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Na galeria

 

       Selma Barcellos

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O minúsculo salão para à entrada daqueles jovens. Altos, bonitos, atléticos, elegantes em suas bermudas cáqui, mocassins tipo italiano, um de camiseta ajustada ao corpo, o outro de social rosa-claro com mangas dobradas. Modelos, certamente.

De um lado, as manicures. Poucos metros à frente, as cabeleireiras. Apenas um cortaria o cabelo. O outro acomoda-se na cadeira ao lado, girando-a para melhor observar o companheiro. Conversam baixo, não olham para os lados, sequer pelo espelho. Discretos. Raros, portanto.

De vez em quando o que aguarda se levanta, circunda a cadeira e orienta a profissional quanto ao desenho da nuca do amigo. De quebra, passa a mão para tirar o excesso de pelos caídos.

Encerrados os trabalhos, uma única fala (entre)ouvida: “Deixa que eu pago. Não devia, hein! Você me fez passar a noite em claro com o choro do baby” .

Beijam carinhosamente a cabeleireira, dão um boa-tarde formal a todas nós, e se vão. Pela parede envidraçada que descortina a galeria, ainda os vemos, mão no ombro, brincadeiras, risos.

– Adoro esses irmãos… Corto o cabelo deles desde pequenos. Sempre educados e unidos assim… – diz a cabeleireira sacudindo a capa.

Corta. (barba, cabelo, bigode e, se conseguirmos, as conclusões precipitadas, os pré-conceitos)

 

FOFOCA-3-BRUCE-GILDEN

 (by Bruce Gilden)

 

 

Os “The Friends”

 

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Reúnem-se regularmente. Almoços sem hora para acabar. Amigos irmãos. Beijam-se na chegada e na saída. No cardápio, caipirinhas, abobrinhas, queixas da patroa, das tungadas do governo, da próstata, atualização do obituário, piadas (repetidas à exaustão) e “olha a gostosa que entrou”, “mas é bom demais ser avô”, “tô tomando ginkgo, a memória tá outra”…

Já aconteceu daquele que não bebe – o “transporre” – tocar a campainha, conduzir o ruinzinho até o sofá da sala, sob o olhar fulminante da mulher, e sair batido. Ou preencher, a pedido de outro alegrinho, seu cheque do rateio e, de troça, anotar uma quantia absurda no canhoto, sem data nem local, para desespero da criatura amnésica ao se deparar com a cifra dias depois.

Toca o celular e meu marido me pede que fale com um deles.

_ Oi, Brito, tudo bem?

_ Tudo ótimo! Selma, lembra do MARIO?

_ Claro, aquele que te… Brincadeira, Brito. Peraí. Mario… Mario… da Rita?  Os que moraram no mesmo bloco da gente em Brasília?

_ Não, o MARIO de Mediar, Ansiar, Remediar, Incendiar e Odiar! Estão aqui caindo na minha pele, apostando que é “intermedia”. Fala aí, professora, não é “intermedeia”?

_ Quanto vale a aposta? Quero 10%.

Ouvi as gargalhadas. Meninos no pátio do recreio. Companheiros de uma vida.

Por eles um anjo intermedeia.

 

P.S.: Mal o marido chegou, chamei-o para ler o post. Emocionado, tirou do bolso o bilhete acima.

 

 

Os mandamentos do escritor

 

    Selma Barcellos

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Por Carlos Willian Leite, para a Bula:

 

 

Segundo Nietzsche, Hemingway, Onetti, García Márquez…

 

 

1 — Mintam sempre.

(Juan Carlos Onetti)

 

2 — Elimine toda palavra supérflua.

(Ernest Hemingway)

 

3 — Uma coisa é uma história longa e outra é uma história alongada.

(Gabriel García Márquez)

 

4 — Antes de segurar a caneta, é preciso saber exatamente como se expressaria de viva voz o que se tem que dizer. Escrever deve ser apenas uma imitação.

(Friedrich Nietzsche)

 

5 — Não sacrifiquem a sinceridade literária por nada. Nem a política, nem o triunfo. Escrevam sempre para esse outro, silencioso e implacável, que levamos conosco e não é possível enganar.

(Juan Carlos Onetti)

 

6 — Use frases curtas. Use parágrafos de abertura curtos. Use seu idioma de maneira vigorosa.

(Ernest Hemingway)

 

7 — Não force o leitor a ler uma frase novamente para compreender seu sentido.

(Gabriel García Márquez)

 

8 — O escritor está longe de possuir todos os meios do orador. Deve, pois, inspirar-se em uma forma de discurso expressiva. O resultado escrito, de qualquer modo, aparecerá mais apagado que seu modelo.

(Friedrich Nietzsche)

 

9 — Não escrevam jamais pensando na crítica, nos amigos ou parentes, na doce noiva ou esposa. Nem sequer no leitor hipotético.

(Juan Carlos Onetti)

 

10 — Evite o uso de adjetivos, especialmente os extravagantes, como “esplêndido”, “deslumbrante”, “grandioso”, “magnífico”, “suntuoso”.

(Ernest Hemingway)

 

11 — Se você se aborrece escrevendo, o leitor se aborrece lendo.

(Gabriel García Márquez)

 

12 — A riqueza da vida se traduz na riqueza dos gestos. É preciso aprender a considerar tudo como um gesto: a longitude e a pausa das frases, a pontuação, as respirações; também a escolha das palavras e a sucessão dos argumentos.

(Friedrich Nietzsche)

 

13 — Não se limitem a ler os livros já consagrados. Proust e Joyce foram depreciados quando mostraram o nariz. Hoje são gênios.

(Juan Carlos Onetti)

 

14 — O final de uma história deve ser escrito quando você ainda estiver na metade.

(Gabriel García Márquez)

 

15 — O tato do bom prosador na escolha de seus meios consiste em aproximar-se da poesia até roçá-la, mas sem ultrapassar jamais o limite que a separa.

(Friedrich Nietzsche)

 

 

… e Machado de Assis, Proust, Flaubert, Henry Miller, Jorge Luis Borges

 

 

1 — A primeira condição de quem escreve é não aborrecer.

(Machado de Assis)

 

2 — Para se ter talento é necessário estarmos convencidos de que o temos.

(Gustave Flaubert)

 

3 — Há somente uma maneira de escrever para todos, que é escrever sem pensar em ninguém.

(Marcel Proust)

 

4 — Escreva primeiro e sempre. Pintura, música, amigos, cinema, tudo isso vem depois.

(Henry Miller)

 

5 — Evitar as cenas domésticas nos romances policiais; as cenas dramáticas nos diálogos filosóficos.

(Jorge Luis Borges)

 

6 — Trabalhe de acordo com o programa, e não de acordo com o humor. Pare na hora prevista!

(Henry Miller)

 

7 — Uma verdade claramente compreendida não pode ser escrita com sinceridade.

(Marcel Proust)

 

8 — Palavra puxa palavra, uma ideia traz outra, e assim se faz um livro, um governo, ou uma revolução.

(Machado de Assis)

 

9 — O autor na sua obra, deve ser como Deus no universo, presente em toda a parte, mas não visível em nenhuma.

(Gustave Flaubert)

 

10 — Esqueça os livros que quer escrever. Pense apenas no que está escrevendo.

(Henry Miller)

 

11 — O que se deve exigir do escritor, antes de tudo, é certo sentimento íntimo, que o torne homem do seu tempo e do seu país, ainda quando trate de assuntos remotos no tempo e no espaço.

(Machado de Assis)

 

12 — Todo o talento de escrever não consiste senão na escolha das palavras.

(Gustave Flaubert)

 

13 — Mantenha-se humano! Veja pessoas, vá a lugares, beba, se sentir vontade.

(Henry Miller)

 

14 — Evite a vaidade, a modéstia, a pederastia, a falta de pederastia, o suicídio.

(Jorge Luis Borges)

 

15 — Um livro não deve nunca parecer-se com uma conversação nem responder ao desejo de agradar ou de desagradar.

(Marcel Proust)

 

 

O que estão esperando, queridos? Mãos à obra!

 

 

Certas coisas…

 

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“Por que viver vale a pena?” – indaga-se o autor da crônica com que me delicio na rede da varanda, boxers deitados ao lado, labradora empurrando minha mão com o focinho para ganhar cafuné. E responde o jovem cronista: por Mahler, Millôr, Manhattan, Peter Sellers, vinhos do 12ème, mulher “na primeira vez em que entrega sua nudez e seu sorriso” e por aí vai.

Fecho os olhos e penso igualmente em certas coisas que fazem valer a pena… Como o quê? Ora, os poemas do Pessoa, as veredas do Rosa, o esticador de horizontes do Manoel de Barros. Quixote. Quase toda a obra de Fellini, o Mastroianni, a nossa Fernanda, meus cult adolescentes “Um Homem e uma Mulher” e “Breakfast at Tiffany’s” – trilhas sonoras cantadas de cor. Aquela cena do Pacino dançando “Por una cabeza”… Aliás, tangos.

E Paris, “Those Were the Days” em Londres e “Prendi questa mano, Zingara” em Florença – aos 18. Sarah Vaughan, Sinatra, Tom&Vinicius, Tom&Jerry. Chico como encantado ao lado meu e as propostas do Roberto. A bateria da Mangueira. Paul McCartney no Maraca, Anna Netrebko no Waldbühne. “Nessun dorma”. O intermezzo de “Cavalleria rusticana”, a doçura do entreato de “Carmen”… Braços e pernas à perfeição do cisne de Plisetskaya.

Ainda agora, os mistérios de Sintra e pedalar por Cascais, o boardwalk de Santa Monica, ouvindo a percussão dos que sobraram de Woodstock e tomando Erdinger gelada… Bolinho de bacalhau do Seu Antonio. Búzios meio vazia, comendo cavaquinha grelhada no entreposto dos pescadores ao cair da tarde. Bombons trufados da Godiva. Mergulho no mar com a tal sensação térmica de 45º (mas é bom parar por aí). Sol se pondo em Itacoatiara…

A beleza dos dias sob a luz do outono. Aquela noite em que família e amigos, enrolados em mantas, deitamos todos no deck da cabana no Yosemite para observar o céu mais incrível de nossas vidas. As gargalhadas gostosas dos alunos com minhas gracinhas. O último retoque antes de assinar a tela. A expressão feliz do filho vendo sua noiva entrar. O bailado solto com o outro filho e suas dicas de bem viver. Aprender com eles. Chorar de rir. Cansar de dançar.

Não por último, subir ao palco da ABL para receber meu “Oscar” pelo 1º lugar no concurso de redação, 13 mil inscritos… (Nota do Editor: Veja a premiação da Selminha AQUI)

Ah! – e soltar o gogó em “Non, je ne regrette rien”. Glorioso. Meu épico de chuveiro.

 

 

Bem na fita

 

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Sempre que uma nova ruguinha me diz “oi, prazer” quando olho no espelho, ao acordar, lembro como mantra de uma resposta de Pitanguy em sua milionésima (suponho) entrevista sobre beleza feminina: “Mulher bonita não é a que se vê chegar, mas a que se sente chegar”.

Ufa, a frase do mestre é um alívio. Você se contenta em aplicar o básico filtro solar e ir à academia apenas para não atrofiar e volta correndo para os livros que ama. Para o imprescindível cultivo das delícias do espírito, pois que não há beleza que sobreviva a uma mente emburrecida.

Só que… vaidade, teu nome é mulher. Daqui a pouco, lá está a gente de novo se mirando no espelho, bem de pertinho, dando uma esticadinha no canto dos olhos, no contorno do queixo…

Verdade seja dita, não é fácil olhar com desdém para o que nos revela o espelho, com ar blasé de quem não está nem aí para as rugas que “nos dão dignidade e contam nossa história”. Além do que, é preciso estar atenta e forte para perceber quando não dá mais para sair de cara lavada, cor de boca nos lábios, beliscões nas bochechas para o arzinho corado e que tais.

Na realidade, a mensagem de Pitanguy, não fosse ele um esteta, passa longe de pregar desapego à imagem. Antes, alerta-nos para a indigência cultural que o excesso de vaidade física pode causar e, a reboque, fala de algo que hoje é literalmente assustador: o exagero de certas mulheres em busca da juventude que se foi ou dos padrões impostos de beleza.

Quem ainda não cruzou pelas ruas com certas criaturas desfiguradas por seguidos procedimentos plásticos, sorriso e olhar aprisionados? Aliás, como pode alguém pagar para ficar feia, disforme, perseguindo um formato de lábios que a natureza não lhe deu, que não condiz com o restante de seu  rosto, mas que Angelina Jolie tem e se quer igual?

Criaturas assim ficam ainda mais visíveis nas imensas lojas de departamentos americanas. São elas não apenas as consumidoras vorazes, como também as atendentes que, buscando provar a eficácia de seus produtos para fazer o tempo voltar atrás, transformaram-se, todas, em Angelinas.

Recentemente, numa dessas lojas, notei que a moça que me vendia um simples hidratante, ao terminar de falar cada frase, levava segundos para conseguir fechar a protuberante boca química. Sabe dublagem mal feita, quando a fala acaba e os lábios ainda se movem? Assim. Aquela era das que se vê chegar. Só que antes de entrar.

Por outro lado, quando leio que, nos Estados Unidos, jovens escapam à síndrome do tapete vermelho, ao padrão ditado pela mídia, e elegem a colega Anne Jennings, bela exatamente em sua diversidade, como “Rainha da Escola”, percebo que nem tudo está perdido. Há luz no camarim do fim do túnel…

 

 

(Aqui a rainha Anne, emocionando-nos com seu sorriso escancaradamente feliz)

 

Assim, bem-vindas as mulheres que se fazem vistas e sentidas em suas chegadas, porque corpo e espírito nutridos, saudáveis, informadas, orgulhosas de sua feminilidade, seguras por se saberem bem na fita. Não a que Hollywood quer filmar, mas aquela cuja câmera e direitos autorais elas detêm, em doses equilibradas de sonho e lucidez.

 

 

A poltrona

  

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Era tarde quando se levantou da poltrona favorita. Assistira a um belo filme francês, cuja trilha incluía Core Ngrato, música que adora, lera um pouco, recostara-se entregue a borboletas.

Interessante é que nunca saía dela sem uma grande decisão. Como agora, quando resolvera aproveitar o silêncio da casa, todos dormiam, e preparar crepes árabes de nozes e amêndoas para o café da manhã, receita com que o pai beirava o divino, e ela sempre errava a mão.

Quem sabe acertaria assim, à noite, na companhia de Chopin, das boxers, dos fantasmas amigos a olharem-na de soslaio…

Enquanto media o fermento, recordava a história daquela poltrona que atravessava décadas, mudanças, reformas, cores tantas, sem jamais ser mero objeto de cenário, mas palco de uma vida, no centro de um feixe de luz.

No primeiro ato, seus pais escolhem o melhor lugar para colocá-la na casa nova, a pequena bailarina dança sobre o forro de veludo (um pito) ou se esconde dos irmãos espremida entre o encosto e a parede (mais pito); a mãe se acomoda para ouvir suas sonatas ao piano; namora nela, e uma noite vê o galã levantar-se com uma caixinha nas mãos e um pedido no céu da boca…

Segundo ato, a jovem mãe ali amamenta os meninos, corrige provas e inventa palavras de encantar criança; sente o tempo mudar com as marés, as gaivotas e a floração dos jasmins; recosta-se e chora um tantinho com saudade dos rapazes, que foram morar fora, e – hélas – abraça a mãe idosa, memória ausente, sentadinha à espera de proteção.

Para o próximo ato, em pleno ensaio, antevê a vó palhaça, feita de gato e sapato (sem pitos), contando histórias para os netos na bagunça do seu coração.

Os crepes ficaram deliciosos. Quase os ‘verdadeiros’, disseram.

Pena que quando se acerta na vida o ponto do doce, tantos já não estejam mais ali para saboreá-lo conosco… – pensou enquanto observava o fio da calda de flor de laranjeira que, lentamente, vertia no prato.

 

 

Poema velado

 

      Selma Barcellos

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                                                                      De tangerina

                                                                      Canela

                                                                      Açafrão

                                                                      ― e crepúsculo ―

                                                                      Perfuma-se.

                                                                      De brilhos

                                                                      Miçangas

                                                                      Contas

                                                                      ― e algemas ―

                                                                      Adorna-se.

                                                                      Sob o véu

                                                                      No chão

                                                                      ― que lhe impuseram ―

                                                                      A mulher

                                                                      Não se sabe.

                                                                      Aquiesce e ora.

                                                                      Deseja. E cora.

 

 

                                       

Com a palavra toda

 

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Para quem, como a blogueira, conserva o prazer de escrever à mão, aliás, com o corpo todo, sem mediação, no terreno baldio da folha de papel, não encontro  ilustração mais perfeita para o nascimento de um texto, passados os pontapés iniciais do embate com a inspiração, os alarmes falsos… Em algum momento a palavra gestada nos chega. E nos alenta.

Sobre o ato hoje quase lúdico de manuscrever, o poeta Armando Freitas Filho se justifica dizendo que “a máquina de escrever, o computador estão sempre passando a limpo, estão ‘entre’ o que se escreve e a mão.” Indagado se o lápis e a caneta também não estariam, responde: “Mas quem diz que escrevo com lápis e caneta? Escrevo, isso sim, com o dedo em riste.” Ah, poeta… E completa:

 

                                               A letra tremida da infância

                                               ou da mão travada pela idade

                                               quando impressas, não passam

                                               a aceleração do sentimento

                                               nem o avanço da paralisia.

 

                                               Só o leitor pode recuperar

                                               o bastidor da sensação

                                               que se gastou num polo

                                               ou no outro, embalsamada

                                               na letra morta de imprensa.

 

Jamais supérfluos, não me faltem o bloquinho e a Bic de ponta fina aonde for. Mania doida de rascunhar, desenhar, esboçar, destacar vida que passa e que de algum lugar me acena. Ao alcance das mãos. Assim.

 

 

Celebre-se

 

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Quem acompanha o Bloghetto desde o início sabe de minha admiração pela poesia de Leminski. Volta e meia seus versos inquietam as singraduras do barquinho.

O que eu não esperava, aliás, ninguém, e alguns articulistas já se debruçam sobre a surpresa, era ver o recém-lançado “Toda Poesia”, a obra reunida do poeta, morto em 1989, na lista de best-sellers nacionais. Tínhamos aprendido que “poesia não vende”.

Em excelente artigo, José Miguel Wisnik tenta explicar o fenômeno do “catatau cor de laranja em meio a não sei quantos tons de cinza”, do “quinau de poesia flanando distraidamente em meio à corrida dos mais vendidos, com um pique vencedor” (aqui ele brinca com um dos livros do poeta, o “Distraídos venceremos”) e conclui que a medalha já é de Leminski. Afinal, afirma, “o grande teste de um poeta é morrer, quando ele revela, como é o caso, o seu surpreendente poder de renascer”.

Caetano Veloso também comemora o feito: “Por ora, basta celebrar a virada de jogo que representa essa boa nova. Que poesia volte a vender livros no Brasil é uma revolução. Que esta esteja sendo feita por Leminski é sinal de que ela é profunda”.

À cabeceira faz tempo, sorvo em gotas diárias a primorosa coletânea do poeta. Seus versos, guardados por capa laranja feito cone de trânsito, revelam caminhos, desvios e becos. Poesia é isso.

 

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(Revista “O Globo”, 28 de abril/2013, Daniela Dacorso)

 

P.S.: Gostei da foto… Pela criatividade da moça, pela ‘expressão’ de Drummond parecendo retribuir a beijoca com um belo piropo – qual seria? – , por tudo que foi dito acima. Que os jovens abracem, literalmente, a (boa) poesia. Alvíssaras!

 

 

A troco de nada

 

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Selma 2 

Selma (quelle surprise!) é apaixonada por Rubem Braga.

Conhece a fundo a obra e a vida do Velho Urso, que este ano se tornou centenário.

Dos muitos textos que ela tem publicado lá no seu Bloghetto, pincei este sobre uma delicada — e discreta —  paixão.

 

 

 

 

 

(Raymond Depardon)

 

“Ele foi apaixonado por ela. Não, apaixonado não é a palavra: era um bem querer que ultrapassava qualquer necessidade de tocar seu corpo e acabar na cama. Não que isso estivesse fora de cogitação, mas não era o objetivo final. Não havia objetivo algum, a não ser olhar e ir gostando, gostando. Gostando para nada, o que se naquele tempo já era difícil de entender, imagine hoje de explicar. (…)

O tempo passou: ele teve muitos casos, ela se casou algumas vezes, mas sempre que se encontravam guardavam um silêncio respeitoso sobre seus amores passados ou presentes. Esse era um assunto rigorosamente tabu, como se tivessem tido um caso de amor intenso. Até os amigos comuns percebiam a delicadeza do tema e disso não se falava. (…)

Muito tempo se passou e um dia, numa tarde de domingo, a troco de nada, começou a pensar nele. Por que, afinal, nunca tiveram nada um com o outro? Por quê?

Ficou pensando: se divertiu muito na vida, deu muita risada, fez muita bobagem, brincou infindáveis vezes de se apaixonar, machucou muito e foi muito machucada, mas sempre levou a sério algumas regras de conduta que nem ela sabia que tinha, mas que sempre respeitou. Uma delas é que não se pode brincar com os sentimentos dos outros, não quando eles são sérios; não com os de uma pessoa como ele.

Agora, na tal tarde de domingo, fica pensando em quanto gostaria que ele soubesse disso, que soubesse porque nunca houve nada, nem um braço encostado por acaso. Não que ele houvesse algum dia tentado, mas por certo gostaria; claro que gostaria.

Mas sente que não foi preciso; ele, que era incapaz de fingir ou mentir, sempre soube que ela, à sua maneira, também não.

No fundo ela sabe, sempre soube, que eles se gostaram e de certa maneira se amaram, no que isso tem de mais sério, de mais direito.

Foi só isso, e isso é muito.”

 

Trecho de um delicado depoimento que Danuza Leão escreveria, décadas mais tarde, sem jamais citar o nome do apaixonado. Li-o, encantada, em “Rubem Braga – Um cigano fazendeiro do ar”, cuidadosa biografia do cronista, escrita por Marco Antonio de Carvalho.

Sim, era Rubem aquele homem.