Annibal Augusto Gama
O MURO
Caiu o muro de Berlim,
mas há outro muro,
duro muro,
que nunca tem fim.
Entre ti e mim
o muro do não,
muro duro
erguido do chão.
Este muro,
pedra sobre pedra,
cada dia o erguemos
e medra
no infinito futuro.
Muro de papel
e fel,
de raiva, desprezo,
desamor,
fome e impudor.
Com ele construímos
a Babel
da língua paralítica.
Este muro sim
cerca minha casa
e quebra a asa
do pássaro;
este muro avaro,
que me vara e não varo,
este, ai de ti, ai de mim,
é o muro vero
que não rui aqui
nem em Berlim.
As paredes caem,
cai um muro no Cairo
cai em Roma, na Babilônia,
mas este, verdadeiro,
vai durar para sempre
entre homem e homem,
nem se consome,
e inteiro te come
com a mesma fome
que me come.
E nem vês este muro,
este sim, duro muro,
que projetamos
cada noite, cada dia,
pedreiros e engenheiros
prisioneiros
de nossa própria
inópia.
Com que altura o muro
eu vou construir
a linda casa
que está me abrigando?
Tem que ter tijolo firme
e de preferência bem alto
para ter o meu aconchego do lar.
Tenho a mania de dobrar a pontinha das folhas preciosas. Preciso dizer que “O Muro” estava marcado no meu “50 Anos”?
BELÍSSIMO!
P.S.: André, o meu exemplar está autografado. Desculpe qualquer coisa.