“Fly me to the moon” (Bart Howard), com Tony Bennett
[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=6a1QAb-hc5Q[/youtube]
“Fly me to the moon” (Bart Howard), com Tony Bennett
[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=6a1QAb-hc5Q[/youtube]
ODISSEIA
Não se morre de morte morrida
nem se morre de morte matada.
Não se morre de inopino
nem se morre de destino.
A morte são sutilezas,
coisas que morrem em nós,
esmaecidas, sem beleza,
vão calando a vista
vão turvando a voz
sem que se disse
sem que se visse
até que um dia
aquém, além,
possamos como Ulisses
ser ninguém.
“Olhando meu navio
O impaciente capataz
Grita da ribanceira
Que navega pra trás
No convés, eu vou sombrio
Cabeleira de rapaz
Pela água do rio
Que é sem fim
E é nunca mais”
(“Xote de Navegação”, Chico Buarque / Dominguinhos)
[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=TLTlqwk78no[/youtube]
“Nós aprendemos
Palavras duras
Como dizer perdi, perdi
Palavras tontas
Nossas palavras
Quem falou não está mais aqui”
(“Tantas palavras”, Chico Buarque / Dominguinhos)
Selma Barcellos
Seria pedir muito que inventores de placas de banheiro fossem menos criativos? Por conta do exagero de suas genialidades e… hummm… de meus chopinhos, passo bons apertos. Cidadão adentra corretamente o recinto dele e eu mando um altivo “o que o senhor está fazendo aqui?”. Em outra ocasião, garçom supergentil bate à porta: “Madame, perdão, este toilette é masculiiiino!”.
Para completar, vou com certa frequência a um restaurante italiano em cujas portas de banheiro há fotos bem antigas, em preto e branco, do rosto do nonno e da nonna. O vovô tem bigodão e a vovó, um buço de responsa. Juro, gente, às vezes inverte… Se bobear, até de costeleta já vi aquela senhora. Mas agora fico esperta. Por alguns segundos, guardo distância regulamentar, ponho a mão no queixo e faço cara de turista no Louvre. Tem funcionado.
Observem, queridos do blog, a que nível de complexidade a coisa chegou: gírias australianas Blokes (garotos) e Sheilas (garotas) em restaurante de rede famosa; palavras celtas Fir e Mna em lounge badalado (ilustraram depois, a pedidos); garrafa e taça sugerindo pipiu e pepeca estilizados e minimalistas… Assim não dá.
Está de bom tamanho escrever MASCULINO e FEMININO, com ícones clássicos do gênero humano. Em português mesmo. Nada de M de men (ou de mulher?).
Nem de objetos em rosa, azul… A blogueira já é uma pastel. E pode ser daltônica, não?
Consta que esta canção teria sido precursora da Bossa Nova, e que Tom Jobim nela encontrou o caminho a seguir.
E o barquinho?
“Dans mon île” (Henri Salvador / M. Pon), com Henri
[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=JDzz2KGuyH0#at=147[/youtube]
Dans mon île
Ah comme on est bien
Dans mon île
On n’fait jamais rien
On se dore au soleil
Qui nous caresse
Et l’on paresse
Sans songer à demain
Dans mon île
Ah comme il fait doux
Bien tranquille
Près de ma doudou
Sous les grands cocotiers qui se balancent
En silence, nous rêvons de nous.
Dans mon île
Un parfum d’amour
Se faufile
Dès la fin du jour
Elle accourt me tendant ses bras dociles
Douce et fragile
Dans ses plus beaux atours
Ses yeux brillent
Et ses cheveux bruns
S’éparpillent
Sur le sable fin
Et nous jouons au jeu d’Adam et Eve
Jeu facile
Qu’ils nous ont appris
Car mon île c’est le Paradis.
Adalberto de Oliveira Souza
FRAGMENTOS
Nesta noite de sábado,
penso saber
um gosto amargo.
Será doce
coincidir
o gosto, o saber
e o dia.
▪▪▪
Corrói-se tudo,
dia após dia
e à revelia,
corrompe-se
o espaço ocupado.
▪▪▪
O amor,
a dor
e as reticências…
▪▪▪
A vida é um desejo
fraturado pela morte.
▪▪▪
Que solução senão
arder-se nas chamas dos instantes.
Annibal Augusto Gama
O DIA QUE PASSOU
Este dia que passou
foi apenas um dia
como os outros:
passou.
Nenhuma amargura irremediável
nenhum desastre irrevogável
nenhuma palavra exata
fina como um punhal
o marcou.
Só a prata do dia
se gastou.
Que esperavas deste dia?
Ou nem mesmo esperavas:
Foi ele que amanheceu
no ruído da rua
no leve fremir da cortina
e como veio se foi
humilde cão surgido
e desaparecido.
Não ouviste atrás da porta
a confidência sussurrada
ou a conspiração armada.
tudo pareceu normal
pedra de sal
se derretendo
no prato sobre a mesa
e uma lânguida tristeza
fluindo no sofá.
Houve mortes? Houve prantos?
O amor brotou em alguém
como um sol de espantos
e uma lua de jacintos?
Não sabes.
No jornal a manchete
foi um campo onde Troia
feneceu. E tu e eu.
O dia adejou entre as árvores
asas de borboleta
e se espetou para sempre
num calendário de enigmas
que ninguém mais consultará.
“Valsinha” (Vinicius de Moraes / Chico Buarque), com Chico
[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=6u4FK_Z5298[/youtube]
Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito
de sempre chegar
Olhou-a de um jeito muito mais quente do que sempre
costumava olhar
E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito
de sempre falar
e nem deixou-a só num canto, pra seu grande espanto
convidou-a pra rodar
Então ela se fez bonita como há muito tempo
não queria ousar
Com seu vestido decotado cheirando a guardado
de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços como há muito
tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça foram para a praça
e começaram a se abraçar
E ali dançaram tanta dança que a vizinhança toda
despertou
E foi tanta felicidade que toda cidade se iluminou
E foram tantos beijos loucos,
Tantos gritos roucos como não se ouvia(m) mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu
Em paz
Chico Buarque conta que conheceu Vinicius de Moraes como amigo do pai, Sergio Buarque de Holanda, e tinha por ele a reverência que os mais novos costumavam ter com os mais velhos.
Só bem depois, quando Chico começou a aparecer como compositor e cantor é que as relações entre Vinicius e ele se estreitaram, acabaram parceiros e até compadres.
“Valsinha” é uma das canções mais belas da parceria, em que o poetinha fez a melodia e Chico, a letra.
Vinicius não resistiu a dar alguns pitacos na letra que Chico lhe enviou, entre os quais o título da canção: “Valsa hippie”.
A deliciosa troca de cartas (e farpas) entre os dois revela que Chico, apesar do respeito e da admiração por Vinicius, já havia adquirido confiança e intimidade suficientes para contrariá-lo. E me parece que a razão, no caso, estava com Chico.
DE VINÍCIUS DE MORAES PARA CHICO BUARQUE
Mar del Plata, 24 de janeiro de 1971
Chiquérrimo,
Dei uma apertada linda na sua letra, depois que você partiu, porque achei que valia a pena trabalhar mais um pouquinho sobre ela, sobre aqueles hiatos que havia, adicionando duas ou três idéias que tive. Mandei-a em carta a você, mas Toquinho, com a cara mais séria do mundo, me disse que Sérgio morava em Buri, 11, e lá se foi a carta para Buri, 11.
Mas, como você me disse no telefone que não tinha recebido, estou mandando outra para ver se você concorda com as modificações feitas.
Claro que a letra é sua, e eu nada mais fiz que dar uma aparafusada geral. Às vezes o cara de fora vê melhor essas coisas. Enfim, porra, aí vai ela. Dei-lhe o nome de “Valsa hippie”, porque parece-me que tua letra tem esse elemento hippie que dá um encanto todo moderno à valsa, brasileira e antigona. Que é que você acha? O pessoal aqui, no princípio, estranhou um pouco, mas depois se amarrou na idéia. Escreva logo, dizendo o que você achou.
DE CHICO BUARQUE PARA VINÍCIUS DE MORAES
Caro poeta,
Recebi as duas cartas e fiquei meio embananado. É que eu já estava cantando aquela letra, com hiato e tudo, gostando e me acostumando a ela. Também porque, como você já sabe, o público tem recebido a valsinha com o maior entusiasmo, pedindo bis e tudo. Sem exagero, ela é o ponto alto do show, junto com o “Apesar de você”. Então dá um certo medo de mudar demais. Enfim, a música é sua e a discussão continua aberta. Vou tentar defender, por pontos, a minha opinião. Estude o meu caso, exponha-o a Toquinho e Gesse, e se não gostar foda-se, ou fodo-me eu.
“Valsa hippie” é um título forte. É bonito, mas pode parecer forçação de barra, com tudo que há de hippie por aí. “Valsa hippie” ligado à filosofia hippie como você a ligou, é um título perfeito. Mas hippie, para o grande público, já deixou de ser filosofia para ser a moda pra frente de se usar roupa e cabelo. Aí já não tem nada a ver. Pela mesma razão eu prefiro que o nosso personagem xingue ou, mais delicado, maldiga a vida, em vez de falar mal da poesia. A sua solução é mais bonita e completa, mas eu acho que ela diminui o efeito do que se segue. Esse homem da primeira estrofe é o anti-hippy. Acho mesmo que ele nunca soube o que é poesia. É bancário e está com o saco cheio e está sempre mandando sua mulher à merda. Quer dizer, neste dia ele chegou diferente, não maldisse (ou “xingou” mesmo) a vida tanto e convidou-a pra rodar.
“Convidou-a pra rodar” eu gosto muito, poeta, deixa ficar. Rodar que é dar um passeio e é dançar. Depois eu acho que, se ele já for convidando a coitada para amar, perde-se o suspense do vestido no armário e a tesão da trepada final. “Pra seu grande espanto”, você tem razão, é melhor que “para seu espanto”. Só que eu esqueci que ia por itens.
Vamos lá: Apesar do Orestes (vestido de dourado é lindo), eu gosto muito do som do vestido decotado. É gostoso de cantar “vestidodecotado”. E para ficar dourado, o vestido fica com o acento tendendo para a primeira sílaba. Não chega a ser um acento, mas é quase. Esse verso é, aliás, o que mais agrada, em geral. E eu também gosto do decotado ligado ao “ousar” que ela não queria por causa do marido chato e quadrado.
Escuta, ô poeta, não leva a mal a minha impertinência, mas você precisava estar aqui para ver como a turma gosta, e o jeito dela gostar dessa valsa, assim à primeira vista. É por isso que estou puxando a sardinha mais para o lado da minha letra, que é mais simplória, do que pelas suas modificações que, enriquecendo os versos, talvez dificultem um pouco a compreensão imediata. E essa valsinha tem um apelo popular que nós não suspeitávamos.
Ainda baseado no argumento acima, prefiro o “abraçar” ao “bailar”. Em suma, eu não mexeria na segunda estrofe. A terceira é a que mais me preocupa. Você está certo quanto ao “o mundo” em vez de “a gente”. Ah, voltando à estrofe anterior, gostei do último versos onde você diz “e cheios de ternura e graça” em vez de “e foram-se cheios de graça”. Agora, estou pensando em retomar uma idéia anterior, quando eu pensava em colocá-los em estado de graça. Aproveitando a sua ternura, poderíamos fazer “Em estado de ternura e graça foram para a praça e começaram a se abraçar”. Só tem o probleminha da junção “em-estado”, o “em-e” numa sílaba só. Que é o mesmo problema do “começaram-a”. Mas você mesmo disse que o probleminha desaparece dependendo da maneira de se cantar. E eu tenho cantado “começaram a se abraçar” sem maiores danos.
Enfim, veja aí o que você acha de tudo isso, desculpe a encheção de saco e responda urgente.
Há um outro problema: o pessoal do MPB-4 está querendo gravar essa valsa na marra. Eu disse que depende de sua autorização e eles estão aqui esperando.
Eu também gostaria de gravar, se o senhor me permitisse, por que deu bolo com o “Apesar de você”, tenho sido perturbado e o disco deixou de ser prensado. Mas deu para tirar um sarro. É claro que não vendeu tanto quanto a “Tonga”, mas a “Banda” vendeu mais que o disco do Toquinho solando “Primavera”.
Dê um abraço na Gesse, um beijo no Toquinho e peça à Silvana para mandar notícias sobre shows etc. Vou escrever a letra como me parece melhor. Veja aí e, se for o caso, enfie-a no ralo da banheira ou noutro buraco que você tiver à mão.
“Que será
Da luz difusa do abajur lilás
Se nunca mais vier a iluminar
Outras noites iguais?”
“Que será?” (Marino Pinto / Mário Rossi), com Dalva de Oliveira
[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=8qtOK57_DCY[/youtube]
“E eu me pergunto agora que será
Da luz difusa do abajur lilás
Se na lembrança não iluminar
O tempo lindo que ficou pra trás?”
“Abajur lilás” (Rosa Passos / Ivan Lins / Fernando de Oliveira), com Rosa e Ivan
[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=hLkpXnZ3zvE[/youtube]