Resíduos

 

 

 

(…) Pois de tudo fica um pouco.

 Fica um pouco de teu queixo

no queixo de tua filha.

 De teu áspero silêncio

um pouco ficou, um pouco

nos muros zangados,

 nas folhas, mudas, que sobem.

 

Ficou um pouco de tudo

no pires de porcelana, dragão partido, flor branca,

 ficou um pouco

de ruga na vossa testa,

retrato.

 

(…) E de tudo fica um pouco.

 Oh abre os vidros de loção

e abafa

o insuportável mau cheiro da memória.

 

(Resíduo)

 

drummond assinatura

 

 

 

(…) Quem te esperou do outro lado?

Tua filha, ou o anjo torto

que te acompanhou de esguelha

e te deixou na contramão?

Pai morto, mãe morta, irmão

morto, e as namoradas todas

te acenando o mesmo adeus.

Mas se a vida é impraticável,

construíste um elefante

de papel e de ternura

que no dorso te levou

para a fazenda do ar.

 

(…) Cansado de ser moderno

agora és eterno

e apenas contemporâneo

de ti mesmo. Nem teu corpo

veste mais o paletó,

a gravata. Os teus óculos

devassam a bruma, a broma

da Máquina do Mundo,

que virou um claro-enigma.

 

(Resíduo,“Dez anos da morte de Drummond”, in “Herança Jacente”) 

Annibal assinatura 2

 

 

 

 

3 comentários

  1. André
    31/10/13 at 16:51

    Gama, ambos os poemas são lindíssimos. Percebi que o do seu pai homenageia Drummond implicitamente, sem citar o seu nome, mas fazendo referência a várias de suas obras.
    Abraçaço.

  2. 31/10/13 at 21:20

    Leio os Poetas Drummond e Annibal e me pergunto como ouso…
    Ainda ontem relia “Não é preciso dizer mais nada”. Que poemaço!
     

  3. Lúcia Helena Vieira Dibo
    31/10/13 at 22:54

    Onde começa um e onde acaba outro grande poema.
    Belo. Belo.
     
     

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