“The Mermaid”

 

             Selma Barcellos

 Selma no Jardim de Luxemburgo

 

 

 

 

 

 

 

 

Fez-me descer até a garagem para mais uma de suas surpresas. Gosta de  surpreender e de nos ver sorrir, a mim e ao pai.

E voilà, cobertos por um lençol,  aguardando serem desvendados, literalmente, a branca tela no cavalete, as tintas, os pincéis e um livro para iniciantes com sugestões de pinturas e passos para realizá-las.

Da mesma forma que, um dia, aprendendo a andar de bicicleta, soltei suas mãos e disse “Vai, filho!”, aquele presente pareceu devolver-me o desafio: “Agora é com você!”

Algum dom sempre cultivei para desenho, bem sei. Porém, para pintura,  dominava apenas a básica noção de mistura de cores aprendida no longínquo primário.

Passados alguns meses, vendo-o partir em viagem, decidi ir às tintas e colorir o tempo de ausência.

Escolhi uma foto do painel de seu quarto – um entardecer em  Itacoatiara, local  da infância e dos primeiros anos de juventude, reserva do coração.

Insegura em minhas pinceladas iniciais, consolava-me saber que, mesmo não surgindo dali nenhuma obra-prima, em algum canto do quarto ele a penduraria. Afinal, a pintura lhe seria dedicada.

Tudo caminhava  razoavelmente, até que esbarrei na dificuldade do chamado  primeiro plano: uma enorme folha de palmeira que se impunha, soberba, na paisagem.

E sobreveio o desastre. A folha da amadora resultou em algo indecifrável, misto de imenso pássaro negro, nuvem de tempestade, avião queimado no céu. Não havia como esconder, não havia conserto possível. Não ao meu alcance.

A autocrítica foi demolidora. Resolvi desfazer-me do quadro, sem sequer assiná-lo.

Coloquei-o no alley, estreita passagem localizada atrás das casas americanas, onde os moradores têm por hábito deixar suas traquitanas, esperando que alguém as resgate.

Tanto é assim que, ao retornar de  breve caminhada, o quadro se fora.

Ato contínuo, assolaram-me a curiosidade, a dúvida, o arrependimento. Por onde andaria meu quadro? De quem aquela paisagem fizera a alegria? Quem acreditara naquela folha de palmeira?

O delírio levava-me ainda mais longe. E se, belo dia, de tanto errar, eu acabasse acertando e ficasse famosa?  E se me deparasse com o quadro sendo leiloado pela Sotheby’s por milhões e assinado por outra pessoa?

Durante semanas, ao passar pela discreta vizinhança, tão típica daqui, lançava um olhar sorrateiro pelas janelas, na esperança de vê-lo. Nada.

Contando aos amigos, o remorso aumentava. “Você deveria tê-lo guardado para verem a evolução de sua pintura!”. “Já pensou, daqui a gerações, sua família expondo a relíquia?”.

Não hesitei. Arregacei as mangas,  recoloquei o avental. Adiei aquela paisagem para quando minha arte estivesse mais madura e decidi começar um novo quadro, o meu “primeiro” quadro. Afinal, desistir e decepcionar são palavras que nos apequenam.

Assim foi que, ao retornar o filho, retribuí-lhe a surpresa. Na sala, igualmente coberta por um lençol, estava a pintura. Ao lado, um cartão de agradecimento pelo que ele representa de estímulo  em nossas vidas, belíssimo ser humano que é. Instigante, inquieto, propulsor.

Verdadeiramente, naquele instante, com o sorriso que me deu, percebi que minha obra acabara de receber o mais valioso dos lances. Já tinha preço a minha realização.

Ei-la, enfim: uma reprodução do quadro de Douglas Tharalson, “Malibu Mermaid”, meio sereia, meio mulher, meio maga encantando os pescadores.

Tal qual me sinto agora,  meio pintora, meio poeta, meio cronista. E, de alguma forma, também buscando encantar.

 

 

 

Veja o quadro original de Douglas Tharalson AQUI

Não mandou muito bem a nossa artista?

 

 

 

4 comentários

  1. paulinho lima
    31/07/13 at 13:19

    Confesso a minha dificuldade com as artes plásticas. meus limites passam pelo: Gostei ou não e bonito ou não. Mesmo que o meu amigo Chico , pintor parisiense me tenha dito: “é isso mesmo” Recentemente estive na exposição do Roberto Marinho, no Paço Imperial. Maravilha. Amei, mas entendi minha ida como um mero expectador. 
    Tenho uma intimidade pequena com os primitivos (naifes). A falta de perspectiva me ajuda. Consigo criar um vínculo com o que o quadro , pintura expressa; pessoas, as festas e faço meu delírio visual e sentimental. Mas, entendo, que é pouco. Convivo com um cotidiano do artista. Manet é um artista que me entendo, um pintor da rua, dos ambientes que circula. tenho uma papo afetivo com o artista.
    O quadro que Selma nos oferece me é de uma leitura difícil, falo do original. amei as cores, a distribuição das cores. mas fico no olhar da mulher. 
    Texto da Selma. maravilha e fascina. De uma leveza só e com um adendo: me levou com sua pintura para o encantamento dos artistas. vejo diferenças e todos vem, A junção do texto com o quadro sinaliza vida. Discordo do meio isso meio aquilo..Selma com seu texto e sua ousadia não se apequena  nunca… se engrandece e nos leva junto. Assim são os artistas no  seu processo de criação.
    Li , por esses dias, não sei quem foi, me esqueci, coisa da idade, ”  tenho de tocar o meu piano para quem está me ouvindo” A pintura da Selma é isso . é para o olhar de quem vê, como seu texto é para quem lê.
    Em tempo;O banco de Luxemburgo foi o mesmo banco que o Chico me falava de suas pinturas surrealistas. E que eu não entendia nada.

  2. André
    31/07/13 at 14:09

    Selma, eu adorei o seu quadro. Se o tivesse certamente penduraria na parede de minha casa.
    Vou confessar uma coisa a você: em termos de pintura e desenho, eu sou uma negação. Acho que quem ver essa “arte” minha até sai correndo. Ahá.
    Beijoca!

  3. 31/07/13 at 15:29

     
     
    Selminha, apesar da modéstia, você é sempre toda e, como a lua de Pessoa, brilha, porque alta vive.
     
    Beijocas.
      
    P.S. Aceita encomenda?
     
     

  4. 31/07/13 at 20:17

    Paulinho, André e Antonio, vocês me emocionam.
     
    Como esquecer os presentes dos filhos… Aliás, meses depois o Eduardo me deu o blog de presente.  
    — Mom, que tal este barquinho como ilustração? Sua cara.
     
    Encomendas, Antonio? Para quem tem um artista como Dr. Annibal? Não ousaria.
     

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