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Canção da Espera

 

        Selma Barcellos

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                                               CANÇÃO DA ESPERA

 

 

                                                Na paisagem

                                                das janelas

                                                surge sempre

                                                           um rio

                                    que ela segue

                                                           com olhos de horizonte

                                   e sorrisos de lua

                                               até um estuário

                                               de versos

                                               onde as palavras

                                               — presas às margens

                                               feito musgo

                                               feito hera —

                                               aguardam que

                                               poema e vida

                                               se encontrem.

 

                                               E inaugurem a primavera.

 

 

                                                                       (Montelpuciano, verão de 2012)

 

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Na galeria

 

       Selma Barcellos

Selma 2

 

 

 

 

 

 

 

O minúsculo salão para à entrada daqueles jovens. Altos, bonitos, atléticos, elegantes em suas bermudas cáqui, mocassins tipo italiano, um de camiseta ajustada ao corpo, o outro de social rosa-claro com mangas dobradas. Modelos, certamente.

De um lado, as manicures. Poucos metros à frente, as cabeleireiras. Apenas um cortaria o cabelo. O outro acomoda-se na cadeira ao lado, girando-a para melhor observar o companheiro. Conversam baixo, não olham para os lados, sequer pelo espelho. Discretos. Raros, portanto.

De vez em quando o que aguarda se levanta, circunda a cadeira e orienta a profissional quanto ao desenho da nuca do amigo. De quebra, passa a mão para tirar o excesso de pelos caídos.

Encerrados os trabalhos, uma única fala (entre)ouvida: “Deixa que eu pago. Não devia, hein! Você me fez passar a noite em claro com o choro do baby” .

Beijam carinhosamente a cabeleireira, dão um boa-tarde formal a todas nós, e se vão. Pela parede envidraçada que descortina a galeria, ainda os vemos, mão no ombro, brincadeiras, risos.

– Adoro esses irmãos… Corto o cabelo deles desde pequenos. Sempre educados e unidos assim… – diz a cabeleireira sacudindo a capa.

Corta. (barba, cabelo, bigode e, se conseguirmos, as conclusões precipitadas, os pré-conceitos)

 

FOFOCA-3-BRUCE-GILDEN

 (by Bruce Gilden)

 

 

Para tudo

 

        Selma Barcellos

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Estão acompanhando o quiproquó sobre o Acordo Ortográfico em Portugal?

Seguinte: o presidente do Centro Cultural de Belém, poeta Vasco Graça Moura, simplesmente ordenou que todos os corretores ortográficos fossem retirados de sua  instituição e corre contra o fim do tempo de transição – 31 de dezembro de 2014 – para fazer valer seus argumentos de que o acordo “desfigura a língua portuguesa”. No caso da supressão das consoantes mudas, por exemplo, o poeta prevê o caos: “adopção“, se escrita “adoção“, será lida “adução“, que é do verbo “aduzir” e não “adoptar”.

No Brasil, a transição que expirava em dezembro de 2012 foi estendida até 2016. Mas as regras foram internacionalmente discutidas pela ABL, o Congresso aprovou, e os 10 anos que a lei exige para sua regulamentação foram cumpridos.

Esta blogueira, a princípio zuretinha com os hifens, e devastada pela morte do trema (AQUI)adoptou as mudanças. Fazer o quê? Só não se conforma, até hoje, com o sumiço do acento do “pára” (verbo) a gerar ambiguidades e equívocos. Complicou.

 

 

                                        POEMINHA ORTOGRÁFICO

 

 

                                        Baila comigo?

                                        ─ pergunta ele ─

                                       com tudo.

                                       Para já!

                                       ─ escreve ela ─

                                       do outro lado

                                       da tela,

                                       deixando-o

                                       mudo.

                                       E no entanto

                                       ─ sonhava ─

                                       era para já

                                       que bailassem.

                                       Era urgente

                                       que se amassem.

                                       Maldita reforma.

                                       Fez confundir

                                       um sinal

                                       tão agudo.

                                       Foi grave.

 

                                                                     (Itacoatiara, algum outono, 2012)

 

reforma ortográfica 

 

 

Os “The Friends”

 

     Selma Barcellos

Selma 2

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Reúnem-se regularmente. Almoços sem hora para acabar. Amigos irmãos. Beijam-se na chegada e na saída. No cardápio, caipirinhas, abobrinhas, queixas da patroa, das tungadas do governo, da próstata, atualização do obituário, piadas (repetidas à exaustão) e “olha a gostosa que entrou”, “mas é bom demais ser avô”, “tô tomando ginkgo, a memória tá outra”…

Já aconteceu daquele que não bebe – o “transporre” – tocar a campainha, conduzir o ruinzinho até o sofá da sala, sob o olhar fulminante da mulher, e sair batido. Ou preencher, a pedido de outro alegrinho, seu cheque do rateio e, de troça, anotar uma quantia absurda no canhoto, sem data nem local, para desespero da criatura amnésica ao se deparar com a cifra dias depois.

Toca o celular e meu marido me pede que fale com um deles.

_ Oi, Brito, tudo bem?

_ Tudo ótimo! Selma, lembra do MARIO?

_ Claro, aquele que te… Brincadeira, Brito. Peraí. Mario… Mario… da Rita?  Os que moraram no mesmo bloco da gente em Brasília?

_ Não, o MARIO de Mediar, Ansiar, Remediar, Incendiar e Odiar! Estão aqui caindo na minha pele, apostando que é “intermedia”. Fala aí, professora, não é “intermedeia”?

_ Quanto vale a aposta? Quero 10%.

Ouvi as gargalhadas. Meninos no pátio do recreio. Companheiros de uma vida.

Por eles um anjo intermedeia.

 

P.S.: Mal o marido chegou, chamei-o para ler o post. Emocionado, tirou do bolso o bilhete acima.

 

 

Os mandamentos do escritor

 

    Selma Barcellos

Selma 2

 

 

 

 

 

 

 

 

Por Carlos Willian Leite, para a Bula:

 

 

Segundo Nietzsche, Hemingway, Onetti, García Márquez…

 

 

1 — Mintam sempre.

(Juan Carlos Onetti)

 

2 — Elimine toda palavra supérflua.

(Ernest Hemingway)

 

3 — Uma coisa é uma história longa e outra é uma história alongada.

(Gabriel García Márquez)

 

4 — Antes de segurar a caneta, é preciso saber exatamente como se expressaria de viva voz o que se tem que dizer. Escrever deve ser apenas uma imitação.

(Friedrich Nietzsche)

 

5 — Não sacrifiquem a sinceridade literária por nada. Nem a política, nem o triunfo. Escrevam sempre para esse outro, silencioso e implacável, que levamos conosco e não é possível enganar.

(Juan Carlos Onetti)

 

6 — Use frases curtas. Use parágrafos de abertura curtos. Use seu idioma de maneira vigorosa.

(Ernest Hemingway)

 

7 — Não force o leitor a ler uma frase novamente para compreender seu sentido.

(Gabriel García Márquez)

 

8 — O escritor está longe de possuir todos os meios do orador. Deve, pois, inspirar-se em uma forma de discurso expressiva. O resultado escrito, de qualquer modo, aparecerá mais apagado que seu modelo.

(Friedrich Nietzsche)

 

9 — Não escrevam jamais pensando na crítica, nos amigos ou parentes, na doce noiva ou esposa. Nem sequer no leitor hipotético.

(Juan Carlos Onetti)

 

10 — Evite o uso de adjetivos, especialmente os extravagantes, como “esplêndido”, “deslumbrante”, “grandioso”, “magnífico”, “suntuoso”.

(Ernest Hemingway)

 

11 — Se você se aborrece escrevendo, o leitor se aborrece lendo.

(Gabriel García Márquez)

 

12 — A riqueza da vida se traduz na riqueza dos gestos. É preciso aprender a considerar tudo como um gesto: a longitude e a pausa das frases, a pontuação, as respirações; também a escolha das palavras e a sucessão dos argumentos.

(Friedrich Nietzsche)

 

13 — Não se limitem a ler os livros já consagrados. Proust e Joyce foram depreciados quando mostraram o nariz. Hoje são gênios.

(Juan Carlos Onetti)

 

14 — O final de uma história deve ser escrito quando você ainda estiver na metade.

(Gabriel García Márquez)

 

15 — O tato do bom prosador na escolha de seus meios consiste em aproximar-se da poesia até roçá-la, mas sem ultrapassar jamais o limite que a separa.

(Friedrich Nietzsche)

 

 

… e Machado de Assis, Proust, Flaubert, Henry Miller, Jorge Luis Borges

 

 

1 — A primeira condição de quem escreve é não aborrecer.

(Machado de Assis)

 

2 — Para se ter talento é necessário estarmos convencidos de que o temos.

(Gustave Flaubert)

 

3 — Há somente uma maneira de escrever para todos, que é escrever sem pensar em ninguém.

(Marcel Proust)

 

4 — Escreva primeiro e sempre. Pintura, música, amigos, cinema, tudo isso vem depois.

(Henry Miller)

 

5 — Evitar as cenas domésticas nos romances policiais; as cenas dramáticas nos diálogos filosóficos.

(Jorge Luis Borges)

 

6 — Trabalhe de acordo com o programa, e não de acordo com o humor. Pare na hora prevista!

(Henry Miller)

 

7 — Uma verdade claramente compreendida não pode ser escrita com sinceridade.

(Marcel Proust)

 

8 — Palavra puxa palavra, uma ideia traz outra, e assim se faz um livro, um governo, ou uma revolução.

(Machado de Assis)

 

9 — O autor na sua obra, deve ser como Deus no universo, presente em toda a parte, mas não visível em nenhuma.

(Gustave Flaubert)

 

10 — Esqueça os livros que quer escrever. Pense apenas no que está escrevendo.

(Henry Miller)

 

11 — O que se deve exigir do escritor, antes de tudo, é certo sentimento íntimo, que o torne homem do seu tempo e do seu país, ainda quando trate de assuntos remotos no tempo e no espaço.

(Machado de Assis)

 

12 — Todo o talento de escrever não consiste senão na escolha das palavras.

(Gustave Flaubert)

 

13 — Mantenha-se humano! Veja pessoas, vá a lugares, beba, se sentir vontade.

(Henry Miller)

 

14 — Evite a vaidade, a modéstia, a pederastia, a falta de pederastia, o suicídio.

(Jorge Luis Borges)

 

15 — Um livro não deve nunca parecer-se com uma conversação nem responder ao desejo de agradar ou de desagradar.

(Marcel Proust)

 

 

O que estão esperando, queridos? Mãos à obra!

 

 

Dando um anarriê…

 

     Selma Barcellos

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… encontrei minha declaração de amor a junho. Do baú! Escrevi faz décadas, ao chegar de uma daquelas baitas festas de fazenda, algum quentão e muitas beijocas depois. Rogo desconto, queridos do blog.

 

 

 

                                                     Fui criança do interior,

                                                     Com o galo eu acordava.

                                                     O mundo era meu quintal,

                                                     Na goiabeira eu brincava.

 

                                                     Ao chegar o mês de junho,

                                                     Enfeitava o arraial.

                                                     Pendurava bandeirinhas

                                                     E chamava o pessoal.

 

                                                     O céu estrelado iluminava

                                                     Os namoros, o forró, a alegria.

                                                     A fogueira assava as batatas,

                                                     Entre buscapés eu corria.

 

                                                     Em casa, com um altarzinho,

                                                     A mãe puxava a novena.

                                                     E São João me olhando, dizia:

                                                     “Conte comigo, pequena!”

 

                                                     Quando virei gente grande,

                                                     Na capital fui morar.

                                                     Vivo num prédio bem alto,

                                                     Com grades a me sufocar.

 

                                                     Da janela desse prédio

                                                     Olho as estrelas distantes…

                                                     O céu não é aquele da roça,

                                                     Não sou feliz como antes.

 

                                                     Saudade da cidadezinha…

                                                     Ar puro, cheiro de jasmim,

                                                     Grama molhada, mês de junho…

                                                     Tudo é pedaço de mim.

 

 

 

Certas coisas…

 

     Selma Barcellos

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“Por que viver vale a pena?” – indaga-se o autor da crônica com que me delicio na rede da varanda, boxers deitados ao lado, labradora empurrando minha mão com o focinho para ganhar cafuné. E responde o jovem cronista: por Mahler, Millôr, Manhattan, Peter Sellers, vinhos do 12ème, mulher “na primeira vez em que entrega sua nudez e seu sorriso” e por aí vai.

Fecho os olhos e penso igualmente em certas coisas que fazem valer a pena… Como o quê? Ora, os poemas do Pessoa, as veredas do Rosa, o esticador de horizontes do Manoel de Barros. Quixote. Quase toda a obra de Fellini, o Mastroianni, a nossa Fernanda, meus cult adolescentes “Um Homem e uma Mulher” e “Breakfast at Tiffany’s” – trilhas sonoras cantadas de cor. Aquela cena do Pacino dançando “Por una cabeza”… Aliás, tangos.

E Paris, “Those Were the Days” em Londres e “Prendi questa mano, Zingara” em Florença – aos 18. Sarah Vaughan, Sinatra, Tom&Vinicius, Tom&Jerry. Chico como encantado ao lado meu e as propostas do Roberto. A bateria da Mangueira. Paul McCartney no Maraca, Anna Netrebko no Waldbühne. “Nessun dorma”. O intermezzo de “Cavalleria rusticana”, a doçura do entreato de “Carmen”… Braços e pernas à perfeição do cisne de Plisetskaya.

Ainda agora, os mistérios de Sintra e pedalar por Cascais, o boardwalk de Santa Monica, ouvindo a percussão dos que sobraram de Woodstock e tomando Erdinger gelada… Bolinho de bacalhau do Seu Antonio. Búzios meio vazia, comendo cavaquinha grelhada no entreposto dos pescadores ao cair da tarde. Bombons trufados da Godiva. Mergulho no mar com a tal sensação térmica de 45º (mas é bom parar por aí). Sol se pondo em Itacoatiara…

A beleza dos dias sob a luz do outono. Aquela noite em que família e amigos, enrolados em mantas, deitamos todos no deck da cabana no Yosemite para observar o céu mais incrível de nossas vidas. As gargalhadas gostosas dos alunos com minhas gracinhas. O último retoque antes de assinar a tela. A expressão feliz do filho vendo sua noiva entrar. O bailado solto com o outro filho e suas dicas de bem viver. Aprender com eles. Chorar de rir. Cansar de dançar.

Não por último, subir ao palco da ABL para receber meu “Oscar” pelo 1º lugar no concurso de redação, 13 mil inscritos… (Nota do Editor: Veja a premiação da Selminha AQUI)

Ah! – e soltar o gogó em “Non, je ne regrette rien”. Glorioso. Meu épico de chuveiro.

 

 

Bem na fita

 

    Selma Barcellos

Selma 2

 

 

 

 

 

 

 

Sempre que uma nova ruguinha me diz “oi, prazer” quando olho no espelho, ao acordar, lembro como mantra de uma resposta de Pitanguy em sua milionésima (suponho) entrevista sobre beleza feminina: “Mulher bonita não é a que se vê chegar, mas a que se sente chegar”.

Ufa, a frase do mestre é um alívio. Você se contenta em aplicar o básico filtro solar e ir à academia apenas para não atrofiar e volta correndo para os livros que ama. Para o imprescindível cultivo das delícias do espírito, pois que não há beleza que sobreviva a uma mente emburrecida.

Só que… vaidade, teu nome é mulher. Daqui a pouco, lá está a gente de novo se mirando no espelho, bem de pertinho, dando uma esticadinha no canto dos olhos, no contorno do queixo…

Verdade seja dita, não é fácil olhar com desdém para o que nos revela o espelho, com ar blasé de quem não está nem aí para as rugas que “nos dão dignidade e contam nossa história”. Além do que, é preciso estar atenta e forte para perceber quando não dá mais para sair de cara lavada, cor de boca nos lábios, beliscões nas bochechas para o arzinho corado e que tais.

Na realidade, a mensagem de Pitanguy, não fosse ele um esteta, passa longe de pregar desapego à imagem. Antes, alerta-nos para a indigência cultural que o excesso de vaidade física pode causar e, a reboque, fala de algo que hoje é literalmente assustador: o exagero de certas mulheres em busca da juventude que se foi ou dos padrões impostos de beleza.

Quem ainda não cruzou pelas ruas com certas criaturas desfiguradas por seguidos procedimentos plásticos, sorriso e olhar aprisionados? Aliás, como pode alguém pagar para ficar feia, disforme, perseguindo um formato de lábios que a natureza não lhe deu, que não condiz com o restante de seu  rosto, mas que Angelina Jolie tem e se quer igual?

Criaturas assim ficam ainda mais visíveis nas imensas lojas de departamentos americanas. São elas não apenas as consumidoras vorazes, como também as atendentes que, buscando provar a eficácia de seus produtos para fazer o tempo voltar atrás, transformaram-se, todas, em Angelinas.

Recentemente, numa dessas lojas, notei que a moça que me vendia um simples hidratante, ao terminar de falar cada frase, levava segundos para conseguir fechar a protuberante boca química. Sabe dublagem mal feita, quando a fala acaba e os lábios ainda se movem? Assim. Aquela era das que se vê chegar. Só que antes de entrar.

Por outro lado, quando leio que, nos Estados Unidos, jovens escapam à síndrome do tapete vermelho, ao padrão ditado pela mídia, e elegem a colega Anne Jennings, bela exatamente em sua diversidade, como “Rainha da Escola”, percebo que nem tudo está perdido. Há luz no camarim do fim do túnel…

 

 

(Aqui a rainha Anne, emocionando-nos com seu sorriso escancaradamente feliz)

 

Assim, bem-vindas as mulheres que se fazem vistas e sentidas em suas chegadas, porque corpo e espírito nutridos, saudáveis, informadas, orgulhosas de sua feminilidade, seguras por se saberem bem na fita. Não a que Hollywood quer filmar, mas aquela cuja câmera e direitos autorais elas detêm, em doses equilibradas de sonho e lucidez.

 

 

A poltrona

  

     Selma Barcellos

Selma 2

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Era tarde quando se levantou da poltrona favorita. Assistira a um belo filme francês, cuja trilha incluía Core Ngrato, música que adora, lera um pouco, recostara-se entregue a borboletas.

Interessante é que nunca saía dela sem uma grande decisão. Como agora, quando resolvera aproveitar o silêncio da casa, todos dormiam, e preparar crepes árabes de nozes e amêndoas para o café da manhã, receita com que o pai beirava o divino, e ela sempre errava a mão.

Quem sabe acertaria assim, à noite, na companhia de Chopin, das boxers, dos fantasmas amigos a olharem-na de soslaio…

Enquanto media o fermento, recordava a história daquela poltrona que atravessava décadas, mudanças, reformas, cores tantas, sem jamais ser mero objeto de cenário, mas palco de uma vida, no centro de um feixe de luz.

No primeiro ato, seus pais escolhem o melhor lugar para colocá-la na casa nova, a pequena bailarina dança sobre o forro de veludo (um pito) ou se esconde dos irmãos espremida entre o encosto e a parede (mais pito); a mãe se acomoda para ouvir suas sonatas ao piano; namora nela, e uma noite vê o galã levantar-se com uma caixinha nas mãos e um pedido no céu da boca…

Segundo ato, a jovem mãe ali amamenta os meninos, corrige provas e inventa palavras de encantar criança; sente o tempo mudar com as marés, as gaivotas e a floração dos jasmins; recosta-se e chora um tantinho com saudade dos rapazes, que foram morar fora, e – hélas – abraça a mãe idosa, memória ausente, sentadinha à espera de proteção.

Para o próximo ato, em pleno ensaio, antevê a vó palhaça, feita de gato e sapato (sem pitos), contando histórias para os netos na bagunça do seu coração.

Os crepes ficaram deliciosos. Quase os ‘verdadeiros’, disseram.

Pena que quando se acerta na vida o ponto do doce, tantos já não estejam mais ali para saboreá-lo conosco… – pensou enquanto observava o fio da calda de flor de laranjeira que, lentamente, vertia no prato.

 

 

Poema velado

 

      Selma Barcellos

Selma 2 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                                      De tangerina

                                                                      Canela

                                                                      Açafrão

                                                                      ― e crepúsculo ―

                                                                      Perfuma-se.

                                                                      De brilhos

                                                                      Miçangas

                                                                      Contas

                                                                      ― e algemas ―

                                                                      Adorna-se.

                                                                      Sob o véu

                                                                      No chão

                                                                      ― que lhe impuseram ―

                                                                      A mulher

                                                                      Não se sabe.

                                                                      Aquiesce e ora.

                                                                      Deseja. E cora.