O papagaio de Flaubert

 

            Annibal Augusto Gama

 Annibal

 

 

 

 

 

Quem não leu o admirável conto de Flaubert, “Un Coeur Simple”?  Se ainda não leu, não sabe o que está perdendo.

Felicité era uma criada, que teve a sua história de amor frustrada. Acabou apegando-se a um papagaio chamado Loulou. Afinal, o perroquet morre e ela, também, ao morrer, vê “um vapor azul”, em seu quarto. “Ela avançou suas narinas, aspirando-o com uma sensualidade mística; depois, cerrou as pálpebras. Seus lábios sorriam. As batidas de seu coração diminuíram uma a uma, cada vez mais vagas, mais doces, como uma fonte que se esgota, como um eco que desaparece; e quando exalou sua derradeiro suspiro, creu ver, nos céus entreabertos um gigantesco papagaio, plainando em cima de sua cabeça”.

Fui visitar o meu amigo Germano, que não é muito confiável e, muito imaginoso, conta histórias incríveis. Também eu as conto, e dizem-me: “esta eu não engulo”. Mas engolem.

Na casa de Germano, vi um papagaio no poleiro. Era no inverno e fazia um frio desgraçado. Ao aproximar-me do poleiro, o papagaio, que estava todo arrepiado, disse-me: “Il fait un temps de chien! Quel froid!”

Voltei-me para Germano, exclamando: “O seu papagaio fala francês!” E ele confirmou:

— Pois é… É um papagaio que Flaubert deu ao meu tio-avô, em sua casa, em Ruão.

Ora, Flaubert havia falecido há mais de cem anos e, portanto, o papagaio, ainda que viva sessenta anos, ou mais, não podia ser o que o seu tio-avô recebera de presente de Flaubert.

Mas Germano me explicou:

— Voltando para o Brasil com o papagaio, meu tio-avô arrumou uma papagaia para fazer companhia ao outro. Daí, o casal se apaixonou, e a papagaia botou e cuidou dos ovos que geraram outros papagaios. Este aí é um descendente do casal. 

A explicação era convincente, e aceitei-a.

Retornando para minha casa, contei a história a meu papagaio Horácio, que a admitiu como verídica. E também me disse: 

— Eu mesmo sou descendente direto de um papagaio que D. Pedro I deu à Marquesa dos Santos. Mas não me gabo. Sou republicano, se bem que a república vai mal, muito mal das pernas…

 

flaubert 

 

 

5 comentários

  1. André
    03/02/14 at 14:03

    Gama, de todos os excelentes textos de autoria de seu pai – com os quais eu viajo diariamente, sem sair do lugar e imaginando estar dentro deles -, este é mais um.
    Abraçaço.

  2. sonia kahawach
    03/02/14 at 14:57

    Sempre delícia ler Annibal Gama. E Horácio ainda existe mesmo? Deste me lembro aprendendo a assobiar o Hino Nacional – ensinado pelo sempre genial seu dono.  E também ficou na lembrança mais ou menos isto “…papagaio real….. rei de Portugal…”
    Mas minha memória já me trai bastante e não me lembro exatamente dos detalhes, mas me lembro bem do Horácio.  E com certeza ele é descendente do que foi dado à Marquesa dos Santos.
     

  3. Lúcia Helena Vieira Dibo
    03/02/14 at 18:43

    O processo de criação do Sr. Annibal é deliciosamente instigante.
    Só mesmo uma mente brilhante para juntar Flaubert e Horácio.
    Amei!

  4. paulinho lima
    04/02/14 at 0:29

    Nos idos de 80 a caminho do trabalho, no sinal de um cruzamento “complicado” sempre me posicionei para dar Bom Dia para um papagaio. Mudei por um tempo para fora do Rio, vez por outra me lembrava do papagaio. Quando voltei passei pela loja onde o papagaio ficava e não mais o vi. Não resisti e um dia resolvi soltar do carro e perguntar ao seu dono por onde andava o bichano. Faleceu, respondeu o logista. Confesso que deixei o local triste. E o pior, com uma sensação de culpa. Será que sentiu falta do meu “Bom Dia”!!!???? 
    Comentei essa historia com meu amigo Ronaldo.
    – Paulinho, fique tranquilo ele não gostava de você. Nunca respondeu o seu Bom Dia. Para mim respondia sempre.
    -É! mesmo assim eu gostava dele. Para você ele respondia , para mim ria, sorria. E estamos conversado.

  5. paulinho lima
    04/02/14 at 0:30

    Volto!!! o texto do Annibal como sempre empolga e inspira e nos faz lembrar histórias….

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