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A Meritolândia

 

          Annibal Augusto Gama

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Há um país na linha do equador (ao sul, ao norte, a leste ou a oeste, tanto faz) que se chama Meritolândia (vide “Dictionaire des Lieux Imaginaires”, de Alberto Manguel).

Nele, todos são meritórios, mas os juízes são meritíssimos. A escolha para os cargos públicos ali se faz pelo mérito, pelo demérito e pelas fichas-sujas. Estas predominam, e quanto mais comprida for a capivara dos candidatos, na Polícia, mais votos eles obtêm.

Nele já também se experimentou a maracutaia, que foi substituída, com vantagem, pela marmelada. A marmelada é o doce predileto da população que também adota, como moda, os panos quentes.

O sujeito que diz que não disse e que disseram o que ele não disse, ganha mérito. Em tal situação, o dito país é o mais civilizado da América Latrina. Nele já foram experimentados o pluripartidarismo, o unipartidismo, e o trespartidarismo, para se evitar o cambalacho debaixo do tacho. E até já houve um partido denominado arenito, que foi o partido político maior do mundo.

Petelhos e pentelhos acordaram no desacordo. Mas afinal chegou-se ao partido QPM, que quer dizer “quem pode manda”, quem não pode faz xixi na cama. 

O seu sistema eleitoral está sempre se aperfeiçoando, e já se usou o bola na rede e não chute para escanteio. Agora o seu lema é bola pra frente. Os planos do governo gostam muito de um traque, apelidado de PAC. Acho que o nome veio do tropel dos cascos de cavalos: paque, paque, paque, paque. Por isso mesmo, as cavalgaduras são muito meritórias.

Ultimamente, criou-se um partido chamado SF, isto é safadeza, que tirou pedaços de uns e outros que eram a mesma moleza. Ele não é da direita, nem da esquerda, nem do centro, muito ao contrário.

Os ministros são nomeados pelo número de dedos. Quanto mais dedos, mais habilitados para roubar. Isto não impediu que um presidente de tal nação não tivesse um ou dois dedos, tal era a sua arte.

Este país é muito feliz, porque nele não há inflação, há apenas infração. E cada dia se cria uma nova infração, de modo que o Código Penal regurgita de infrações. Não há, porém, pena a ser aplicada, porque pena é coisa de galinha.

 

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A hipótese e o hipopótamo

 

          Annibal Augusto Gama

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Pensei em escrever um ensaio sobre a hipótese e o hipopótamo. O hipopótamo do Delírio de Brás Cubas. Cavalgando-o, Brás Cubas vai à origem dos tempos e depois faz a viagem de volta até o fim dos mesmos tempos, quando encontra Pandora. É uma viagem circular, que termina com um gatinho brincando com uma bola de papel. Genial, genial, ninguém escreveu nada semelhante.

Mas qual seria a hipótese, no caso? Temos um hipopótamo, mas não temos uma hipótese.

Ora, a hipótese pode ser qualquer uma. Agora sustentam os entendidos que o criacionismo não deve ser ensinado nas aulas de ciência, porque nada o sustenta, e não é científico. Pois bem: muitas coisas tidas como científicas e exatas, passados mais alguns anos, deixam de sê-lo. Einstein substituiu Newton. Há séculos, o Sol girava em torno da Terra, e era científico; atualmente, é a Terra que gira em torno do Sol, e é também científico.

Quase sempre, a ciência nasce de uma hipótese, e às vezes de hipóteses absurdas. Desta maneira, o criacionismo, que é uma hipótese, é tão científico como qualquer outra teoria.

Bem, se não consigo escrever sobre a hipótese e o hipopótamo, talvez possa escrever sobre a hipótese e a hipóstase.

Dizem os dicionários comuns (o Aurélio, por exemplo) que “hipóstase” é a ficção ou abstração falsamente considerada como real. Nos dicionários filosóficos, a coisa complica-se. Foi Plotino quem, com tal termo, denominou as três substâncias do mundo inteligível: o Uno, a Inteligência e a Alma. Nas discussões trinitárias que se seguiram, a palavra hipóstase foi preferida a “pessoa” que, por significar propriamente “máscara”, parecia evocar a imagem de algo fictício.

Estamos vendo que quase tudo é uma questão de palavras. Exceto a matemática, toda a ciência se faz com palavras, e muitas delas equívocas.

O conhecimento é possível? Há quem afirme que não. Tangenciamos a verdade, mas nunca a encontramos. Ou por outra, a verdade de hoje não será a de amanhã, ainda porque só recolhemos pedaços da verdade, e não a verdade absoluta e total.

Não vejo nenhuma razão para que o criacionismo, como uma hipótese, seja desacreditado, e a ciência não.

Vivemos de ficções, e a ciência é uma delas. Como a moda, a ciência tem o seu dia de alta costura. Todos querem vestir-se com o modelo dos ateliês mais famosos. A saia curta, que exibe deliciosamente as coxas das mulheres, logo mais é substituída pela saia comprida, que vai até os pés.

A pessoa jurídica, de que trata o Direito, o nosso Código Civil, é uma ficção. E com ela desenvolveram-se todas as implicações legislativas.

O hipopótamo certamente não é uma hipótese. Ele existe (por enquanto), como existe o ornitorrinco. E até acho que Machado de Assis não chegou a vê-lo. Mas fez do hipopótamo a cavalgadura de Brás Cubas a viajar para a origem e o fim dos tempos, quando toda ciência será desmentida por uma ciência maior e única.

 

Delírio

 

 

 

Suarabácti

 

         Annibal Augusto Gama

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Não sei onde ouvi ou li esta palavra, nem tinha à mão, na hora, um dicionário, mas ela ficou me martelando na cabeça. Parecia o nome de alguma doença inconfessável. Até que dei com o Prof. Lopes, um sábio, na porta da Farmácia Modelo, e lhe perguntei o que era ou queria dizer o tal de suarabácti,

O professor olhou para o céu, e depois me bateu a mão no ombro:

─ Cáspite! Faz mais de vinte anos que não ouço ninguém falar em suarabácti! Onde é que você encontrou a palavra?

Provavelmente, os antibióticos haviam acabado com o suarabácti, como acabaram com a gonorréia.

Mas não era nada do que eu supunha, e o professor explicou:

─ Suarabácti, meu caro amigo, é uma alteração fonética que consiste na intercalação de uma vogal para desmanchar um grupo consonantal. Diz-se também “anaptixe”. Por exemplo; “adevogado”, por advogado, “peneu”, por pneu, “taramela”, por tramela.

Ora, ora…

Agradeci ao professor e fui saindo. E ele permaneceu rindo, na porta da farmácia.

Fui para o Bar e Bilhar do Nilo, entrei, e experimentei no Elesbão, que é um cretino:

─ Você não tem vergonha na cara, seu pervertido? Fazer suarabácti no bordel da Ambrosina…

Todos olharam reprovativamente para o Elesbão, e ele pegou o taco, ameaçadoramente.

─ Repita o que está dizendo que lhe parto a cara!

─ Pois pergunte antes ao Professor Lopes, foi ele quem me disse, na porta da Farmácia Modelo.

Ele estava com as mangas da camisa arregaçadas, e eu tirei o paletó.

─ Bom será que não lhe caia a língua, depois do suarabácti. Se eu fosse você, ia logo tomar uma dose cavalar de antibiótico, porque a coisa é grave e contagiosa. E não me encoste, antes de se tratar.

Todos se afastaram do Elesbão, e ele empalideceu.

─ Vou já falar com o Doutor Magalhães, e depois volto para lhe quebrar a cara. 

─ Não é preciso, seu bestalhão, porque eu já tenho o antibiótico no bolso. Suarabácti é meter uma vogal num grupo consonantal, para desfazê-lo. “Adevogado”, por advogado, “peneu”, por pneu. 

Todos caíram na gargalhada. Ainda assim, o Elesbão correu atrás de mim, com o taco na mão, até a porta do bar.

─ Engraçadinho! Moleque! Vá gozar a mãe!

Quando ele se acalmou, retornei ao bar e perguntei ao pessoal:

─ Como é, gente, vamos ou não vamos jogar uma partida de sinuca?

De noite, na Ambrosina, sugeri à Loreta:

─ Vamos fazer um suarabácti? 

Ela se ergueu da cadeira, os olhos fuzilando.

─ Quem é que você pensa que eu sou? Seu descarado, seu tarado! Não me encoste a mão, e saia já daqui!

Foi um custo convencê-la que ela mesma praticava o suarabácti todos os dias.

A coisa se espalhou, e todos vinham perguntar-me que estória era aquela do suarabácti. Mas alguns ainda continuam duvidando. 

O Prof. Lopes me disse:

─ Pelo menos, você divulgou o suarabácti. Mas tenha cuidado, não exagere, não deturpe a língua, que é preciosa.

 

suarábacti

 

 

 

Sic Transit Gloria Mundi

 

          Annibal Augusto Gama

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 Suponhamos que alguém pretenda escrever (ou dizer), que a gloria é vã. E alinha as seguintes frases que, substancialmente, significam a mesma coisa:

 

                                    A glória é uma palavra vã.

 

                                    A glória é uma vã palavra.

 

                                    Glória: vã palavra.

 

                                    A Glória é uma vã palavra.

 

                                    A glória nada é.

 

                                    A glória é nada.

 

Destas seis frases, só uma deve ser exata, no seu sentido e estilisticamente, para um bom escritor. E soar mais bem para um leitor sensível.

Qual delas seria?

Isto, os professores não explicam nas suas aulas de língua portuguesa, ou só raros deles explicam. E é uma questão de bom gosto, de sensibilidade.

Vamos tentar fazer a escolha certa e justificá-la.

 Em primeiro lugar, a primeira frase (“A glória é uma palavra vã”) é incomparavelmente inferior à segunda: “A glória é uma vã palavra”.

 Por quê?

 Porque uma palavra vã (da primeira frase) apresenta um encontro vocálico desagradável para um ouvido fino: vra-vã. E a antecipação do adjetivo ao substantivo da segunda frase elimina este encontro vocálico enjoativo.

 Todavia, a terceira frase, para aqueles que se prezam de ser sóbrios de palavras, talvez seja a melhor: Glória: vã palavra. Mais ainda: nela não se achando o artigo definido “a”, generaliza, e abrange toda espécie de glória.

 Na quarta frase (“A Glória é uma vã palavra”), vê-se que se escreveu com maiúscula o substantivo Glória. Ele foi personalizado e pode referir-se não ao substantivo abstrato “glória”, mas a uma moça ou a uma mulher chamada Glória. O que não é o caso, ou é outro caso.

Enquanto isso, a quinta e a sexta frases não são muito expressivas. 

Um escritor vulgar poderia ainda optar por uma frase grosseira: A glória não enche barriga.

Acho que a escolha está feita: a melhor, entre as seis frases é: A glória é uma vã palavra. Ou, sucintamente: Glória: vã palavra.

 Carlos Drummond de Andrade, em seu livrinho póstumo, O Avesso das Coisas, escreve:

 “A glória é o alimento que se dá a quem já não pode saboreá-lo”.

 Não é uma frase muito verdadeira. Porque ele mesmo, em vida e moço, saboreou a glória que merecia.

 Já Valéry dizia, com um dar de ombros, ou com irritação:

 “Je m´en fous de la gloire”.

 Que não traduzo, para não escandalizar.

 

sic-transit-gloria-mundi-

 

 

O morto e o vivo

 

          Annibal Augusto Gama

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Quando foi buscar na paróquia a sua certidão de batismo, para casar-se na Igreja, ficou surpreso. Era irmão gêmeo, e o seu irmão havia falecido. Constava, porém, nos registros paroquiais, que o morto era ele, e não o outro. O mesmo aconteceu no Cartório de Registro Civil das Pessoas Naturais. Diante de tal problema, devia procurar uma retificação daqueles registros. Isto demandava tempo, advogado, e o mais. 

Sua noiva achou que ele estava era a protelar o casamento. O advogado consultado lhe disse:

— O melhor seria você continuar morto. Morto não tem responsabilidade. Pode fazer o que quiser, e não será punido. Além disso, você pode amigar, ou amancebar-se, que é melhor do que casar. A Constituição atual equipara a amigação ao casamento.

A noiva, porém, repeliu tal sugestão. Queria casar-se de papel passado e vestida de noiva.

Intervieram então o futuro sogro e a futura sogra.

— Olhe aqui — exigiram — você trate de honrar o seu compromisso. Senão, rua! 

As ruas não admitem defuntos passeando por elas. Querem-nos enterrados no cemitério.

A prova de que se está vivo, dá-a os médicos. Mas estes, muitas vezes, se enganam. Que é estar vivo? Há tão variados modos de viver que até hoje não se deu uma explicação conveniente do que é viver.

Seus pais também não puderam dar solução ao caso. Disseram-lhe: 

— Você e o seu irmão eram tão parecidos que às vezes um mamava duas vezes e o outro ficava sem mamar. 

Ele lembrava-se de que quem ficava sem mamar era ele, porque chorava muito, a despeito de se propalar que quem não chora não mama. 

Pareceu-lhe ainda que seus pais preferiam o outro, que não mais lhes dava despesa.

 O noivado rompeu-se.

E como oficialmente continuava morto, foi vivendo sem compromisso nenhum.

A lição é esta.

Viva sem compromissos, sem horários nem honorários. Vá para onde quiser, ou fique, que tudo dá na mesma.

Afinal, de um modo ou de outro, você morre.

O caso dele, contudo, era singular: se morresse, não havia como passar-lhe o atestado de óbito, porque já morrera muito antes.

Ora, ora, viver ou morrer não é a mesma coisa?

Vivos ou mortos, somos todos defuntos. E defunto não tuge nem muge.

defunto 

 

 

 

O vendedor de papagaios

 

 

      Annibal Augusto Gama

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Os cofres da Prefeitura Municipal estavam vazios, porque os contribuintes não recolhiam os impostos. O dinheiro arrecadado mal dava para pagar o funcionalismo. O Prefeito convocou os fiscais, esbravejou, e ordenou-lhes que tratassem de cobrar os imposto de todo o mundo.

O vendedor de papagaios achava-se na Avenida, vendendo os seus: “Comprem o papagaio falador! Compre este que fala tudo, e é barato!” Os papagaios, no poleiro, mantinham-se calados e arrepiados. E veio vindo, sorrateiramente, um fiscal da Prefeitura, que agarrou o homem. “Cadê o alvará? Cadê o comprovante de pagamento de imposto?” O homem se encolheu, diante dos papagaios assustados. “Que alvará? Que imposto?” Mas, seguro pela manga da camisa, foi levado aos trancos para diante do Prefeito. “Aqui está um devedor relapso!” O Prefeito Municipal olhou o vendedor de papagaios, xingou e protestou: “É por causa de gente como você que a cidade não prospera! Gente que não paga imposto e não cumpre as suas obrigações!”

E mandou buscar o regulamento de impostos, que foi aberto sobre a sua mesa. Correu a ponta do dedão sobre a lista, folha por folha, e não achou nenhum imposto sobre venda de papagaios. Uma falha, uma omissão imperdoável… Como fazer?

Vai então, teve uma inspiração e bateu uma palmada na cabeça:

— Verdura não é verde? Alface, almeirão… Papagaio também não é verde? Cobre-se do sujeito o imposto sobre verduras!”

Assim, o vendedor de papagaios pagou o imposto sobre verduras e retornou para a Avenida a vender os seus papagaios.

 

vendedor de papagaio

 

 

 

O dito pelo não dito

 

       Annibal Augusto Gama

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Ulisses estava compromissado com Maria Amélia, e até já se marcara a data para o casamento. Mas, um mês antes, ela lhe disse, devolvendo-lhe a aliança retirada do anular da mão direita: “Cheguei à conclusão de não quero me casar. Você me desculpe, mas está rompido o nosso compromisso”.

Ele também retirou a sua aliança do dedo e, cheio de decepção, mas mantendo o seu orgulho masculino, foi embora.

Não se tornou um ébrio e na bebida não buscou esquecer. Dedicou-se com furor ao trabalho, aos empreendimentos e, dois anos depois, estava rico, muito rico.

Via Maria Amélia nas ruas, de vez em quando, mas não lhe tirava o chapéu, porque não o usava. Disputado desde então por outras moças casadoiras, rejeitava a todas com delicadeza. Ia ao bordel da Ambrosina duas vezes por semana, e preferia as putas. Com elas, paga-se e vai-se embora.

Sua mãe, que o criara com mimo, dizia-lhe: “Você precisa casar-se, para assentar a cabeça. Principalmente agora, que está rico. Tire da cabeça aquela Maria Amélia” 

Ambos permaneceram solteiros.

Quando lhe informaram que Maria Amélia estava doente, muito doente, e talvez desenganada, ficou abalado. Deveria visitá-la?

Afinal resolveu ir à casa dela. Achou-a quase deitada numa poltrona de inclinar, muito pálida, os olhos fundos, magra, e embrulhada numa manta grossa. Ela tinha então trinta e dois anos e ele chegava aos quarenta.

— Que é isso? Trate de se curar, você ainda tem muitos anos pela frente.

Ela sorriu e abanou a cabeça.

— E você, por que ainda não se casou? — ela quis saber.

— Acho que tenho vocação para celibatário.. 

Ela tornou a sorrir e fez-lhe outra pergunta inesperada:

— Ainda guarda as alianças?

Ele ficou vermelho e encabulado. Sim, guardava o par de alianças no bolso, desde aquele remoto rompimento.

 — Deixe-me ver. 

Ulisses retirou as alianças do bolsinho do paletó. Maria Amélia enfiou uma delas no anular da mão esquerda, e a outra no mesmo dedo dele. 

— Agora estamos casados, até que a morte nos separe…

Não foi preciso padre para formalizar o casamento. Isto é, o padre veio alguns dias depois para dar a extrema unção a Maria Amélia.

E assim, viúvo sem ser viúvo, Ulisses permaneceu sozinho pelo resto de sua existência. E mandou erguer, no túmulo de Maria Amélia, um anjo de asas abertas, prestes a alçar voo.

 

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Champollion e a pedra no sapato

 

        Annibal Augusto Gama

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Foi Champollion que decifrou a “Pedra da Roseta”, mas ignoro se algum dia decifrou a pedra no sapato. É uma pedrinha insignificante que entra no sapato e incomoda como o diabo. Tirar o sapato na rua e sacudir fora a pedra é deselegante. Então, você retorna para casa, entra, tira o sapato e despeja dele a pedrinha. É uma coisinha à toa, mas como atrapalhava!

A existência é feita desses pedregulhos, menores ou maiores. Machado de Assis já escreveu sobre as botas apertadas, mas não sobre a pedra no sapato. As botas apertadas foram feitas para você sacá-las, e sentir-se, depois disso, aliviado e feliz. A pedra no sapato substitui as botas apertadas, e o resultado é quase o mesmo.

Nós às vezes sofremos muito com coisas miúdas. E tal sofrimento não é menor do que o sofrimento com as coisas graúdas. Também há alegrias pequenas que se equivalem às grandes alegrias. Outro dia, indo a São Paulo, perdi os meus óculos de ver de perto, esquecendo-o no assento de um carro de aluguel. Ora, eu fora à capital paulista justamente para visitar as livrarias que aqui em Ribeirão Preto já não há. E como ver e escolher livros, sem a ajuda dos óculos? Fui à Livraria Brandão, na Rua Xavier de Toledo, um sebo magnífico com mais de quarenta mil livros. Alguém, lá dentro, ofereceu-me os seus óculos. Serviram-me um pouco, e pude vasculhar as prateleiras, botando os livros sobre uma mesa. Reuni mais de vinte livros e comprei-os. O dono da Livraria Brandão é um ótimo sujeito, e conversamos muito.

Dali fui à Livraria Cultura, mas lá ninguém me ofereceu óculos para enxergar perto. Ainda assim, arranjei-me como pude e comprei outros livros.

Agora, já em casa, e com os óculos em duplicata que tenho, leio uns e leio outros.

O negócio é este: arranjar-se com a pedrinha no sapato.

Como eu também estou com um começo de catarata, perguntou-me alguém porque não me opero. Respondi que prefiro a catarata, porque assim deixo de ver tanta mulher feia. Mas também perco as mulheres bonitas, que são muitas.

A vida é uma compensação: dá a pedra no sapato e a felicidade de poder tirá-la dele.

Eu podia escrever um livro de autoajuda. Ganharia dinheiro. Mas não creio em autoajuda. Na verdade, nós nos ajudamos quando ajudamos aos outros.

Quando saio com o meu cachorrinho Pichorro, dou sempre com um sujeito que vigia os carros dos outros. Ele, logo que me vê, pede-me um cigarro e algumas moedas. Dou, embora saiba que aquilo não adianta nada. O sujeito continuará miserável como antes.

Mas, dar é uma pedrinha que tiro do sapato. Sou eu que lucro.

Quando é que somos verdadeiramente felizes? 

Quando não pensamos nisso.

 

botas apertadas 1 

 

 

Teodureto

 

        Annibal Augusto Gama

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Teodureto quebrou um dedo, quando lhe desabou sobre a mão a janela de guilhotina. Saiu urrando de dor, e dançando pela casa. Foi ao médico, que lhe engessou o dedo e ficou dedo duro. Mas não era.

Quando conheceu Sofia, ela lhe perguntou, rindo:

— Teodureto não é nome de remédio?

Os remédios curam ou não curam. Alopatia, homeopatia, benzeções e garrafadas. Tosse? Tome Bromil.

O que não tem remédio, remediado está.

O remédio é amar, mas amar também dói.

Teodureto amou Sofia, mas fie-se em quem só fia.

Droga para perda de memória é fosfato. 

Vestido de fraque, Teodureto foi falar com o pai de Sofia 

— Peço-lhe autorização para namorar Sofia, noivar e casar.

O homem tinha muitos cuidados com a filha e lhe perguntou severamente:

— O senhor o que faz?

— Por enquanto, nada.

— Pois nade em mar crespo, e volte salgado.

Vendo o triste pastor que assim lhe era negada a sua pastora, começou de servir outros sete anos, dizendo, “mais servira se não fora para tão longo o amor tão curta a vida” 

Com o dinheiro que possuía, abriu uma farmácia, botando espetado na porta o marinheiro carregando um grande peixe, da Emulsão de Scott.

Remédio vai, remédio vem, ia fazer injeções nas bundas fofas das madamas, espetando-lhes a agulha e depois soprando.

Enquanto isso, Sofia ria.

Quinze anos depois, Teodureto estava gordo e calvo e, ao luar da noite, roía o queijo da Lua.

Não casou, e envelheceu.

E, ao invés de descobrir um remédio para lembrar, inventou outro, para esquecer.

No esquecimento, todas as Sofias andam de braços dados com as Briolanjas.

As mulheres são como maçãs nas gavetas: secam e murcham.

Lembrai-vos disso, meninas: o amor é para dar-se.

 

Emulsão de Scott

 

 

Telefone para Cacilda

 

          Annibal Augusto Gama

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Encontrei-o por acaso na fila de ônibus. Abraçamo-nos e trocamos algumas palavras insignificantes. Às vezes, passava anos sem vê-lo. Ele fora meu colega de ginásio. Já com o pé no primeiro degrau na porta do ônibus, ele voltou a cabeça e me disse: “Telefone para Cacilda. Não deixe de telefonar para Cacilda”. A porta do veículo fechou-se, e o ônibus partiu.

Permaneci na calçada alguns minutos, e, de repente, tornou a acudir-me a sua recomendação: “Telefone para Cacilda. Não deixe de telefonar para Cacilda”.

Ora, eu não conhecia nenhuma Cacilda, e não tinha o número do telefone de nenhuma Cacilda. A Cacilda que eu conhecia, a única, fora Cacilda Becker, a atriz, a maravilhosa Cacilda Becker, que já estava morta havia muitos anos.

Mas a sua recomendação não saiu mais da minha cabeça. Quantas Cacildas haveria na cidade, no país? Milhares. O seu prenome não viria na Lista Telefônica, sabido que a Lista traz o sobrenome, e depois o prenome.

Ainda assim, impus-me uma obrigação: todos os dias discava trinta números de telefone. E quando me atendiam, perguntava: “A Cacilda está? Quero falar com ela”. Foram dez mil, novecentos e cinquenta telefonemos, num ano. Se me atendiam, a resposta era que não havia nenhuma Cacilda na casa. Outros se irritavam, e me xingavam.

Mas a minha obsessão persistia. Tinha de telefonar para Cacilda, falar com Cacilda.

Os amigos começaram a achar que eu estava maluco. “Procure um psiquiatra”, aconselhavam-me.

Afinal, fui a um psiquiatra. Esperei na sua sala, até que uma porta foi aberta e mandaram-me entrar.

Entrei, e fui logo dizendo à mulher que me atendeu tudo o que acontecia comigo. Ela anotou o que eu dizia, ou gravou. E disse-me: “Eu sou a Dra. Cacilda. O seu estado é grave, o senhor precisa de tratamento. Venha, uma vez por semana, a esta mesma hora, cobro R$250,00 por sessão”.

A Dra. Cacilda, porém, não era a Cacilda que eu procurava. Ainda assim, continuei a comparecer, uma vez por semana, às sessões, durante as quais falava de tudo. Da minha infância, dos meus pais, de um ursinho de pelúcia que tivera, e cujo nome era Afonso. A psiquiatra ouvia-me, gravava as minhas palavras, e não dizia nada. Meus sonhos também a interessavam.

Continuei  telefonando para Cacilda, sem resultado.

Outro amigo me disse: “Nós sempre procuramos Cacilda”.

“E a encontramos, afinal?”— perguntei-lhe.

E ele respondeu-me, sacudindo a cabeça:

“Jamais!”

 

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