Posts with tag "Annibal Augusto Gama"

O binômio de Newton

 

          Annibal Augusto Gama

ANNBAL~1

 

 

 

 

 

 

 

Se há coisa em que acredito piamente é no binômio de Newton. Pouco importa que não o compreenda, já que não compreendo muitas outras coisas. O binômio de Newton fascinou a minha juventude, e ainda fascina a minha velhice. Também sempre admirei a Tábua de Logaritmos e os vasos comunicantes. E, como o cão de Pascal, uivo para a Lua, para a imensidão dos espaços vazios.

Um dia desses, apareceu-me no portão o homem de Piauí. E embora eu não acredite na existência do Piauí, que é uma ficção geográfica, fui atendê-lo quando ele apertou a campainha. Ele logo foi me dizendo: “Vim trazer-lhe a salvação”. Tão ardentemente desejava e desejo a salvação, que deixei entrar na minha sala o homem de Piauí. E ele logo me exibiu um jornal, explicando-me que bastava que o assinasse, que estaria salvo. Assinei o jornal, que agora recebo regularmente, e o homem de Piauí me garantiu: “O senhor está salvo”.

Quem diz, porém, que não estou salvo, e que não me salvarei, é o Padre Luís, que me tacha de herege impenitente.

— Padre, mas eu não fiz nada — eu lhe digo. 

-— Por isso mesmo, o senhor vai para o quinto dos infernos. 

Mas ao quinto dos infernos, prefiro o quinto de vinho tinto. 

Todavia, quero estar com minha mulher, com meus pais, e com alguns amigos. E, de qualquer maneira, “no céu, no céu, com minha mãe estarei…” 

Retifico-me: fiz muitas coisas, algumas más, e outras boas. Somadas as contas, tudo se equivale.

A verdade, num poço frio, morreu de pneumonia.

Capataz de uma fazenda que não tive, plantei arroz, feijão, e café. Criei gado no pasto.

Entre as minhas vacas, prefiro também a vaquinha branca, que me dá leite, achega-se à porteira e muge.

Todos os navios saíram dos portos.  Mas, pescador na lagoa, cantarolo:

 

                                               “Pescador da barca bela,

                                               Onde vais pescar com ela,

                                               Que é tão bela, pescador?”

 

Ela por elas, vou indo para Santiago de Compostela.

 

                                               “Ay flores do uerde pino,

                                               se sabedes nouas de meu amigo!

                                                           ay Deus, e hu é?

 

                                               Ay flores, ai flores do uerde ramo,

                                               se sabedes novas de meu amado!

                                                           ay Deus, e hu é?

 

                                               Se sabedes nouas de meu amigo,

                                               aquel que mentiu do que pôs comigo!

                                                           ay Deus, e hu é!

 

 

A formiguinha ruiva

 

          Annibal Augusto Gama

ANNBAL~1

 

 

 

 

 

 

 

Debruçado no parapeito da janela, ele vê a formiguinha ruiva, que se esconde numa fresta da madeira. A formiguinha disfarçada, que espera a mosca pousar ali, para a agarrar.

Teve um amigo e colega que não deixava varrer, do encontro de duas paredes, na sua sala, uma teia de aranha, com a sua aranha pernalta, lá em cima. Ele punha na vitrola o disco de Mozart, e começada a melodia, a aranha descia por um fio e permanecia escutando, embevecida, a música. Mas, quando tocava Beethoven, a aranha, mais que depressa, subia pelo fio e ficava lá em cima. Não apreciava Beethoven.

 

                                   Desta janela, exígua fresta

                                   Elegeu por morada uma formiga.

                                   Ao peitoril, como por praça antiga,

                                   Sai a passeio, a ver o sol, em festa.

 

                                   Foge ao menor rumor, lépida e lesta,

                                   (Lembrando-me, permita-me que t´o diga,

                                   A almazinha que tens, querida amiga,

                                   E que a todos se esquiva por modesta).

 

                                   Se é surpreendida acaso e o tempo é estreito

                                   Para tornar, fugindo, à frincha escura,

                                   Súbito estaca… nem um passo além!

 

                                   E ruiva como a luz, e de mistura

                                   Com a luz, na luz se some de tal jeito,

                                   Que estando à vista, não a vê míngüem.

 

O poeta Alberto de Oliveira, com o seu bigode torcido em ponta, fala, em outro poema, em “cheiro de espádua”. Mas era a tua espádua, Aninha, que cheirava bem.

Agora, ele está, menino, agachado sobre o rego, mo quintal, construindo com pauzinhos, uma ponte, para as formigas passarem de um lado para outro da torrentezinha.

— Que está você fazendo aí, menino?

— Estou fazendo uma ponte, para as formigas atravessarem o reguinho 

— Que menino mais bobo.

Bobas ou espertas eram também as formigas, que se recusavam atravessar sobre a sua ponte. Não acreditavam na sua engenharia.

Mais tarde, muito mais tarde, ele veria a ponte de ferro, que Euclides da Cunha construíra sobre o Rio Pardo. E, para cá, a casinhola de sarrafos, onde ele escreveu algumas páginas de Os Sertões. Mais duro foi atravessar a ponte sobre o Rio Grande, da fazenda à Estação de Jaguara. O pai ia à frente e recomendava: “Não olhe para baixo”. Lá embaixo, um abismo, as águas ferviam, E se viesse o trem, pela ponte? Não vinha, não era hora dele.

 E ele chegou afinal à Estação de Jaguara, trêmulo, as pernas bambas.

 Mas tinham ainda de voltar, santo Deus!

Hoje ele percebe que todas as pontes ruíram atrás dele.

 

 formiguinha

 

 

 

Os urubus, as aves e outros pássaros

 

             Annibal Augusto Gama

ANNBAL~1

 

 

 

 

 

 

 

Os urubus, no chão, com um arranque, batiam as asas ― flap! flap! flap! ― subiam, subiam, e ficavam fazendo curvas lá no alto, no céu azul. Quando chovia, e depois que as águas deixavam de cair, vinham pousar na cumeeira do telhado, e ali permaneciam, hieráticos, de asas abertas, para as secar. Se caminhavam no chão do quintal, pareciam desajeitados. Não eram muito estimados, aves pretas que viviam de carniça. Mas tudo tem a sua utilidade neste mundo, até os carrapatos.

Havia, porém, as aves e os pássaros gentis, o beija-flor, as andorinhas, os sanhaços, os canarinhos da terra, a rolinha fogo-apagou, o tico-tico, o joão-de-barro, as pombinhas, a viuvinha, os bem-te-vis, os periquitos, os pássaros-pretos, a tesourinha, tantos, tantos, inumeráveis. Ao longe, no dia abrasador, a araponga malhava no ferro. Nos descampados, as seriemas, nos ervaçais as codornas. A coruja, coitada da coruja!, não era benvista, embora sábia, porque se lhe atribuía o mau agouro, Rasgava mortalha, ao redor das casas onde havia um moribundo. Na fazenda, acharam uma grande coruja, ferida na asa. Trouxeram-na para casa, e deixaram-na empoleirada num quarto de despejo, onde ele passou a tratá-la, trazendo-lhe regularmente pedaços de carne e água. Agarrada no pau da cabeceira de uma cama, ela estagiou ali, alguns dias, e já reconhecia o rapazinho. Tic-tic-tic, fazia-lhe com o bico curvo. Até que se curou, e ele a levou para o parapeito da janela aberta. Ia anoitecer, e a corujona sondou, sondou os arredores . Em seguida alçou vôo. Mas ainda voltou para se despedir dele e, uma vez ou outra, ali aparecia, para o saudar.

Era na época em que, em todas as antologias, havia o soneto de Raimundo Correa:

 

                                   Vai-se e primeira pomba despertada…

                                   Vai-se outra mais… mais outra… enfim dezenas

                                   De pombas vão-se dos pombais, apenas

                                   Raia sanguínea e fresca a madrugada…

                                   […]

                                  

                                   Também dos corações onde abotoavam,

                                   Os sonhos, um por um, céleres, voam,

                                   Como voam as pombas dos pombais;

 

                                   No azul da adolescência as asas soltam,

                                   Fogem… Mas aos pombais as pombas voltam,

                                   E eles aos corações não voltam mais…

 

O Irmão Reitor, marista, do ginásio, professor de português, insistia, em cada nova classe de alunos, em declamar o soneto de Raimundo Correa. Ficava de pé, atrás da sua mesa, rubicundo, e agitava as mãos e os braços  enfiados na batina negra. As pombas voavam, Ele, porém, parecia antes um urubu.

Em muitas casas, nos seus poleiros, havia papagaios.  Desbocados alguns, berrando palavrões. Outros rezavam o padre-nosso. Bebiam café.

 

                                                Purrupaco, tataco,

                                               A mulher do macaco,

                                               Ela pinta, ela borda,

                                               Ela toma tabaco,

                                               Torrado num caco…

 

Você, hoje, parece que viu passarinho verde…

E há aquela estória de Millôr Fernandes, do cuco do relógio que, na hora de bater as horas, saia da sua casinhola e perguntava: “Ei, velhinho, que horas são?”

Todas as gaiolas estão com a portinhola aberta.

Os passarinhos fugiram.

 

 

“Passaredo” (Francis Hime / Chico Buarque), MPB4

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=8ZbfbyLoCCE[/youtube]

 

 

O julgamento celestial

 

Nestes tempos tão bicudos

por que passa a Madre Igreja

(dizem que em decadência),

Papa indo, Papa vindo,

não custa se precatar,

ouvindo a voz da experiência…

 

 

              Annibal Augusto Gama

ANNBAL~1 

 

 

 

 

 

 

Suponho que no céu, como aqui, há várias instâncias, desde um juiz singular até os tribunais coletivos e o Supremo Tribunal Celeste. Desta maneira, o pecador pode recorrer de um juiz para outro, e ir até o Supremo Tribunal Celeste, quando a pena ou a absolvição serão definitivas. Enquanto isso, ele gozará de liberdade, e poderá conviver com os santos. Advogados e chicanistas é que não devem faltar por lá, e é de se crer que também haja algum compadrismo, e quem vá cochichar na orelha dos juízes. As questões de ordem igualmente serão muitas, e suspenderão o julgamento de mérito. As nulidades processuais, ilegitimidade das partes, e outras, inépcia da inicial, também hão de valer.  Afinal os julgamentos protelar-se-ão, pois não deixará de existir algum juiz que peça vista dos autos, e fique com eles por séculos e séculos, porque tem a eternidade a seu favor. A prescrição também valerá, bem como ação revisional. Por último, cansados, os juízes baterão o martelo. A suspensão condicional da pena será cumprida no purgatório. Assim, dificilmente o pecador será condenado definitivamente, com trânsito em julgado da sentença, e será enviado para o inferno. O Promotor de Justiça há de ser, naturalmente, o Diabo. Os advogados, os nossos santos de devoção. E há santos de grande influência e prestígio, sempre ouvidos com acatamento, como Nossa Senhora, São Francisco de Assis, e Santo Antônio, que conseguiu tirar o pai da forca.

Eu, por mim, já outorguei mandato, com plenos poderes, a Nossa Senhora Aparecida e a Santo Antônio. Se for o caso, ela ou ele impetrarão habeas-corpus, para mim. E hão de obtê-lo. 

Cada dia e cada noite, levo novos subsídios para os meus defensores, através de orações. Tenho também alguns álibis: não estava ali, nem lá, quando o fato aconteceu. 

Há ainda os pecados veniais, e de bagatelas, que passam, sem julgamento. E a prisão domiciliar, por força, existirá.

Enquanto isso, a citação pode ser evitada, achando-se o réu em lugar incerto e não sabido. Por isso mesmo, não dou o meu endereço a ninguém.

Abuso processual? Não, senhor, tenho o direito de me defender.

Creio também que lá se fazem reformas processuais e do Código Penal, e alguns crimes de outrora foram abolidos. Nem é admissível a “reformatio in pejus”. 

Por isso, estou tranquilo, e acho que não irei para o inferno. 

Vocês, meus amigos e eventuais leitores, devem fazer como eu: contratem logo os seus advogados 

Há ainda o juiz arbitral, que são os padres, nos seus confessionários.

Só vai para o inferno quem quer, e por pecados cabeludos.

Ainda assim, acho que as sentenças celestes jamais transitam em julgado. Adão e Eva estiveram lá por bons tempos, e Cristo não foi buscá-los?

O Diabo é um mau causídico, e acabará por fechar a sua banca.

 

 

Michelangelo (O Juízo Final, Capela Sistina)

 “Juízo Final”, Michelangelo, Capela Sistina

 

 

Ledo engano

 

 

 

Lêdo Ivo 

 

                                   O poeta Lêdo Ivo

                                   (menos lido que devido)

                                   fez a viagem só de ida

                                   lá em terras da Espanha

                                   neste triste fim de ano.

                                   Assim é a lida da vida:

                                   sempre nos apanha em ledo engano!

 

 

 

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=mcCsoscEz8Y[/youtube]

 

 

 

                                               A passagem

 

 

                                                                                                                   Lêdo Ivo

 

 

                                   Que me deixem passar – eis o que peço

                                   diante da porta ou diante do caminho.

                                   E que ninguém me siga na passagem.

                                   Não tenho companheiros de viagem

                                   nem quero que ninguém fique ao meu lado.

                                   Para passar,exijo estar sozinho,

                                   somente de mim mesmo acompanhado.

                                   Mas caso me proíbam de passar

                                   por seu eu diferente ou indesejado

                                   mesmo assim eu passarei.

                                   Inventarei a porta e o caminho

                                    passarei sozinho.

 

 

 

Ledor

 

 

                                               LIDA

 

 

 Brenno Augusto Spinelli Martins

 

 

                                   O que lia Camões?

                                   E Homero, o que lia?

                                   Então deixem que eu destile

                                   essa saliva de poesia

                                   sem antes nada ter lido.

 

                                   É que eu lido com um desfile

                                   de ideias, almas e conflitos

                                   sem ter lido o que antes fora escrito.

                                   Circunscrito na emergência,

                                   abdico da influência.

 

                                   Respeito os vários estilos,

                                   até porque um não tenho…

                                   Ora rimo, ora transgrido

                                   as mais elementares regras.

                                   Por isso tenho sofrido

 

                                   os mais severos castigos

                                   por quase nada ter lido.

                                   E lido com tal preconceito,

                                   de ser tratado de louco,

                                   só por ter lido tão pouco.

 

 

 

A cada dia confirmo o que já pensava quando caí nesta vida de blogueiro: um blog é feito muito mais por aqueles que o acessam, leem e comentam do que pelo seu mantenedor.

Ontem, ao comentar o post de Selma, Brenno saiu-se com o prodigioso poema acima transcrito.

Poeta fingidor e licença poética à parte ― já que o conheço há muito e sei bem que não é de ler assim tão pouco como diz ― os seus versos e a sua verve remetem a uma questão absolutamente apaixonante, que é a importância da leitura e dos livros na nossa vida.

Já se definiu o hábito ou a mania leitura como “vício impune” (será mesmo impune?). Mas, afinal, por que lemos e, sobretudo, por que insistimos em acumular livros, arrumá-los em estantes, especialmente nestes tempos descartáveis, de virtualidade e internet? Os livros, como objeto que conhecemos, estarão mesmo fadados a desaparecer?

As perguntas são muitas, e não serei eu, pobre de mim, a dar as respostas.

Em diversos ensaios de “Os Diamantes de Ophir” (Funpec Editora), Annibal Augusto Gama reflete agudamente sobre leitura, leitores e  livros:

 

“Se me perguntam o que é leitura, eu respondo que leitura é um esquecimento. Fechada a última página de um livro, já voaram as pombas dos pombais, que pode ser que voltem, mas os sonhos não voltam nunca mais. O sonho do leitor dura algumas horas, ou alguns dias, na convivência com outro sonho, o das personagens de ficção que andam errantes a se indagar de si mesmas.”

[…]

De outro modo, o verdadeiro livro envelhece, reverdece e torna frutificar. Cada geração lê o mesmo livro de maneira diferente. E todas as interpretações que se fazem sobre ele se completam, para depois outra vez o descobrirem. Os clássicos são clássicos porque não são clássicos. Porque são desvios de uma norma que se petrificou, e criam uma nova norma.”

(Da leitura)

  

“Fora de qualquer contestação, Os Lusíadas não são obra apenas de um grande poeta. São obra de um erudito, de um historiador, que tinha profundo conhecimento geográfico, estudara a cosmovisão ptolomaica, a astronomia, a medicina, a náutica, e outras ciências, vasculhara com mão noturna e diurna a mitologia, lera Virgílio, Ovídio, e os clássicos da literatura latina na própria língua, e Homero, Platão e Aristóteles em traduções, estudara os fenômenos atmosféricos, compulsara assiduamente Petrarca, impregnara-se do dolce stilo nuovo, abeberara-se em todos os escritores portugueses, enfim, que tinha um saber enciclopédico, abrangendo tudo o que se sabia na época.

Para tanto, no mínimo, seria preciso que Camões possuísse uma preciosa livralhada, uma biblioteca.

Como ajustar-se, porém, esta livraria, de difícil transporte, com a sua pobreza franciscana, com os seus desterros e prisões, com as suas viagens, abrigando-se em miseráveis choupanas onde foi largado como soldado raso? Indo nas naus para terras de África e da Índia, sem ter de seu mais do que uma muda de roupa e a espada, espremido nas enxergas dos tripulantes, como levaria consigo tantos autores e livros?

Ninguém o explica, nada o explica.”

(“A biblioteca de Camões”)

 

(Veja só que curioso: sem ter lido o ensaio, Brenno abre o poema indagando sobre o que lia Camões…)

 

“Pois bem: um livro são muitos livros. No seu texto assinado e autenticado pelo autor, podem ser descobertos textos de outros autores, ideias, metáforas, personagens, intrigas, paisagens, que vieram de séculos atrás, e que se achavam noutros livros.”

[…]

“Pode-se dizer até que um livro novo é sempre obra de uma cooperação universal, de que participam autores da mais remota antiguidade. Houve mesmo época em que esses autores muitos antigos, os clássicos greco-latinos, serviam de modelos indispensáveis para outros que o sucederam. Assim, Homero, com a Ilíada e a Odisseia, para Virgílio com a Eneida, e este e aquele para Camões, com Os Lusíadas, e assim por diante. Desta maneira, os autores são sócios ou irmãos de uma confraria em que estão reunidos todos os prosadores, todos os poetas.

Aquele que pretende ser absolutamente original e único, ao escrever um livro, ou é um tolo, ou um pretensioso, um ignorante. Para começo de conversa, ele veio ao mundo da mãe que o gerou, e com a ajuda de outro. Imediatamente, aqui encontrou amparo e ensinamentos de uma sociedade preexistente. Nunca esteve absolutamente só, mas se viu cercado de gente, e tudo, ou quase tudo lhe foi transmitido. Esse relacionamento, esse jogo de influências, são inarredáveis.”

(O livro, um palimpsesto).

 

Nessa mesma linha, Pierre Bayard, psicanalista e professor de literatura francesa da Universidade Paris VIII, no seu delicioso “Como falar dos livros que não lemos?” (Editora Objetiva), fingindo pilheriar, escrever mais um dos abomináveis livros de autoajuda ou de como se dar bem enganando os outros,  elabora um refinado ensaio sobre a cultura literária, formada tanto pelos livros lidos, quanto pelos não lidos, mas que de algum modo se conhece e assimila. Pois todo leitor, segundo Bayard, carrega consigo uma biblioteca, um repertório que lhe permite ter uma opinião legítima sobre um livro, mesmo que não o tenha lido. Ainda porque, as obras de fato lidas, afora aquilo que fica esquecido, com o passar do tempo vão se embaralhando e confundindo de tal modo que, ao discorrer sobre elas, falamos da lembrança imperfeita e distorcida que guardamos.

Assim, Bayard estabelece diversas categorias, como livro folheado, livro de que ouvi falar, livro esquecido e livro desconhecido, bem como qualifica os livros conforme sua relevância cultural.

 

 

 

 

 

 

 

Ladra com brinco de pérola

 

 

 

 

Naquela semana o já veterano promotor de justiça era o encarregado de atender o público (não existia ainda a Defensoria Pública, e os promotores cobriam grande parte da demanda), que abarrotava a salinha de espera e transbordava pelo corredor afora.

Ouvia (sobretudo queriam ser ouvidos), esclarecia, aconselhava, orientava, conciliava, expedia intimações, pedia aos cartórios os autos do processo para explicar o que estava acontecendo, e por aí ia…

Passava das 19 horas quando último cliente do dia entrou.

― Boa tarde.

― Boa tarde. Sente-se, por favor.

Acomodou-se numa das poltronas, bem na pontinha, as pernas juntas, as mãos entrelaçadas sobre o colo.

― Pois não. No que posso ajudar o senhor?

― Doutor, o seguinte é esse. Namorei com a Lucinda. Ela diz que não quer nada comigo, mas ficou com o meu tesão. Quero que ela devolva o meu tesão, doutor! 

Contendo o riso, pediu para que repetisse a história. Repetiu igualzinho.

Fazer o quê?

A tarde caía. Estava exausto. Resolveu se divertir um pouco com aquilo.

― Um instantinho só, que vou chamar um especialista para o seu caso.

Foi até o gabinete do outro promotor veterano, amigo desde o concurso de ingresso na carreira, que sempre fora um grande gozador e vivia aprontando com os outros promotores, juízes, advogados, funcionários. Ele já estava de saída, mas o levou para ouvir o relato.

― Por favor, o senhor pode explicar de novo o seu problema aqui para o meu colega?

Contou tudinho do mesmo jeito.

― Mas isso é muito grave ― disse logo o especialista. Apropriação indébita de tesão! Vamos mandar uma intimação para a moça. O senhor volta no dia marcado para resolvermos tudo.

Depois que o cliente saiu, o expert pontificou:

― Essa Lucinda deve ser alguma piranha. Precisamos ver como ela é. Coitado do rapaz…

No dia e hora aprazados, Lucinda, linda e na flor dos seus 16 anos, recatada tal a moça com brinco de pérola, compareceu acompanhada dos pais cheios de zelo.

Ficaram apenas com os três no gabinete. Arrependidos e envergonhados como dois moleques apanhados com a boca na botija, buscaram uma saída desesperada para o imbróglio.

― Vocês conhecem o rapaz que está ali na sala de espera? Ele foi namorado da menina?

O pai tomou a palavra:

― Conhecemos sim, doutor. É o Armandinho, mora na nossa quadra, filho do Seu Armando da farmácia. Ele é meio gardenal. Vive amolando a Lucinda, mas eles nunca namoraram nem nada.

― Deus me livre!, reforçou Lucinda.

― Pois é. Ele esteve aqui contando uma história estranha e falando da Lucinda. Percebemos que deve ter algum problema e ficamos preocupados com o que possa fazer. Por isso chamamos vocês aqui, para alertar. Tenham cuidado. Se ele continuar a incomodar ou fizer alguma ameaça, voltem aqui ou chamem a Polícia.

― Ele não faz nada não, doutor. É um pobre diabo. Mas vamos ficar de olho. Muito obrigado, responde o pai.

Dispensaram a família penhorada e só depois de uns 20 minutos mandaram entrar o Armandinho.

― Tudo resolvido, Seu Armando. Falamos com a Lucinda, o pai e a mãe dela. Eles já foram embora e deixaram o seu tesão na sua casa. Quando o senhor voltar, vai encontrar ele lá. Mas preste atenção: não se aproxime nunca mais da Lucinda, porque se o seu tesão ficar com ela de novo vai dar usucapião,  ela pode ficar com ele para sempre e não poderemos fazer mais nada… Entendeu bem?

― Entendi, doutor. Pode deixar. Muito obrigado, doutor.

Graças aos céus, nenhum dos interessados jamais voltou para reclamar de algo.

 

 

Olhos de ver

 

 

 

            Primeiro a obrigação, depois a devoção. Cumprida a primeira, resolvo aproveitar o resto do dia na Mostra dos Impressionistas, no belíssimo prédio do Centro Cultural Banco do Brasil, bem no miolinho da velha cidade, ou o que restou dela.

            Após a chuva da noite anterior, São Paulo amanheceu cinza, com um vento cortante e um frio de rachar. Eu apenas com um paletó de lã fina. Apanho emprestado um cachecol da Júlia, e lá me vou, um estrangeiro nessa São Paulo parisiense. 

            Defronte do Centro Cultural, a fila dá voltas no quarteirão. De duas a três horas de espera para entrar, me dizem.

            Estou prestes a desistir. Entro pela porta ao lado na cafeteria do saguão e avisto um pequeno cartaz com uma seta indicativa de “fila preferencial” para idosos e pessoas com deficiência, com direito a um acompanhante. Na fila, apenas cinco senhorinhas, muito bem vestidas, joviais, rindo e conversando animadamente. Meio cabreiro, num ímpeto de ousadia e despudor, decido invocar pela primeira vez os meus direitos de idoso (é a mãe!) e entro na fila, atrás das garotas. Por via das dúvidas, saco minha carteira de identidade de advogado sênior e fico com ela na mão.

            Em menos de cinco minutos as moçoilas são convidadas a entrar, recebendo um pequeno carimbo no dorso da mão. Avanço junto e o porteiro, sem bem me olhar ou esperar pela resposta, enquanto pespega o carimbo na minha mão esquerda, diz: “O senhor está com elas?” 

            Alvíssaras! (Que consolo…)

            Fico mais de três horas percorrendo os andares da exposição, de início próximo das minhas companheiras, mas logo elas me ganham a dianteira e somem, serelepes. 

            A exposição está muito bem montada, com boas informações sobre a época, os pintores e os quadros, um ótimo audiovisual de pouco mais de cinco minutos, narrado pelo grande Antônio Abujamra. 

            Vários quadros de Monet (em diferentes fases, com predominância da inicial), Renoir, Cézanne, Pissarro, Sisley, Manet (O tocador de pífaro se destaca), Gauguin, Degas e suas bailarinas, dois ou três de Toulouse-Lautrec, apenas um Van Gogh (“O Salão de Dança em Arles”). Há diversos outros, são mais de oitenta obras do extraordinário acervo do Museu D’Orsay! 

            Ao sair, enquanto tomo um café, com os olhos transbordantes dos encantos vistos, ocorre-me que se minha alma é barroca, meus olhos são impressionistas. Meus sonhos, muita vez, são surrealistas, e meu coração, quiçá, seja romântico.

            O frio, a tarde caindo, as sensações borbulhando, fizeram-me recordar a exposição de Monet a que fui muitos anos atrás, no MASP. Após a visita, já de noite, enquanto caminhava pela Paulista, me veio inteiro à cabeça, em borbotões , este poeminha de circunstância, que finalizei e escrevi logo em seguida no guardanapo de um bar próximo, onde entrei para tomar um uísque.

 

 

  MONET no MASP

 

 

  A meu pai, companheiro de viagem

 

 

                                                                   Rever Monet

                                                                   nunca é coisa vã

                                                                   mesmo para quem

                                                                   já esteve no Marmottan

                                                                   cujo acervo — zasp —

                                                                   cruzou o Atlântico

                                                                   e se alojou no nosso Masp.

 

                                                                   Ninfeias e glicínias

                                                                   A ponte japonesa

                                                                   A aleia das roseiras

                                                                   O salgueiro chorão

                                                                   O jardim em Giverny

                                                                   estão logo ali

                                                                   quase ao alcance da mão

                                                                   e mais outros quadros

                                                                   de amigos do artista

                                                                   que também me encantam a vista.

 

                                                                   São Paulo amanheceu

                                                                   com ar europeu 

                                                                   invernal, chuvosa, vestida de gris,

                                                                   mas nem mesmo

                                                                   a capa de gabardine

                                                                   me redime

                                                                   da saudade de Paris.

 

                                                                   Sombra fugidia

                                                                   caminho incauto

                                                                   pela noite vazia

                                                                   com os olhos replenos

                                                                   de tanta cor e luz

                                                                   e num bar de esquina

                                                                   antes que se apague

                                                                   a vaga estrela fria

                                                                   brindo ao companheiro de viagem

                                                                   que pela vida me guia

                                                                   muito além das paragens

                                                                   de Oropa, França e Bahia.

 

 

 

 

 Minha mão de idoso (segundo o carimbo afirma)

 

 

 

Meus três pais

 

 

  

          Tive a ventura de ter três pais.

          Cada um deles me descerrou partes da alma e do mundo que se juntaram no homem que sou.

          O segundo deles (antes já havia perdido o inesquecível Dr. Brenno Venâncio Martins Sobrinho) partiu ontem, para pescar seus peixinhos com São Pedro (“Entra, Serraglia, você não precisa pedir licença…”), e contar suas histórias deliciosas aos anjos e arcanjos.

          Como se não bastassem seus sete filhos maravilhosos, que ele tanto adorava, Henrique Serraglia resolveu me perfilhar, dizia a todos que eu era o seu “filho espiritual”, seu herdeiro e único sucessor como promotor de justiça. Talvez o maior elogio que recebi em toda minha carreira foi ouvi-lo dizer (e ele não se cansava de repetir isso a todo mundo) que de certa feita ao compulsar os autos de um processo, leu a longa manifestação do Ministério Público e pensou com seus botões: “Uai, não me lembro de quando escrevi isso…”. Só depois verificou que quem assinava ao final era eu, que o havia substituído na promotoria durante o período de férias.

          Muito obrigado ao amigo José Márcio Castro Alves, que fez o lindo vídeo há alguns anos e agora me enviou para postar aqui.

          Doutor Annibal Augusto Gama: trate de se cuidar direito, e não me faça nenhuma falseta que meu coração anda nas trevas e não vai conseguir vencê-las sem a sua luz.

 

 

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=Kli0LZmGwz0] 

 

 

 

A tréplica

 

 

 

Meu querido e sempre lembrado pai

 

         Depois de tanto tempo sem aparecer por aqui, ao comentar  — quase numa tréplica —  o que Bell e eu escrevemos sobre a nossa “Olympia”, você disse que seríamos muito novos para lembrar, para escrever nossas memórias, não sem indagar em seguida qual a idade para lembrar-se, e ainda nos brindar no final com mais um belíssimo poema.

          Novo, eu? Só mesmo na lembrança do pai que ainda vê o menino que fui e busco não esquecer dentro de mim.

          Você, talvez, seja a testemunha maior de que sempre fui um memorioso. Tenho lembranças da minha mais longínqua infância que muita vez me assustam de tão vívidas.

          Mas as nossas lembranças, na realidade, não são nossas, ou não serão apenas nossas. São a soma das nossas lembranças e daqueles com quem convivemos, até mesmo do que apenas ouvimos dizer. Por isso me parece exemplar o título,  “Minhas memórias dos outros”, do livro de Rodrigo Octavio, que ainda muito jovem participou da fundação da Academia Brasileira de Letras, e mais tarde pugnou com Ruy Barbosa (e o venceu) na célebre “Questão Lambary” .

          As suas memórias relatadas no comentário são, portanto, minhas também: a máquina de escrever “Alpina” (mais nova do que a “Olympia” que, com seu incentivo, arrematei num leilão no fórum quando trabalhava no cartório, lembra-se?); as diatribes e os pontos e vírgulas do Coronel Asdrúbal; os cigarros de palha que ele laboriosamente fazia; as cópias de papel carbono (ainda tenho algumas folhas); as máquinas de escrever elétricas, os primeiros computadores…

          Há algum tempo comecei a escrever uma série de pequenas histórias sobre homens que se dedicavam a ofícios que já não existem ou estão prestes a se extinguir, e um deles era exatamente um homem que consertava máquinas de escrever.

          Reproduzo abaixo o texto (que já foi postado neste blog) em homenagem a essas tantas memórias, nossas e dos outros.

 

 

 O homem que consertava máquinas de escrever

(da série “Homens que…”)

 

    

               Os amigos adoravam provocá-lo. Ele, que não tinha nada de bobo, bem sabia disso, mas não fugia do confronto e até sentia prazer no enfrentamento.

               Nas ocasiões em que a conversa arrefecia, porque já tinham falado de quase tudo, política, mulheres, futebol, velhas histórias sempre repetidas, mas nunca iguais, e até das últimas fofocas, alguém lançava o desafio:

               ― Qual foi o maior invento de todos os tempos?

               E cada um por vez ia dando sua opinião, que variava ao sabor da imaginação do momento.

               ― O balão, que levou ao avião!

               ― A eletricidade!

               ― Fico entre a roda e a alavanca, sem as quais ainda estaríamos vivendo nas cavernas.

               ― A televisão!

               ― A fotografia!

               ― A mulher!

               Deixavam ele sempre por último, porque já sabiam o que diria:

               — O maior invento de todos os tempos foi a prensa de imprimir de Gutenberg, no século XV, que revolucionou o mundo e universalizou o conhecimento, com impressão em escala de livros e jornais, antes restrita à produção dos monges copistas e só acessível por alguns poucos padres e fidalgos. Embora o primeiro livro imprimido por Gutenberg tenha sido a Bíblia, a nova arte provocou temores de toda ordem, pois, para muitos, o livro saído de um prelo, e não da tinta de um monge escriba, iria se tornar uma força subversiva, capaz de abalar a fé e de reduzir a autoridade da Igreja.

               E acrescentava:

               ― Mas depois da prensa, a maior invenção, sem dúvida, foi a máquina de escrever, que por sua vez democratizou o tipógrafo de Gutenberg, permitindo que empresas e indivíduos imprimissem seus escritos diretamente e a baixo custo. Além disso, contribuiu para a emancipação feminina, proporcionando às mulheres um mercado de trabalho que não tinham antes, ao demonstrarem que, para elas, datilografar era tão fácil quanto costurar. E o que dizer da relação entre os escritores e suas máquinas, que se tornaram companheiros e cúmplices?

               E daí não parava mais de discorrer sobre as maravilhas das máquinas de escrever, de que era profundo conhecedor e verdadeiro mestre em conservá-las e consertá-las.

               Embora seja difícil precisar quando a máquina de escrever teria sido inventada e começou a ser fabricada, sabia grandes histórias a respeito. Duas delas o fascinavam especialmente, e não se cansava de contá-las. A do nobre italiano Pellegrino Turri, que por volta de 1808 fabricou um artefato para que uma amiga, cega, pudesse se corresponder com ele. A máquina já não existe, mas algumas das cartas, sim. E a máquina brasileira inventada pelo padre Francisco Azevedo, apresentada na feira Internacional de Recife em 1861, gerando grande interesse, mas que nunca chegou a ser fabricada em série e cujo protótipo foi destruído.

               ― Aliás ― dizia ele ― é muito estranho que os americanos tenham abandonado de uma hora para outra os modelos em que vinham trabalhando há tanto tempo, justamente na época em que retornavam à América os emigrados de Recife. E as novas máquinas que passaram a desenvolver tinham grande semelhança com o projeto do padre Azevedo, até mesmo nos seus defeitos.

               Cinco séculos depois do invento da prensa por Gutenberg, Marshall McLuhan, tido com o arauto dos novos tempos, decretou o fim do que denominou de Galáxia de Gutenberg, sustentando que o Cosmo da Impressão teria pouquíssima chance de sobreviver numa aldeia global que então se constituía, movida toda ela pela força das imagens. Uma nova galáxia, a audiovisual, então em fase de assombrosa expansão, em breve iria superá-la. Com o advento da internet e dos e-books novas previsões pululam a cada minuto acerca do fim do livro impresso, mas ele tem resistido bravamente.

               Seu interesse e conhecimento remontavam à meninice, desde o seu primeiro emprego como ajudante de tipógrafo, quando se apaixonara irremediavelmente pela arte da impressão, os modelos e detalhes dos caracteres, a composição, o acabamento.

               Já adulto, resolveu se estabelecer por conta própria, e à falta de capital para uma tipografia, montou uma modesta loja para vender máquinas de escrever e consertá-las. A sua expertise e dedicação levaram-no a progredir junto com a cidade e chegou a enricar, tornando-se proprietário da maior casa comercial do ramo na região.

               Após o surgimento das máquinas elétricas ainda prosseguiu firme no negócio, embora contrariado, pois se matinha fiel os velhos modelos mecânicos, para cuja utilização bastava uma superfície plana, sem tomada por perto, nem risco de interrupção pela queda da energia elétrica. Além disso, com um pouco de manutenção, limpeza e lubrificação, duravam a vida toda.

               Todavia, com a era da informática e dos microcomputadores deflagrada nos anos 1980, foi perdendo espaço até que decidiu fechar a loja. Os filhos e amigos insistiram com ele para se adaptar ao mercado, passar a vender computadores e a parafernália que os acompanha, mas ele se recusou terminantemente.

               Levou para casa diversas máquinas de escrever que colecionava e tinha na conta de verdadeiros ícones, construiu um barracão no amplo quintal para acomodá-las e lhe servir como oficina e lazer. Muito raramente era chamado, e acorria com grande deleite, a consertar ou fazer a manutenção de algumas máquinas de escrever que sobreviviam nas mãos de outros poucos apaixonados como ele.

               A exemplo das ruas da Recife antiga do menino Bandeira, como eram lindos os nomes das velhas máquinas de escrever: Remington, Underwood, Olivetti, Facit, Olympia, Royal, Everest, Alpina, Erika! Os microcomputadores de hoje nem nome têm, mas siglas: IBM, HP, Mac, Dell…

               Secretamente, alimentava grandes esperanças no anunciado bug do milênio, na transição de 1999 para 2000, o que haveria de confirmar a vantagem das velhas máquinas de escrever.

               Mas o tal bug foi como a passagem do Cometa Halley em 1986, que ele também esperou com grande ansiedade: ninguém sabe, ninguém viu.

               Mesmo assim, a vida lhe reservava um momento de glória inexcedível.

               Já em pleno século XXI, as diabruras climáticas, fruto das ações diabólicas do homem contra a natureza, provocaram trombas-d’água com vendavais devastadores durante uma semana sem parar, que deixaram a cidade, situada num vale ao sopé de uma cadeia de morros, totalmente ilhada e sem energia elétrica, em decorrência da queda de linhas de transmissão. A periferia e a zona rural foram as mais afetadas pela enchente, que levou de roldão as pontes dos ribeirões do Taboão e do Piripau, que davam acesso ao município pelos dois lados principais, dificultando enormemente os reparos para restabelecimento da energia.

               Durante o dia, apesar da falta de eletricidade e da chuva fina que persistia, o cotidiano ainda se mantinha razoavelmente, mas à noite os lampiões a gás, velas e lanternas voltaram a reinar. E ele gostava disso, lembrando-se da cidade penumbrosa da sua infância.

               Depois de uma semana às escuras, e sem perspectiva de quando os problemas seriam sanados, foi chamado para uma reunião no fórum, com o juiz de direito, a promotora de justiça, o prefeito, o delegado, o tenente que comandava o destacamento da Polícia Militar, o padre, o provedor da Santa Casa e outras pessoas gradas da comunidade.

               Estranhou haver sido convocado. Mas logo foi posto a par e se encheu de orgulho e satisfação: pediram-lhe que cedesse as suas velhas máquinas de escrever, conservadas impecáveis, para que fossem utilizadas pelas repartições públicas para manutenção dos serviços básicos e de urgência.

               Claro que concordou, e já na manhã seguinte distribuiu as máquinas, instruiu como utilizá-las e passou a percorrer diariamente os locais para verificar se tudo estava em ordem. Como lhe soavam bem os estalidos dos teclados e a sineta que assinalava o final do curso do carro, e ao mesmo tempo se divertia com as agruras dos atuais digitadores para se transmudarem em verdadeiros datilógrafos, valendo-se da força necessária para premer as teclas!

               Transcorreu mais de um mês até que tudo se normalizasse. Pouco depois ele foi homenageado pelo prefeito e pela Câmara de vereadores, que lhe outorgou o título de cidadão emérito. O juiz fez questão de fazer uso da palavra para também agradecê-lo e cumprimentá-lo em nome dos comarcãos e do Poder Judiciário. O prefeito, no seu discurso, prometeu que encaminharia um projeto à Câmara para criar na cidade um museu das suas máquinas de escrever, do qual ele seria o responsável (o que acabou não fazendo).

               Durante a cerimônia, sua família e seus amigos diletos assentaram-se na primeira fila e o aplaudiram entusiasticamente.

               O melhor de tudo, porém, veio depois, quando retomaram as conversas desocupadas na barbearia. Foi ele então quem provocou a questão recorrente:

               ― Qual foi o maior invento de todos os tempos?

               — A prensa de Gutenberg, responderam-lhe os outros, quase em uníssono.