Além do sonho

 

 

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Despertou lentamente, como se atravessasse um túnel extenso, com a sensação de que alguém o aguardava no final.

Acendeu a luz difusa do abajur lilás para ver as horas, e deu de cara com o Dr. Freud sentado numa poltrona, ao lado da cabeceira da cama.

Não teve dúvida de que era mesmo o Dr. Freud, com sua barbicha branca, de paletó e colete, sobre o qual pendia a corrente do relógio de bolso, o semblante circunspecto.

— Conte-me o que sonhava, pediu-lhe o Dr. Freud.

Assim, de imediato, não consigo me lembrar, respondeu-lhe.

  — Hum, hum, interjecionou o Dr. Freud.

Isso era bom ou ruim?

— Espere aí, Dr. Freud, agora lembrei. Eu estava sonhando com o senhor!

— Hum, hum, repetiu o Dr.Freud.

Isso era bom ou ruim?

— Gozado que no meu sonho o senhor estava mais moço, com a barba negra, bonitão, parecia um pouco com o Montgomery Clift naquele filme do John Huston sobre o senhor. Acho que o roteiro foi escrito pelo Sartre, e o título em português é “Freud, além da alma”.

O Dr. Freud continuava impassível, observando-o.

Isso era bom ou ruim?

— Mas que coisa estranha! O que significa isso, Dr. Freud? O senhor representa meu pai? Ou então a autoridade? Talvez uma manifestação de homossexualismo latente?

— Hum, hum, tornou a resmungar o Dr. Freud.

Isso era bom ou ruim?

Calou-se, angustiado.

— O senhor se incomoda se eu fumar um charuto?, indagou o Dr. Freud depois de alguns instantes de silêncio ensurdecedor, que lhe pareceram seculares.

— Hoje há leis muito rigorosas contra os fumantes, mas como estamos na minha casa e no meu quarto, acho que não tem problema. O charuto não me incomoda. Eu não fumo, mas de vez em quando também gosto de saborear um bom charuto, respondeu.

— Às vezes um charuto é só um charuto, sentenciou o Dr. Freud, enquanto acendia cuidadosamente um Reina Cubanas.

Pensou em alertá-lo que de tanto fumar charutos ele morreria de um doloroso câncer no palato, mas não teve coragem. 

Isso era bom ou ruim?

Novo silêncio, enquanto o Dr. Freud dava longas baforadas.

O aroma adocicado do charuto era agradável, e se impregnava no quarto, que continuava a meia-luz, apenas com o abajur aceso 

As espirais de fumaça foram se espalhando e adensando como uma bruma, até que já não mais conseguisse ver o Dr. Freud, embora ainda sentisse sua presença e vislumbrasse de quando em quando o lume do seu charuto.

Pouco a pouco o cheiro e a fumaça se dissiparam, e quando finalmente tudo se clareou no quarto, cujas luzes do teto ele acendeu, o Dr. Freud tinha desaparecido.

Não sabia se isso era bom ou ruim.

 

 

 

4 comentários

  1. sonia kahawach
    18/07/13 at 12:48

    Sobre o perigo de um câncer no palato devido fumar charutos, bobagem. Qualquer cigarro poderia provocar tal doença, ou não. A doença em si é grave, mas não dói. O tratamento é que é de matar qualquer boa vontade ou paciência. 
    Agora, seria muito bom acordar e dar de cara com Dr. Freud sentado na poltrona ao lado. Acho que eu conversaria por horas com ele. E não teria maiores preocupações se era “bom ou ruim”. E até seria interessante experimentar um charuto dos bons.

  2. André
    18/07/13 at 14:38

    Gama, anteontem (terça-feira, 16/07) você abrilhantou o Bloghetto com esse texto que agora é publicado aqui no Estrela. Sonhemos no nosso mundo onírico e façamos da vida um sonho onde possamos voar.
    Abraçaço.

  3. 18/07/13 at 15:51

    Parabéns pelo humor. Interessante indagação: se é bom ou ruim.

  4. Brenno
    18/07/13 at 15:55

    O bom
    só é ruim
    quando o ruim
    é bom.
    Hum, hum…
    Dois, dois…

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