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Poeminha para o Conde Afonso Celso

 

              Annibal Augusto Gama

Annibal

 

 

 

 

 

 

 

                                   POEMINHA PARA O CONDE AFONSO CELSO

 

 

                                   Ufanares da minha pátria,

                                   mares bravios, pantanais,

                                   palmeiras, milharais,

                                   amazonas florestais,

                                   ouro das minas gerais,

                                   ufanuras de planuras

                                   criança, não verás jamais

                                   país nenhum como este.

 

                                   Pátria, latejo em ti,

                                   no ufofo dos teus biocos,

                                   nos teus templos barrocos,

                                   nos fofos dos teus ocos,

                                   nos caroços dos teus cocos,

                                   nos pouco a poucos

                                   do teu ócio luso-afro-tupiniquim.

 

                                   Ufanício dos teus carnavais,

                                   dos teus feriados nacionais,

                                   das tuas paradas marciais,

                                   as tuas bandas municipais,

                                   ufanando por toda parte

                                   nesta arte flamejante

                                   do que antes tarde que jamais.

 

                                   Ufa! Ufa! Ufa! Ufa!

                                   O gigante arquejante,

                                   neste calor de estufa,

                                   deita-se de preguiça ufante

                                   e adormece.

 

Porque me ufano do meu paísVeja  AQUI

 

 

 

Olhando da janela

 

               Annibal Augusto Gama

Annibal

 

 

 

 

 

 

Da janela, fico olhando o céu, de dez em dez minutos. Céu cinzento, nublado, céu de verão. Parece que mais tarde irá chover, sei não. Já não chove como antigamente, com trovoadas e raios, chuva aos potes estralando na calçada, até que, amainando, surgia o arco-íris. Então, os urubus vinham pousar na cumeeira dos telhados, e abriam as asas, para secar. 

Hoje, até os bem-te-vis estão mudos, são três horas da tarde. A preguiça se espicha no sofá, neste calorão dos diabos, que nem o ventilador ligado refresca.

Calor demais é indecência. Frio demais é chato. A vida é chata.

Acendo um cigarro, e logo mais acenderei outro.

Não quero estar com amigos, nem inimigos, afetos ou desafetos.

Ler jornal, neste dia, faz mal para a saúde. Assistir à televisão é aborrecer-se.

Torno a espiar o céu. Ele não muda, parece a Cena Muda, uma revista, também de muitos outroras.

Se o telefone tocar, dou um tiro nele.

Já me aconselharam um banho de cheiro, de ervas aromáticas. Mas eu não sou pernil em vinha d´alho.

Um cachorro late ao longe, outro cachorro late mais longe.

O que eu queria mesmo, aqui, no meu quintalejo, era um galo que cantasse.

Sento-me diante do tabuleiro de xadrez e jogo uma partida de xadrez com um fantasma. O fantasma ganha.

Espio de novo o céu.

Chegará a noite com a sua rima de açoite.

Na rua, não passa ninguém, graças a Deus.

A última vez em que li Virgílio, ele quadrupedava num charco.

Camões anda de carrinho de rolimã, na Mouraria.

O domingo é chato como carrapato.

 

urubus 2

 

 

 

Instruções para ler um livro

 

             Annibal Augusto Gama

Annibal

 

 

 

 

 

 

Achei muito interessantes e úteis as “instruções para ler o livro”, que estavam nas primeiras páginas de uma obra do renomado Rolando Barates, e lembrei-me de que elas, mutatis mutandis (1), talvez pudessem ser aproveitadas por você, que há anos vem tentando ler o livro que está em sua mão esquerda (2). Vou, portanto, transcrever algumas das instruções:

Em primeiro lugar, abra o livro da direita para a esquerda, na folha de rosto (3). Este livro foi escrito em português e, portanto, deve ser lido da esquerda para a direita, o que não acontece com os livros escritos em árabe, ou em japonês. Vá lendo a primeira linha e, quando ela acabar, salte para a segunda, e assim sucessivamente.

Em segundo lugar, o que foi indicado (“salte para a segunda linha”), não impede que você salte da primeira para décima oitava linha, ou vire logo a página para outra, se você estiver com pressa, ou não lhe interessar a segunda linha nem as demais. Só faço uma observação: Como é que você vai saber que não lhe interessa a segunda linha ou as demais, se não as leu? Não interessa, pronto, e você está com pressa.

Em terceiro lugar, não engula muitas vírgulas. As vírgulas têm a tendência de ser enjoativas e, se você engolir todas, é certo que o seu estômago se embrulhará, e você terá de ir até a pia mais próxima, para as vomitar. Dispense também os pontos de exclamação e os de interrogação, pois alguns autores são muito admirativos e interrogativos, e você não é. As reticências, ou três pontos seguidos, são também dispensáveis, para quê esta mania de esbanjar pontos?

Em quarto lugar, se você encontrar parentes, ou parênteses, bote-os logo para fora, porque parente só os dentes, ou parente é serpente, como alerta aquele filme italiano.

Prossigo:

Se encontrar adjetivos, você que é jurista e sabe o que é “pacto adjeto”, e não ignora que o objeto é que leva a carga, dejete-os.

“Asteriscos” são sinais em forma de estrelas que remetem para baixo, para o rodapé, a explicação que o autor já devia ter dado antes e não deu. Se não deu antes, por que dar depois? Além disso, você não é barata para estar se enfiando nas frestas dos rodapés, nem astrônomo, para estar olhando o céu.

Todo livro traz, em cima de cada página par, o nome do autor e, em cima das páginas ímpares, o seu título. Ora, se o nome do autor já está na capa e no frontispício, por que o repetir centenas de vezes? Só se o autor for sujeito muito vaidoso, e está sempre com o próprio nome da boca. Se assim é, não merece a leitura do livro que escreveu (4).

No princípio do livro, você encontrará um índice, ou um sumário. O índice é aquele ovo que sempre se deixa no ninho da galinha, para que ela volte ali a botar outro ovo. Mas você, leitor, não é galinha nem bota ovo. Ou é, e bota? Aconselho-o a dispensar sumariamente o índice e o sumário.

Alguns livros trazem, ao fim, outro índice, denominado “índice onomástico”. Este sim, é útil, se você estiver à procura de um nome para dar ao seu filho recentemente nascido. Embora os nomes do tal índice onomástico sejam quase sempre estrangeiros, e não sirvam para você, que é brasileiro.

As páginas de iconografia ou de ilustrações (principalmente de mulheres peladas) são as melhores do livro. Detenha-se nelas atentamente.

No fim do livro você pode encontrar a palavra FIM. Arre! Você chegou até o fim, ainda que tenha saltado muitas páginas.

 

(1) “Mutatis mutandis” é latim, e significa “montado no mutango. – (2) Talvez você seja canhoto. Se não for, não importa, segure o livro com qualquer uma das mãos, a menos que você seja maneta. – (3) “Folha de rosto” é aquela folha que você encosta no rosto. – (4) “Que escreveu”, em termos. Há autores que são analfabetos, e alguém escreve por eles.

 

livros (think) 

 

 

A falecida

 

              Annibal Augusto Gama

Annibal

 

 

 

 

 

 

A falecida acabara de ser enterrada quando seu Genésio, voltando para casa, deu com ela no banheiro, lavando o pescoço e os sovacos. Ele não se apavorou, porque sabia que sua mulher não iria deixar a casa sem a pôr em ordem e lhe preparar o jantar. Todavia, timidamente, lhe disse:

— Mas Leocádia, você não precisa se preocupar comigo, eu me arranjo, vou comer um sanduíche…

Então, a falecida, depois de enxugar o pescoço com a toalha, olhou para ele, e respondeu:

— Sanduíche? Você sabe que sanduíche lhe faz mal, não se lembra daquela dor de barriga que teve, quando comeu o sanduíche de pão e mortadela? Vou fazer uma sopinha de legumes.

Dali, ela foi para a cozinha, e começou a tirar as panelas do armário.

Seu Genésio ficou embaraçado, porque estava na hora de chegarem as visitas de condolências, e se elas encontrassem ali a Leocádia, o que haveriam de dizer

Nem ele pensou nisso, e teve de abrir a porta da rua, porque a Luisinha com o marido já chegavam, muito compungidos e lhe diziam:

—Nossos sentimentos, seu Genésio… Nós sabemos a falta que ela lhe faz, mas Deus há de lhe dar consolação…

Mal eles diziam isso, e a Leocádia perguntou, da cozinha:

— Genésio, quem é que está aí?

Luisinha e o marido escafederam-se imediatamente pela porta, embora seu Genésio tentasse lhes explicar:

— Não é nada não, é só uma gravação que eu fiz da voz da Leocádia, e estava ouvindo.

Nos outros dias, porém, correu pela vizinhança que a Leocádia retornara. Aquilo foi um espanto. Então, não a tinham visto no velório, deitada no caixão, e não haviam testemunhado o seu sepultamento? Só podia ser artes do Diabo.

Foram falar com o Padre Túlio, porque não tinha cabimento aquela convivência do viúvo com a falecida.

O Padre Túlio, por descarga de consciência, embora não acreditasse no que lhe contavam, veio ver seu Genésio. Entrou, e foi-lhe dizendo:

— Genésio, meu filho, eu sei a falta que a Leocádia lhe faz… Mas é preciso ter fé, e conformar-se com os desígnios de Deus.

Ele falando isso, e a Leocádia vindo lá de dentro e pedindo-lhe a bênção.

Padre Túlio arrepanhou a saia da batina e partiu dali feito uma bala.

Leocádia, espantada, indagou de seu Genésio:

— Que é que está acontecendo? Essa gente anda muito esquisita.

Seu Genésio então avisou:

— Olhe, Leocádia, é preciso você se prevenir, se resguardar. Para mim, você pode aparecer, e até fazer o feijãozinho com arroz, mas evite o pessoal, que é muito besta.

E, desta maneira, portas e janelas fechadas, os dois passaram a ter paz.

 

tarde gris 4

 

 

O colecionador

 

 

             Annibal Augusto Gama

 Annibal

 

 

 

 

 

Era um colecionador de extravagâncias, algumas absolutamente incríveis, como, por exemplo, um relógio de parede que, ao bater as horas e quartos de hora, dizia insultos terríveis a quem estivesse perto ou o consultasse.

Máquinas estúpidas que deslizavam guinchando atrás das pessoas e lhes mordiam doloridamente os pés, cachorros que vinham mijar na barra de nossas calças. Ele ria, e ligava todas essas máquinas para se divertir e divertir os seus amigos.

Por último, adquiriu uma boneca de plástico, de fabricação exclusiva e apenas sob encomenda, de uma fábrica japonesa, que lhe custara uma nota. Era realmente belíssima a boneca que me mostrou, mas eu lhe disse: “Isso jamais substituirá uma mulher de verdade”. “Substitui sim, e com vantagem”, ele afirmou.

Dois meses depois, ele me convocou, indignado, dizendo-me que haviam matado a sua boneca de plástico. “Será que não foi ela mesma que praticou haraquiri?”, eu lhe disse, gozando-o. “Não brinque, respondeu, “ela foi esquartejada”. Fui ver a boneca e vi que ela de fato fora esquartejada, provavelmente por uma serra elétrica.

― Eu lhe pago o que você quiser para você descobrir quem fez isso com minha boneca.

Não lhe disse nada, mas a minha primeira suposição foi a de que aquilo era serviço de alguma mulher. Mas mulher não usa serra elétrica. Mulher adota antes veneno.

Sou investigador particular, e já havia antes lhe prestado alguns serviços.

Fiz as perguntas de praxe, quem tinha acesso livre à sua casa, onde ele guardava a boneca, para quem a exibira, quando é que estivera ausente, se suspeitava de alguém, etc. Ele me respondeu que suspeitava de todo mundo. “É melhor você suspeitar de uma mulher”, eu lhe disse. “Uma mulher ciumenta, sei que você tem amantes e é um depravado”. Aconselhei-o também a ir à Polícia e denunciar o assassinato da boneca de plástico. “Não brinque”, ele me respondeu, “o caso é grave”.

― Será que a sua boneca não o estava traindo com outro? ― sugeri.

― Impossível ― ele explicou. ― Ela tem garantia de fidelidade absoluta, da fábrica.

Fui entrevistar as amantes dele, e elas admitiram que tinham ciúmes da boneca, mas seriam incapazes de manejar uma serra elétrica. Uma delas disse-me que não gostava nem de ligar o ferro elétrico. Demais disso, disseram, nenhuma boneca as superava, elas faziam coisas que nem uma boneca japonesa saberia fazer.

No meu escritório, refleti: Se não fora uma mulher a esquartejadora, fora um homem. E lembrei-me do Padre Zózimo, que ia à casa dele para pedir esmolas para os pobres e para as obras de igreja. Provavelmente, por deboche, ele exibira a boneca ao Padre Zózimo.

Fui procurar o padre e, de supetão, lhe disse: “Sei que foi o senhor que esquartejou a boneca”.

Ele não titubeou:

― Fui eu mesmo, e não me arrependo. Aquilo era obra do Diabo, e precisava ser exterminado. Já pensou se os padres ricos começam a comprar bonecas de plástico, como aquela?

Não denunciei a ele o Padre Zózimo e, passados uns meses, informei-o de que desistia da investigação. Não havia achado nenhuma pista. E aconselhei-o a comprar outra boneca, mas não a exibir a ninguém.

É uma imprudência exibir as nossas mulheres.

 

boneca de plástico 3

 

 

 

Da arte de cantar

 

           Annibal Augusto Gama

ANNBAL~1

 

 

 

 

 

 

 Quem canta, seus males espanta. Onde o galo canta, janta. E a galinha também canta. Cantam os passarinhos

Minhas madamas e meus senhores, vou propor-me a ensinar-vos a arte de cantar. Não para que torneis um Passarotti ou uma Callas, mas para que possais cantar no banheiro, ou em alguma festinha íntima e fazer boa figura.

Antes eu ia ensinar aos cavalheiros a arte de cantar a mulher do vizinho. Com a devida cautela, quando o vizinho está ausente, de viagem. Fica para depois.

Para cantar, é preciso antes ter voz. Os mudos não têm, ou quase não têm voz, por isso não cantam. São tristonhos e desconfiados. No entanto, há muito cantor por aí, com mil CDs gravados, que não tem voz, mas canta. Há aparelhos que podeis encostar na boca, como se fôsseis engoli-los, para que tenhais um vozeirão, desses de rebentar os copos de cristais na cristaleira e fazer voar as moscas para fora da janela. Tenho visto, ou ouvido, sujeitos e sujeitas que, festejados em todos os canais de televisão e nos palcos dos festivais, em vez de verdadeiramente cantar, se sacolejam. O que vale é o sacolejo, ter uma mola nos quadris e atirar as pernas, os pés, para todos os lados, e os braços, como num ataque de convulsão epilética. E a platéia urra diante deles, berrando: “É o maior! É a maior!” Basta que tenham os macacos ou as macacas de auditório para os aplaudir.

Não importa que a voz seja roufenha ou de taquara rachada. Se for roufenha, melhor para cantar um tango argentino. Para isto, convém também enrolar um cachecol no pescoço. Aí, é só cantar o “Adiós, muchachos, compañeros de mi vida” ou o “Mi Buenos Aires querido…”

Tratai, pois, de ir em frente.

Um violão para acompanhar a cantoria, enfiado debaixo do sovaco, é também conveniente. Ainda que mal saibais dedilhar-lhe as cordas e fazer apenas tum-tum, tum-tum. O décor é tudo. Acrescentai antes a isso um pedido ao maestro: “Maestro, dê aí um dó menor.” Isto demonstra que o cantor, ou a cantatriz, entende do riscado.

Como somos do país do samba e do Carnaval, aconselho-vos a cantar o samba, movendo os pés para diante e para trás, acompanhado de um gingado. O êxito será garantido. Se as madamas e os cavalheiros forem mais modernosos, dedicai-vos à bossa-nova. Para ela, quanto menos voz se tiver, melhor. Basta sussurrar, inclinado naquele buraco do violão, como se estivésseis contando um segredo que não deve ser escutado por ninguém.

Não desprezai a moda de viola. Se a adotardes, melhor é que arranjeis um companheiro ou uma companheira. E não esqueçais de dar nome à dupla, Zico e Zuca, por exemplo, ou Taco e Tica. O chapéu de palha, esfiapado, na cabeça, e a camisa de risicadinho complementarão a indumentária. E, nos pés, as alparcatas, com a unha grossa e suja do dedão. Cantai então: “Quando bateu aquela portera, e deixei a casinha com seu oitão e a janela, meu coração se esfarelou, já de sodade dela…” E daí para frente.

Aos que apreciam a música norte-americana, são imprescindíveis o pistão de vara, o saxofone e a bateria. Um piano para ser martelado ajuda. E nem é necessário saber o inglês. As palavras da canção podem ser estropiadas ou cuspidas de qualquer jeito. Cantai “New York, New York’’, com aquele jeitão de Frank Sinatra. E revirai os olhos para cima, cismadoramente. Enquanto isso, ide bebendo o uísque, num copo alto pousado em cima do piano. Ou experimentai o rock. Neste caso, não deixeis de vos desbundar.

O fado, com sotaque alfacinha, chorando pela mãe, vai fazer correr as lágrimas dos ouvintes. Porque todos têm a sua mãezinha, coitada, olhando pela janela, com o xale aos ombros.

A canção italiana, esta é para dar o dó de peito. E a francesa vos assegurará muitas palmas, desde que sejais convenientemente fanhosos, cantando pelo nariz. No vosso repertório, não dispenseis o “La vie em rose”.

Cantai a todos os pulmões, ainda que o enfisema vos ataque. Um cigarro torto pendurado no beiço, ajudará a compor-vos no palco ou na sala. Cantai de madrugada, esgoelando, para que o vizinho chame a polícia. E, se for no banheiro de uma pensão, não importa que outro pensionista esmurre a porta.

Em nosso país, temos vinte milhões de cantores e cantoras. E cada dia surge mais um. Sede mais um, ou uma. Cantai no coro da igreja, no botequim, na esquina, no teatro, nos corredores, e no curral da avó.

A vida é uma canção. Cansa, mas é uma canção. Cantai, sobretudo na orelha da mulher amada, e de vez em quando lambendo-a.

 

cantor

 

 

 

O dia que passou

 

            Annibal Augusto Gama

ANNBAL~1 

 

 

 

 

 

 

                                               O DIA QUE PASSOU

 

 

                                               Este dia que passou

                                               foi apenas um dia

                                               como os outros:

                                               passou.

 

                                               Nenhuma amargura irremediável

                                               nenhum desastre irrevogável

                                               nenhuma palavra exata

                                               fina como um punhal

                                               o marcou.

                                               Só a prata do dia

                                               se gastou.

 

                                               Que esperavas deste dia?

                                               Ou nem mesmo esperavas:

                                               Foi ele que amanheceu

                                               no ruído da rua

                                               no leve fremir da cortina

                                               e como veio se foi

                                                humilde cão surgido

                                               e desaparecido.

 

                                               Não ouviste atrás da porta

                                               a confidência sussurrada

                                                ou a conspiração armada.

                                               tudo pareceu normal

                                               pedra de sal

                                               se derretendo

                                               no prato sobre a mesa

                                               e uma lânguida tristeza

                                               fluindo no sofá.

 

                                               Houve mortes? Houve prantos?

                                               O amor brotou em alguém

                                               como um sol de espantos

                                               e uma lua de jacintos?

 

                                               Não sabes.

                                               No jornal a manchete

                                               foi um campo onde Troia

                                               feneceu. E tu e eu.

 

                                                O dia adejou entre as árvores

                                                asas de borboleta

                                               e se espetou para sempre

                                               num calendário de enigmas

                                               que ninguém mais consultará.

 

borboleta 

 

 

O muro

 

                Annibal Augusto Gama

ANNBAL~1

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                           O MURO

 

 

                                    Caiu o muro de Berlim,

                                    mas há outro muro,

                                    duro muro,

                                    que nunca tem fim.

 

                                    Entre ti e mim

                                    o muro do não,

                                   muro duro

                                   erguido do chão.

 

                                   Este muro,

                                   pedra sobre pedra,

                                   cada dia o erguemos

                                   e medra

                                   no infinito futuro.

 

                                   Muro de papel

                                   e fel,

                                   de raiva, desprezo,

                                   desamor,

                                   fome e impudor.

                                   Com ele construímos

                                   a Babel

                                   da língua paralítica.

 

                                   Este muro sim

                                   cerca minha casa

                                   e quebra a asa

                                   do pássaro;

                                   este muro avaro,

                                   que me vara e não varo,

                                   este, ai de ti, ai de mim,

                                   é o muro vero

                                   que não rui aqui

                                   nem em Berlim.

                                   As paredes caem,

                                   cai um muro no Cairo

                                   cai em Roma, na Babilônia,

                                   mas este, verdadeiro,

                                   vai durar para sempre

                                   entre homem e homem,

                                   nem se consome,

                                   e inteiro te come

                                   com a mesma fome

                                   que me come.

 

                                   E nem vês este muro,

                                   este sim, duro muro,

                                   que projetamos

                                   cada noite, cada dia,

                                   pedreiros e engenheiros

                                   prisioneiros

                                   de nossa própria

                                   inópia.

muro 2 

 

 

A Meritolândia

 

          Annibal Augusto Gama

ANNBAL~1

 

 

 

 

 

 

 

Há um país na linha do equador (ao sul, ao norte, a leste ou a oeste, tanto faz) que se chama Meritolândia (vide “Dictionaire des Lieux Imaginaires”, de Alberto Manguel).

Nele, todos são meritórios, mas os juízes são meritíssimos. A escolha para os cargos públicos ali se faz pelo mérito, pelo demérito e pelas fichas-sujas. Estas predominam, e quanto mais comprida for a capivara dos candidatos, na Polícia, mais votos eles obtêm.

Nele já também se experimentou a maracutaia, que foi substituída, com vantagem, pela marmelada. A marmelada é o doce predileto da população que também adota, como moda, os panos quentes.

O sujeito que diz que não disse e que disseram o que ele não disse, ganha mérito. Em tal situação, o dito país é o mais civilizado da América Latrina. Nele já foram experimentados o pluripartidarismo, o unipartidismo, e o trespartidarismo, para se evitar o cambalacho debaixo do tacho. E até já houve um partido denominado arenito, que foi o partido político maior do mundo.

Petelhos e pentelhos acordaram no desacordo. Mas afinal chegou-se ao partido QPM, que quer dizer “quem pode manda”, quem não pode faz xixi na cama. 

O seu sistema eleitoral está sempre se aperfeiçoando, e já se usou o bola na rede e não chute para escanteio. Agora o seu lema é bola pra frente. Os planos do governo gostam muito de um traque, apelidado de PAC. Acho que o nome veio do tropel dos cascos de cavalos: paque, paque, paque, paque. Por isso mesmo, as cavalgaduras são muito meritórias.

Ultimamente, criou-se um partido chamado SF, isto é safadeza, que tirou pedaços de uns e outros que eram a mesma moleza. Ele não é da direita, nem da esquerda, nem do centro, muito ao contrário.

Os ministros são nomeados pelo número de dedos. Quanto mais dedos, mais habilitados para roubar. Isto não impediu que um presidente de tal nação não tivesse um ou dois dedos, tal era a sua arte.

Este país é muito feliz, porque nele não há inflação, há apenas infração. E cada dia se cria uma nova infração, de modo que o Código Penal regurgita de infrações. Não há, porém, pena a ser aplicada, porque pena é coisa de galinha.

 

pais-das-maravilhas

 

 

 

A hipótese e o hipopótamo

 

          Annibal Augusto Gama

ANNBAL~1

 

 

 

 

 

 

 

Pensei em escrever um ensaio sobre a hipótese e o hipopótamo. O hipopótamo do Delírio de Brás Cubas. Cavalgando-o, Brás Cubas vai à origem dos tempos e depois faz a viagem de volta até o fim dos mesmos tempos, quando encontra Pandora. É uma viagem circular, que termina com um gatinho brincando com uma bola de papel. Genial, genial, ninguém escreveu nada semelhante.

Mas qual seria a hipótese, no caso? Temos um hipopótamo, mas não temos uma hipótese.

Ora, a hipótese pode ser qualquer uma. Agora sustentam os entendidos que o criacionismo não deve ser ensinado nas aulas de ciência, porque nada o sustenta, e não é científico. Pois bem: muitas coisas tidas como científicas e exatas, passados mais alguns anos, deixam de sê-lo. Einstein substituiu Newton. Há séculos, o Sol girava em torno da Terra, e era científico; atualmente, é a Terra que gira em torno do Sol, e é também científico.

Quase sempre, a ciência nasce de uma hipótese, e às vezes de hipóteses absurdas. Desta maneira, o criacionismo, que é uma hipótese, é tão científico como qualquer outra teoria.

Bem, se não consigo escrever sobre a hipótese e o hipopótamo, talvez possa escrever sobre a hipótese e a hipóstase.

Dizem os dicionários comuns (o Aurélio, por exemplo) que “hipóstase” é a ficção ou abstração falsamente considerada como real. Nos dicionários filosóficos, a coisa complica-se. Foi Plotino quem, com tal termo, denominou as três substâncias do mundo inteligível: o Uno, a Inteligência e a Alma. Nas discussões trinitárias que se seguiram, a palavra hipóstase foi preferida a “pessoa” que, por significar propriamente “máscara”, parecia evocar a imagem de algo fictício.

Estamos vendo que quase tudo é uma questão de palavras. Exceto a matemática, toda a ciência se faz com palavras, e muitas delas equívocas.

O conhecimento é possível? Há quem afirme que não. Tangenciamos a verdade, mas nunca a encontramos. Ou por outra, a verdade de hoje não será a de amanhã, ainda porque só recolhemos pedaços da verdade, e não a verdade absoluta e total.

Não vejo nenhuma razão para que o criacionismo, como uma hipótese, seja desacreditado, e a ciência não.

Vivemos de ficções, e a ciência é uma delas. Como a moda, a ciência tem o seu dia de alta costura. Todos querem vestir-se com o modelo dos ateliês mais famosos. A saia curta, que exibe deliciosamente as coxas das mulheres, logo mais é substituída pela saia comprida, que vai até os pés.

A pessoa jurídica, de que trata o Direito, o nosso Código Civil, é uma ficção. E com ela desenvolveram-se todas as implicações legislativas.

O hipopótamo certamente não é uma hipótese. Ele existe (por enquanto), como existe o ornitorrinco. E até acho que Machado de Assis não chegou a vê-lo. Mas fez do hipopótamo a cavalgadura de Brás Cubas a viajar para a origem e o fim dos tempos, quando toda ciência será desmentida por uma ciência maior e única.

 

Delírio