Annibal Augusto Gama
O DIA QUE PASSOU
Este dia que passou
foi apenas um dia
como os outros:
passou.
Nenhuma amargura irremediável
nenhum desastre irrevogável
nenhuma palavra exata
fina como um punhal
o marcou.
Só a prata do dia
se gastou.
Que esperavas deste dia?
Ou nem mesmo esperavas:
Foi ele que amanheceu
no ruído da rua
no leve fremir da cortina
e como veio se foi
humilde cão surgido
e desaparecido.
Não ouviste atrás da porta
a confidência sussurrada
ou a conspiração armada.
tudo pareceu normal
pedra de sal
se derretendo
no prato sobre a mesa
e uma lânguida tristeza
fluindo no sofá.
Houve mortes? Houve prantos?
O amor brotou em alguém
como um sol de espantos
e uma lua de jacintos?
Não sabes.
No jornal a manchete
foi um campo onde Troia
feneceu. E tu e eu.
O dia adejou entre as árvores
asas de borboleta
e se espetou para sempre
num calendário de enigmas
que ninguém mais consultará.