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De contemplações

 

             Selma Barcellos

 Selma (perfil)

 

Sempre achei que a partir da análise de parábolas iniciais é possível saber se o sistema será estocástico ou não. E que o Conjunto de Cantor, abstração em que na sua forma ideal o terço do meio de uma linha no valor entre 0 e 1 é removido ao infinito, deixando para trás uma população de pontos de corte não concentrados em valor especial, é a solução.

De forma que aplausos tardios para o merecidamente contemplado Artur Avila, aquele moço formidável da Matemática. Cá de minha parte, permaneço em total contemplação com a entidade, inatingível desde os bancos escolares. 

Jamais gostei de matemática, gente. Era pura e aplicada, isso eu era. Nunca entreguei prova só assinada, como fazia Quintana em sua igual ojeriza à matéria, nem fui reprovada. Mas, balão cativo, sonhava em me evadir daquelas aulas.

Minha paixão sempre foi português. Adorava calcular a raiz etimológica de palavras primas, decifrar frações próprias e ordinárias da alma dos poetas…

Álgebra, sim, me encantava. Tinha letrinhas.

 

 

teco-teco

 

 

Lira dos Setentanos

 

 

Chico 70 anos 

 

Da nossa enviada especial a Paris:

“O que você preparou para Chiquito? Ele está aqui dando mole e a família chega do Rio hoje. Todos vieram comemorar os setentinha.

Selminha”

(Lá no Bloghetto tem mais: clique aqui)

 

 

“Chico Buarque é um dos maiores compositores do Brasil. É meu grande e querido amigo, muito bom de ter. Quieto e respeitador. Profissional extraordinário, estudioso, firme. É um homem lindo, maravilhoso, cavalheiro e deslumbrante. Comigo, é uma flor. Não poderia ser mais suave, amoroso e cuidadoso. Das canções que ele fez para eu cantar, não posso escolher uma. Todas são deslumbrantes. Estarão para sempre entre as melhores da minha vida. Isso já é um presente muito grande. Sou grata. Apaixonada por ele. E sua música alcança nobremente a todos. Com o melhor português, a melhor música, a melhor harmonia. Por isso é hora de parar de dizer que brasileiro tem ouvido burro. O brasileiro é sensível e sabe o que é bom. Chico faz aniversário um dia depois de mim. Sou do dia 18 de  junho e ele, do dia 19. Quando a gente estava fazendo o show de Chico & Bhetânia, no Canecão (no Rio em 1975), era um sucesso! Ficamos meses em cartaz. Estávamos no palco e resolveram fazer uma homenagem. No final do show, para tudo e entram as ‘canequetes’, de tapa sexo, cada uma com uma TV imensa e oferece para a gente. Chico me olhou e disse: ‘Nunca mais faço aniversário!’ Que vergonha que a gente passou! Mas ele é geminiano, adora fazer aniversário. Este ano ele não está aqui para eu dar um beijo nele. Mando de longe! Chico é tudo. É o máximo” (Maria Bethânia)

 

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“Antonio, quando ela abre os braços para o Chico, a emoção é absolutamente visível. E a gratidão por cantar tamanha beleza com ele. ” (Selminha)

 

 

“Nossa parceria é fora do comum. Temos apenas duas músicas fora de projetos específicos, ‘Moto-Contínuo” e ‘Nego Maluco’. As outras 40 que fizemos jutos ‘têm patrão’: fizemos músicas para balés e musicais. O balé do Teatro Guaíra, de Curitiba, havia encenado ‘Jogos de Dança’, seis peças instrumentais que fiz. Eles me chamaram para fazer ‘O Grande Circo Místico’ e sugeri o Chico para fazer as letras, pela qualidade dele e porque ele tinha prática de teatro, a carreira dele foi por este caminho. Eu sempre interferi muito nas letras dos meus parceiros, pedindo para trocar uma palavra. Nunca fiz isso com o Chico na vida. Nenhuma letra eu tive que pedir algo, porque ele é completamente obcecado, escreve e reescreve. Crio a expectativa e normalmente vem uma letra melhor do que a que estou esperando. Além de ser um excelente compositor, ele consegue inventar um personagem, caso da ‘Lily Braun’ e da ‘Beatriz’ no ‘Circo Místico’. Nosso encontro foi bom para nós dois. Eu sou um melhor músico por conta do trabalho que fez comigo. Chico consegue adivinhar o que a música quer passar e, muito provavelmente, nem o autor da melodia pensou daquele jeito.” (Edu Lobo)

 

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“Conheci o Chico na década de 1960 em festas na casa de amigos, em São Paulo. Carregávamos a indiferença pelos compromissos e as improvisações da juventude. O Chico ainda não era o Chico, era o ‘Carioca’, que começava a surgir com seu acanhamento e seu violão. Não pude deixar de atender ao chamado dele, em 1969, quando ficou exilado na Itália, me convidando para trabalhar com ele em shows. Chegando a Roma, não tinha show nenhum, e ainda dei dinheiro para o Chico saldar umas dívidas. Permaneci seis meses com ele na Itália, vivendo juntos momentos nem sempre animadores. Dois dias antes de voltar ao Brasil, deixei com ele um tema de despedida para que ele colocasse letra, consolidando o tempo que passamos juntos. Havia ser iniciado, em Fiumicino, pela última estrofe, o que, dois anos depois, seria concretizado como ‘Samba de Orly’, já com a sutil intervenção de Vinicius de Moraes. Porque Orly era o aeroporto no qual desembarcava a maioria dos brasileiros perseguidos pelo regime militar. Já éramos parceiros desde ‘Lua Cheia’, minha primeira composição. Depois fizemos ‘Samba pra Vinicius’. Recentemente, deixei com ele um tema, quem sabe não seja o prenúncio de uma nova canção. Mas nossa mais autêntica parceria é a amizade e a confiança que depositamos um no outro.” (Toquinho)

 

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“O Chico é o mais completo letrista e poeta brasileiro. Se bem que chegando próximo dele vêm mais uns 8 ou 9. O que, no meu entender, prova que fazemos a melhor e mais rica literatura musical do planeta. E, além do letrista, é também um grande melodista. E conseguiu aliar em suas obras, lirismo, política, cultura popular e filosofia, dentro de uma poética surpreendente, rica, belíssima. Serviu de inspiração para tantos letristas novos, mantendo-se assim a tradição de qualidade de letras escritas no Brasil. ‘Renata Maria’, antes de lhe chegar às mãos, tinha o título provisório de ‘Buarquiana 1’. E lhe chegou às mãos através da cantora Leila Pinheiro, que foi a primeira a gravar. Chico me ligou um dia para dizer que iria colocar um nome de mulher, pois, na minha fita, havia um momentos em que ele achou que eu, no meu lararaiá, havia falado algo com sonoridade parecida. Também fizemos ‘Sou eu’, que era ‘Buarquiana 2’, e Diogo Nogueira gravou primeiro, com o Chico. Ele é metódico e meticuloso. E não corre contra o tempo, creio. Já tenho outras duas músicas guardadas para ele colocar letra. Mas não gosto de sair pedindo. Não sou ‘entrão’. Sou tímido com meus ídolos. E Chico é um deles. Nem sei como tive coragem de perguntar se eu podia mandar um samba pra ele.” (Ivan Lins)

 

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A única unanimidade nacional.” (Millôr Fernandes)

 

“A coisa mais importante em matéria de música popular.”(Rubem Braga)

 

“Herói nacional, salvação do Brasil, mestre da língua. Tanta coisa que nem cabe aqui.” (Tom Jobim)

 

“De amor andamos todos precisados, em dose tal que nos alegre, nos reumanize, nos corrija, nos dê paciência e esperança, força, capacidade de entender, perdoar, ir para a frente. Amor que seja navio, casa, coisa cintilante, que nos vacine contra o feio, o errado, o triste, o mau, o absurdo e o mais que estamos vivendo ou presenciando (…) Viva a música, viva o sopro de amor que a música e banda vêm trazendo…” (Carlos Drummond de Andrade, depois de ouvir “A Banda”)

 

Talvez mestre Millôr tenha exagerado.

Chico não é (ou já não é) uma unanimidade.

Mas continua uma sumidade:

soma idade, mas a idade some dele.

Que assim seja, benfazeja!

 

 

 

Pode isto, Arnaldo?

 

         Selma Barcellos

Selma (perfil) 

 

 

 

 

 

 

 

Queridos, o Bloghettinho recebeu a irrecusável proposta de cobrir o certame futebolístico que se avizinha diretamente de Amsterdam, Paris e Cascais. :-)

Blogueira de chuteira, top Nelson Rodrigues e Armando Nogueira, aceitei o convite e, se Deus quiser, vamos estar fazendo uma boa cobertura. Temo apenas não segurar a emoção quando Tostão entrar em campo. Joga muito.

Nossos correspondentes em Berlim, Rio de Janeiro e São Paulo já estão a postos com toda a força imagética, poética, épica e dramática que o evento requer. Mas hein?

No mais, a regra é clara:
                                            Amo vocês!!! 

 

Voltamos em 21 de julho.

 

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Silêncio companheiro

 

 

          Selma Barcellos

Selma (perfil)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Dois dedinhos de prosa (e verso) sobre amigos, em silêncio companheiro, obsequioso… 

 

 

 

Uma longa mesa de amigos, na churrascaria Plataforma, era o refúgio de Tom Jobim contra o sol do meio-dia e o tumulto das ruas do Rio de Janeiro.

Naquele meio-dia, Tom sentou-se em mesa separada. Num canto, ficou tomando chope com Zé Fernando Balbi. Compartilhava com ele o chapéu de palha, que usavam em turnos, um dia um, no dia seguinte o outro, e também compartilhavam outras coisas:

– Não – disse Tom, quando alguém chegou perto. — Estou numa conversa muito importante.

E quando outro amigo se aproximou:

– Você me desculpe, mas nós temos muito para falar.

E a outro:

– Perdão, mas nós dois estamos discutindo um assunto sério.

Nesse canto separado, Tom e Zé Fernando não se disseram uma única palavra. Zé Fernando estava em um dia fodido, num desses dias que deveriam ser arrancados do calendário e expulsos da memória, e Tom o acompanhava, calando chopes. E assim ficaram, música do silêncio, do meio-dia até o final da tarde.

Não tinha mais ninguém por lá quando os dois foram-se embora, caminhando devagar.

 

(Eduardo Galeano, em ‘Bocas do Tempo’)

 

 

*******

 

ainda ontem

convidei um amigo

para ficar em silêncio

comigo

 

ele veio

meio a esmo

praticamente não disse nada

e ficou por isso mesmo

 

(Paulo Leminski)

 

Paulo-leminski-em-foto-de-1984 

 

 

 

Dias Nublados

 

         Selma Barcellos

Selma (perfil)

 

 

 

SHAKE

 

 

Recentemente, em seu já antológico artigo “O Brasil está com ódio de si mesmo”, órica mutação. Segundo o cronista, espontaneidade e graça, que eram nossa marca, deram lugar à fúria inesperada, à perda da solidariedade primal, quase instintiva, a “dores nunca antes sentidas”.

Em “À flor da pele”, Joaquim Ferreira dos Santos retoma o assunto. Não mais que de repente, pondera, somos todos suspeitos, roda-se a baiana, puxa-se a peixeira, privadas caem na nossa cabeça, todo mundo “fuleco da vida”. Por onde andarão, pergunta, “o homem cordial, o gajo afável desta patriamada gentil, a namoradinha do Brasil, a velhinha de Taubaté, o Jeremias, o bom, os descendentes do Profeta Gentileza”…? E antevê: “Se Stefan Zweig, morto em 1942, baixasse num centro mediúnico da Vila da Penha, seria linchado por ter publicado o livro em que chamava o Brasil de ‘país do futuro’”.

Está feia a coisa, sim. Convém nos acalmarmos. Afinal, estão chegando os alquimistas e os convidados desta já insuportável Copa do Mundo. Urgem bom-humor e etiqueta. Certa décadence avec élégance, por que não? Nada de guardar cartão de visitas dado por asiáticos até que eles se despeçam, não puxar conversa nem cadeira para muçulmanas (só o marido pode), jamais estender a mão esquerda (tida como impura, a da higiene) para iranianos, não bocejar para colombianos, e por aí vai.

Não sei se vos contei. Há alguns meses, visitando o Marrocos, o filho da blogueira adentrou um banheiro público onde havia, bem no centro, uma espécie de cuba, imensa, retangular, com água escorrendo continuamente. Não teve dúvida. Engatilhou. Só sentiu uma mão no ombro e uma voz ao pé d’orelha: “Não faça isso. Esta é a pia onde lavamos as mãos e os cotovelos para as orações”. Jura que ouviu o sssip! da adaga. Está correndo até hoje.

Agora falando sério. Com o pote até aqui de mágoa e a irritação que nos une em torno da grande área, imagina se algo acontece na pia das nossas devoções?

Cantemos, irmãos. Cariocas são bonitos, cariocas são bacanas…

 

“Cariocas” (Adriana Calcanhotto), com ela

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=Iyx63i8BV5A[/youtube]

 

 

 

A morte veste Prada

 

         Selma Barcellos

Selma (perfil)

 

 

 

 

 

 

 

  

“Todo dia leio cuidadosamente os avisos fúnebres dos jornais: às vezes a gente tem surpresas agradabilíssimas.”  

“A morte é dramática, o enterro é cômico, e os parentes, ridículos.”  

(Millôr Fernandes)

 

 

Surpresa é a notícia de que cresce no mercado o segmento ‘funeral de luxo personalizado’, tendência originada – pasmem! – nos EUA. Segundo os empresários, sucesso absoluto. Nenhum ‘homenageado’ voltou para reclamar. Quanto ao ridículo/cômico, ou nada disso, prossigam com a leitura.

Mansões, sobretudo em São Paulo, disponibilizam lounges fúnebres com decoração temática que alude a Paris e Nova York, bufês variados, manobristas, carro importado com LED para o transporte do féretro, trilha sonora – Enya, My Way, imprescindíveis – e doces, os bem-velados, distribuídos na saída, pequenos mimos para que os ‘convidados’ fiquem, digamos, satisfeitos (o morto, este sim, é um homem realizado).

Se a família preferir o evento em casa, para tudo há solução (menos para a dita cuja). Basta chamar o Funeral Home ou velório delivery. Até porque não existe segurança nos cemitérios à noite.

Uma promoter de funerais com glamour conta que tapete persa, música ao vivo e helicóptero lançando pétalas já foram atendidos. Lamenta apenas não ter podido realizar o último desejo de um cliente que queria pés de cana e limão sobre seu túmulo para “fazer caipirinhas eternamente”.

“Fico besta como morrem os personagens de Shakespeare, nem os passarinhos morrem com mais naturalidade, com mais simplicidade. Vede, o personagem faz um teatrozinho, é ferido (ninguém morre de cama, é tragédia!) e… morre. Morre assim nesta única palavra, dies. É ou não é formidável? Morrem numa palavra.”  (Otto Lara Resende)

Porém, em se tratando de oratória fúnebre, o bardo inglês é um mustSó não deixem a promoter saber.

 

 

 

Gene é um gênio

 

Enviado por Selma Barcellos

(vídeo montagem de Antonio Romane, genial colaborador do Bloghetto Selma Barcellos)

 

  

Rádio Todo Sentimento une-se hoje à coirmã Verouvir e orgulhosamente apresenta, em primeira mão, a música que Gene Kelly sonhava dançar na antológica cena da chuva, mas, por algum motivo, não foi possível. :-)

Por falar em gênio, valendo prêmio, Romane!

 

 

 

 

Abel Ferreira tocando “André de Sapato Novo” , de André Victor Correia​

http://www.youtube.com/watch?v=SZAIwmYr5BQ

 

Obs.: Conta-se que André Correia estava num baile e passou maus momentos ao dançar com um sapato apertado. A dor dos calos, fato aparentemente banal, foi a inspiração para o talentoso compositor nos legar um dos mais populares choros da história da música brasileira. Poucas músicas têm o privilégio de poder ser identificadas por uma nota, como é o caso de  “André de Sapato Novo”. Bastava Pixinguinha extrair do saxofone seu Mi grave para todo mundo reconhecer o que vinha a seguir. Aquele grave representava a parada que faz a todo momento o indivíduo que calça um sapato novo, calos gritando dentro do calçado… (Selma Barcellos)

 

 

 

Cogitam escrever um livro?

 

         Selma Barcellos

Selma (perfil)

 

 

 

 

 

 

 

 

“Só há uma coisa mais rara do que uma primeira edição de certos autores: uma segunda edição.” (Franklin P. Adams)

 

“Não há assuntos chatos, apenas escritores chatos.” (H.L. Mencken)

 

“Fiz um curso de leitura dinâmica e li Guerra e Paz em vinte minutos. Tem a ver com a Rússia.” (Woody Allen)

 

“Levei quinze anos para descobrir que não sabia escrever, mas aí já não podia parar – tinha ficado famoso demais.” (Robert Benchley)

 

“Alguns livros são do tipo que, quando você os larga, não consegue pegar mais.” (Millôr Fernandes)

 

“Se um jovem escritor conseguir abster-se de escrever, não deveria hesitar em fazer isso.” (André Gide)

 

‘Só se devem ler livros escritos há mais de cem anos.” (Jorge Luis Borges)

 

“Se quiser ficar rico escrevendo, escreva o tipo de coisa que é lida por pessoas que movem os lábios ao ler.” (Don Marquis)

 

“Do momento em que o peguei, até a hora em que o larguei, seu livro me fez rolar de rir. Um dia pretendo lê-lo.” (Groucho Marx)

 

“Basta ler meia página de certos escritores para perceber que eles estão despontando para o anonimato.” (Stanislaw Ponte Preta)

 

“Quando Jean-Paul Sartre morreu, era Simone de Beauvoir quem eles deviam ter enterrado.” (Tomi Ungerer)

 

“Que homem teria sido Balzac se ele soubesse escrever!” (Gustave Flaubert)

 

livros_louco

 

 

 

Todo menino baiano tem um jeito que Deus dá

 

       Selma Barcellos

Selma (perfil)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

caymmi 

Atrasado para uma gravação na TV, saiu praticamente da cama para o carro do Bôscoli, que lhe perguntou:

─ Não vai passar nem um pente no cabelo?

─ Não, eu já vim penteado da Bahia.

***

Carecia mesmo não. Ao rei primeiro de Maracangalha y Balangandã, à mais completa tradução de dengo com cheiro de mar, concede-se.

Para Ubaldo, Caymmi era um “fazedor de beleza”. E ainda tocava um violão recôncavo. Podia tudo.

 

Amigos, pelos 100 anos do mestre, comemorados hoje, o que vocês gostariam de ouvir? Digam lá. Por ora, Bethânia e o valentão mais doce da MPB.

 

http://www.youtube.com/watch?v=ZA1JGx-Frng

 

 

“A música é Caymmi, Caymmi é a música, e eu não seria músico se não fosse Caymmi.” (Tom Jobim)

 

“Tirem os olhos de mim, que eu nada sou além de um tocador de violão. O gênio se chama Caymmi. Então, vão ouvi-lo, vão entrevistá-lo. Ele é o mestre, ele é a música.” (João Gilberto)

 

“O melhor é Caymmi.” (Carlos Drummond de Andrade)

 

“Escrevi 400 canções e Dorival, 70. Mas ele tem 70 perfeitas e eu não.” (Caetano Veloso)

 

 

jangadeiro (Caymmi) (Jangadeiro, tela de Caymmi)

 

[…]

“Uma outra noite singular me levou para as praias da infância à espera da jangada. E se ela voltasse só? Gritei pelo nome dele, como na “Suíte dos Pescadores”. A névoa foi se desfazendo e vi não só uma embarcação. O mar vinha constelado de jangadas, os rudes remendos das velas brilhando feito veios de ouro. Estrelas cadentes iluminavam à volta com verde luz, verde arrebentação, e o que são as cristas das ondas a não ser arestas de astros antigos? Havia cardumes de rosas, rosas formosas de abril, saltando do mar como peixes, pétalas de escamas em tremeluzir de pálpebras. Chico, Bento, Pedro, Zeca, João Valentão, Anália, Jorge Amado, Carybé, todo o povo de Caymmi, o pobre povo brasileiro na miríade de jangadas. Voltavam com nossas sedes e fomes históricas, sofridos como nunca, torturados pelos cães dos poderosos, mas cheios de altivez e integridade nas roupas brancas rasgadas. E também, de relance, Dorival com a Senhora dos Navegantes, e ele sorria porque nosso futuro inova nosso passado, e neles Dorival Caymmi está sempre cantando, dulcíssimo de sal marinho, lampejo eterno em cada gota do presente.”

Podem achar que eu pirei. Pra escrever sobre Caymmi e a morte, só louco.”

(Aldir Blanc, em “A volta da jangada”, ‘O Globo’, 27/4/2014)

 

 

“Beijos pela noite”, dos amigos Caymmi, Jorge Amado e Carlos Lacerda. Bobagem…

 

 

 

 

Cachoeirense ausente (e que falta faz…)

 

 

         Selma Barcellos

 

 

 

 

 

 

 

 

Depois de alguma insistência, Rubem Braga resolveu aceitar o título de “Cachoeirense Ausente de 1951”, homenagem criada anos antes pelo irmão Newton para saudar os filhos ilustres da terra.

Rabugento que só, avisou às irmãs que não queria fazer discurso na praça, cumprimentar desconhecidos, nem ir ao Baile da Cidade. Não teve jeito. Fez os três.

A descontração só viria mais tarde, quando pôde enfim bebericar seu uisquinho com os amigos que levara ─ Vinicius, Millôr, Sabino, Otto Lara e Ceschiatti. No dia seguinte, apenas um compromisso oficial: inaugurar o aeroporto da cidade, tantas vezes reinaugurado e abandonado.

Hospedaram-se no melhor hotel de Cachoeiro de Itapemirim, nas proximidades da estação ferroviária, o que deixou os amigos desesperados com as manobras barulhentas das locomotivas madrugada adentro. Até que Millôr ─ ou teria sido Sabino? ou Vinicius?, ninguém sabe ao certo ─ , bateu no quarto de Braga:

─ Rubem, a que horas este hotel chega a Vitória?

Garotos formidáveis.

Mas que mania essa de ligar nossos brilhos literários e artísticos a aeroportos. Será que Millôr, a exemplo de Tom, vai virar um daqueles com forro desabando e urubus fazendo social com os passageiros?

Ele até sugeriu algo como “reconheço que nunca fiz nada para posteridade. Mas a posteridade bem que poderia fazer alguma coisa por mim. Por exemplo – me arranjar algum desses empréstimos a fundo perdido.” Não foi atendido

Braga, um apaixonado por jardins, virou nome de orquídea. Linda, vermelho-púrpura.

E Millorzinho, hein?

 

 

Rubem Braga e o seu quintal aéreo

Rubem Braga no seu mítico quintal aéreo do apartamento em Ipanema