As ovelhas tosquiadas

 

           Annibal Augusto Gama

Annibal

 

 

 

 

 

 

Há sempre dois lados (quando não há quatro, cinco, ou mais), e quem tirar conclusões ou fizer julgamentos vendo apenas um lado, pode incorrer em erro grosseiro e ser temerário.

Um objeto deve ser olhado de baixo para cima, de cima para baixo e examinado de todos os seus lados. Devemos aproximar-nos dele, afastarmos, sopesá-lo, cheirá-lo, apalpá-lo, para ter uma noção aproximada do que verdadeiramente é. E, ainda assim, erramos muito.

Vale, para o caso, aquela anedota de dois ingleses que viajavam no vagão de um trem, sentados um diante do outro. Olhavam ambos, através da janela, a paisagem, o campo, lá fora. E um deles disse ao outro, vendo um rebanho de ovelhas: “Aquelas ovelhas foram tosquiadas”. Ao que o outro retrucou: “Pelo menos do lado de cá”.

O bom sendo indicaria que as ovelhas haviam sido tosquiadas inteiramente. Mas, quem sabe? Para os passageiros não havia prova absoluta de que elas tivessem sido tosquiadas dos dois lados do corpo.

Quando não podemos ter certeza, o melhor suspender o julgamento.

O fato é que somos chamados a tomar decisões, a cada momento. E decidimos pelo que já vimos antes, pela experiência, pelo que nos parece mais certo ou justo. Manter-se isento, imparcial, sufocar a piedade, a emoção, diante disso ou daquilo, é muito difícil.

Fala-se em objetividade, em ser objetivo. E é quase impossível ser objetivo. Os nossos valores não são iguais. Apela-se então para as máquinas, para o diagnóstico feito pelas máquinas. Mas atrás da máquina está o homem que a manobra e que interpreta o que resulta dela.

Talvez seja melhor aceitar as inclinações do nosso coração. Já dizia Pascal: “Le coeur a des raisons que la raison ne connaît pas”.

Afinal, todos os homens, os que julgam e os que são julgados, serão um dia também julgados.

E o mais difícil é julgar-se a si mesmo.

 

 maioria-ovelina

 A Maioria: foto de René Maltête (1960)

 

 

3 comentários

  1. paulinho lima
    11/11/13 at 11:44

    Belo texto e belo “conselho”. Abria, um de meus treinamentos, com essa metáfora (fábula) . nosso olhar não pode ser autoritário, muito menos exteriorizar uma verdade.Precisamos conversar, trocar…
    Uma metáfora que também usava em meus treinamentos era do filme “sociedades dos poetas mortos” (Excelente filme). Quando o professor sobe na mesa e em pé olha para a turma e começa a falar do outro “olhar” que tinha da turma. Depende de onde estamos olhando…. Uma cena inesquecível.
    Fazendo um graça. Essa semana um amigo, baixinho,  me olhando sentado falou:” Nunca te imaginei tão careca”.
    Annibal, além de craque da escrita um mestre.

  2. nilton
    11/11/13 at 12:25

    Não sei quando o texto foi feito, mas é atualíssimo.Grande Annibal.

  3. André
    11/11/13 at 21:39

    Gama, excelente texto esse de autoria de seu pai. Sempre achei que você herdou dele o gosto pela literatura.
    Abraçaço.

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