um dia, você me falou que a gente deveria encontrar um tesouro para a nossa brincadeira. Para soar mais real. Não duvidei duas vezes: roubei colares de minha mãe, embrulhei em uma folha de ofício e entreguei o embrulho como pedido de casamento.

Escrevi um bilhete

“Para casar comigo, meu tesouro.”

Tenho comigo o papel, um escapulário amassado. Relendo, vejo que escrevi:

“Pra cazar com eu.”

Como há pares que pisam nos pés na hora de dançar, eu pisei nas palavras.

Natural para um menino desajeitado, tímido, aprendendo a escrever. Foi meu ato de maior coragem.

Mas sua mãe descobriu o presente, minha mãe descobriu o sumiço de suas joias. Foram devolvidas inclusive com a cartinha. Houve reunião na escola. Não mais a vi, retirada às pressas da turma pela convivência perigosa comigo.

Queria agradecê-la: nunca me arrependi, nunca deixei de me roubar para sustentar um amor. Melhorei apenas um pouco o português.

 

Beijo

Fabrício Carpinejar, o pirata

 

 

8 comentários

  1. 30/01/13 at 10:43

    Selminha, muito lindo o texto. Amoleceu meu coração ao lembrar dos meus primeiros amores. Dois deles ainda são meus amigos. Em uma visita a casa dos meus pais, fucei nas minhas coisas antigas e achei um guardanapo de pano com os dizeres de um deles “te amo, te amo e te amo.” O outro encontrei recentemente. Numa conversa sobre “onde está, o que anda fazendo”, suspirei fundo e perguntei: “Era tudo verdade?”. Para acalmar o seu coração e do Carpinjear respondo o que ele me disse: era tudo verdade. Saudade do amor corajoso da infância. Parabéns pelo texto! Amei! 

    • 30/01/13 at 20:25

      Bell, parece contraditório até, mas o “amor corajoso da infância” vinha exatamente da delicadeza, da falta de empecilhos, de enfrentamentos…
      Com o coração igualmente amolecido, obrigada.
      Beijocas!
      P.S.: Um dia me conta em que deu o “era tudo verdade”?
       

  2. André
    30/01/13 at 14:23

    Selma, realmente do primeiro amor a gente nunca esquece… principalmente se toca fundo no nosso coração, mesmo perdendo o contato ou a vida os distanciando, fica dentro do nosso coração e a certeza de um reencontro pelas estradas da vida.
    É muito bom escrevermos essas recordações da infância, “aurora da minha vida, que os anos não trazem mais”.
    Beijocas!

    • 30/01/13 at 20:30

      André, suas palavras têm a leveza e o refinamento das músicas que você nos sugere.
      Beijocas!

  3. Antonio Carlos A. Gama
    30/01/13 at 15:31

     

    Quando li pela primeira vez esta crônica da Selminha, em simbiose perfeita com a que se segue, de Fabrício Carpinejar, o alumbramento foi meu ao verificar como os dois textos se fundem e completam. 

     

    A menina Selminha podia ser Ana Paula, e do pirata Carpinejar a mão que ela riscou no mármore, com a frase que a mãe não gostou.

     

    Sensibilidades se atraem na ordem direta da poesia que carregam e deflagram.

     

    Dois raios, dois arco-íris, dois tesouros, que vieram iluminar e enriquecer esta Estrela Binária.

     

  4. 30/01/13 at 20:34

    “Sensibilidades se atraem na ordem direta da poesia que carregam e deflagram.” Devidamente guardado na caixa de delícias.
    Beijocas, Antonio! 

  5. Brenno
    31/01/13 at 17:41

    Lembrando a canção do Erasmo. “O Bilhete”:
    “Revendo meus guardados encontrei o bilhetinho dela que eu guardei… dizia mesmo assim: te contarei depois, Mamãe sabe de tudo entre nós dois.”
    Mas isso é dos anos 60, de quando se escrevia dedicatórias no verso de retratinhos 3 x 4, assim: “Para que me tenhas nos olhos como eu te tenho no coração”.
    Ou delarações escritas em pedaço de  serpentina enrolada, assim: “O mundo é melhor e mais bonito porque você existe.”

  6. 31/01/13 at 20:37

    Brenno, a dedicatória no retratinho era de lei… Belas lembranças, poeta!
    Beijocas!

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