Posts from janeiro, 2013

Sobre motoristas e passageiros

 

 

A homenagem da riberopretana Bell à sua São Paulo

 

                     Bell Gama

bell (bandeira do Brasil) 

 

 

 

 

 

 

 Era janeiro de 2004 e uma só frase rondava a minha cabeça “Non Ducor, Duco”. A inscrição da bandeira de São Paulo servira como mote para as comemorações dos 450 anos de São Paulo e eu era parte da festa. Na época eu trabalhava em uma produtora de eventos que promoveu um dos maiores desfiles que a cidade já viu. 450 carros antigos invadiram as ruas de São Paulo em um domingo de manhã para comemorar o aniversário. 100 carros saíram da zona sul, 100 da oeste, 100 da norte, 100 da leste, e os 50 mais raros estavam na Av. Paulista. A logística de conseguir uma sincronia para que todos andassem simultaneamente na avenida mais famosa da minha cidade (que escolhi para viver) durou meses de preparação. Junto com ela, um programa ao vivo. Foi meu primeiro programa ao vivo em rede nacional ao lado de queridos colegas de profissão. Com direito a entrevistar a Prefeita, ter ponto eletrônico no ouvido e ouvir a adrenalizante (existe essa palavra?)  frase “3, 2, 1… no ar… É com você, Bell!”. Os carros, que despertam a paixão e o ódio da maior cidade do país, foram o destaque da festa.

 

brasao_sao_paulo-769466

 
Os automóveis sempre estiveram na minha vida. Aos 7 anos eu dizia que já sabia dirigir a boa e velha Parati branca do meu pai. Aos 13, peguei escondido seu Opala Diplomata e aprendi a dirigir. Aos 16, roubava o Fiat Palio da irmã e ía sozinha para a escola me sentindo a mais livre das criaturas. No dia 1 de dezembro de manhã, ao completar 18 anos, estava  finalmente tirando a minha Carteira de Habilitação. Aos 20, arrumei o emprego nesta produtora de eventos e televisão que só trabalhava com automóveis. Me descobri jornalista sendo “jornalista automotiva”. Dirigi muitos carros. Daqueles de mais de três dígitos e bem mais do que uma centena de cavalos de potência que sei que nunca mais estarei no volante. Dirigi no Japão, na Alemanha, visitei a fábrica da Maserati e vi carros sendo produzidos manualmente. Escrevi para revistas especializadas, participei de eventos de lançamentos e até hoje sou convidada pela indústria para fazer roteiros para os automóveis. Enfim, sempre fui considerada uma menina que “manja” de carros.
 
Há mais de 2 anos tomei uma decisão radical. Vendi o meu carro. Comprei um apartamento, precisava de grana para a entrada. Na época todo mundo se assustou: Como você vai viver sem carro? Eu também não sabia. Aos poucos, encontrei novos caminhos. Vi que não ter carro em São Paulo me deixa ainda mais livre. Com o tempo, a paixão por dirigir se tornou uma dor de cabeça. Multas, IPVA, Renovação de Carteira, Revisões, Lei Seca, custos, custos, custos… Passei a ser uma má motorista. E não queria sujar minha ficha corrida. Perdi a carta e a paciência. Hoje, não tenho carro nem garagem.
 
As pessoas ainda se assustam com a minha decisão: Como você consegue viver sem carro? Simples: moro perto do metrô. Pego ônibus, táxi, compartilho carro e sou carona preferencial  dos meus amigos. Passei a ver a cidade com os olhos de passageira, dedicando cada momento a uma nova descoberta.  Hoje, ao cruzar a cidade pelo subterrâneo do metrô (sem fone de ouvido ou livro para ler) senti aquele prazer de ser anônima e ter um olhar turista… Reparei na moça chorando, no casal se beijando, na mãe dando bronca no filho, no rapaz compenetrado que lia uma apostila. Passei por várias estações notando suas diferentes personalidades. Eu sou linha vermelha com muito orgulho! Fico na estação Marechal Deodoro, mas o fim da minha linha é no meu time de coração “Corinthians/Itaquera”. Há quem odeie essa linha pois ela leva para a periferia da Zona Leste (Lost). Eu amo. A linha vermelha é a cara São Paulo. E por aqui tem esse bairrismo mesmo… Paulistano que é paulistano sabe a diferença da Linha Verde para a Azul.  Quando lançaram a Linha Amarela fiz questão de ser uma das primeiras a andar como  mesmo espírito que a gente leva uma criança para andar pela primeira vez no metrô. E não há estação tão bonita como a Sumaré.
 
 
metro marechal
 
 
Assim como a cidade, poucos metrôs ainda são conduzidos. Muitos se auto-conduzem. Assim como eu gosto de ser. São Paulo, que completa 459 anos nesta semana, ainda tem uma injustiça: todo mundo deveria ter um metrô para chamar de seu. Para assim poder conduzir o seu olhar para onde bem entender: para as ruas, no papel de motorista ou para a paisagem.
 
metrosp
 
 
 
Bell Gama/janeiro 2013
 
 
 
 

O aprendiz de ternuras

 

 

 

Maestro Soberano 

 

“Todas as vezes que Tom abriu o piano, o mundo melhorou. Mesmo que por minutos, tornou-se um mundo mais harmônico, melódico e poético. Todas as desgraças individuais ou coletivas pareciam menores porque, naquele momento, havia um homem dedicando-se a produzir beleza, O que resultasse de seu gesto de abrir o piano ― uma nota, um acorde, uma canção ― vinha tão carregado de excelência sensibilidade e sabedoria que, expostos à sua criação, todos nós, seus ouvintes, também melhorávamos como seres humanos.”

(Ruy Castro, “O aprendiz de ternuras”, in “A onde que se ergueu no mar ― Novos mergulhos na Bossa Nova”, São Paulo: Companhia das Letras, 2001)

 

 

[youtube]http://www.youtube.com/watch?v=Ej0fFckXiNs[/youtube]

Vídeo de Fernando Brito

 

 

 

 

 

 

Mais uma maravilha do amigo José Márcio Castro Alves

[youtube]https://www.youtube.com/watch?v=W5cLt_V5ISQ[/youtube]

 

 

 

 

Hoje eu acordei…

 

O dia em que Selminha acordou cadê…

 

   Selma Barcellos

Selma 2

 

 

 

 

 

 

 

 

dulcora

 

 

Não sei se foi o jardim de domingo dos vizinhos que quando tem pouca gente (de três gerações) tem 30 e ontem apareceram com um livro do Loyola com lembranças que se você reconhecesse como suas, você seria  jovem, médio ou dinossauro; se foi homenagear Adoniran Barbosa lá no blog da filha Maria Helena; se foi Melody Gardot mandando muito bem nessa musiquinha de dançar em frente ao espelho; se os galhos assim de maracujá do outro vizinho despencando no meu quintal; se o zizi das cigarras antes de levantar para a malhação… só sei que hoje eu acordei completamente cadê.

Cadê as tanajuras, os tatuís, as joaninhas, o anil clareando as roupas no varal, a coleção perfumada de figurinhas do sabonete Eucalol, os decalques de flores de enfeitar papel almaço nas provas “nota 10, com louvor” sobre os afluentes do Amazonas, o sinal do recreio, a sapatilha cor de rosa do ballet, as matinês de Tom & Jerry com a melhor amiga da infância? E o Biotônico Fontoura que eu lia biotonico porque ele deixava o Tonico duas vezes mais forte?

Cadê as domingueiras do clube, o baile de debutantes, eu dançando “Lover”, a coreografia do hully-gully, Trini Lopez, “Oh, Carol”, o chá-chá-chá e o chá de cadeira sem ninguém tirando a gente para dançar, o uniforme de normalista com estrelinhas na lapela, o casaco de banlon, o cheirinho de Pinho Silvestre dos galãs?

E lá ia eu tão romanticamente saudosa nesse delicioso exercício de arqueologia afetiva, quando me deparo com uma reportagem intitulada “Em busca da larica perdida”, onde a jovem rapaziada dá depoimentos sobre seus inesquecíveis lanches de infância. O mais votado? Cigarrinho Pan. Que isso, gente?

Cadê meu drops Dulcora, embrulhadinho no celofane, um de cada cor? Assim, exatamente como estão guardadas as lembranças  en mi corazón de melón, melón, melón…

 

 

Ora direis, um presente para o blog…

 

 

 

Adalberto 2 (2)

Adalberto de Oliveira Souza

 

 

 

Adalberto de Oliveira Souza, poeta, escritor, professor, mestre e doutor de línguas neo-latinas, alma peregrina de artista e uma porção de outras coisas mais, sobretudo o grande e querido amigo meu e do Brenno desde a prisca e saudosa era do curso Clássico no Otoniel Mota, que 25 anos atrás foi viver e lecionar em Maringá, reapareceu de repente, não mais do que de repente no Estrela Binária. E mandou de presente este poema que fez especialmente para o blog.

Vai se tornar colaborador permanente e há de merecer uma apresentação à altura que, chegado de viagem e ainda meio fora de órbita, não consegui escrever agora.

E não via a hora de publicar o poema.

Não, não vá  embora, Adalberto.

A casa é sua.

Possua-a…

 

 

                       Homenagem à Estrela Binária

 

 

                                    Ora direis,

                                    sob tantas estrelas

                                    luzindo esparsamente,

                                    limpidamente significando

                                    e nem tanto e nem tento explicar.

 

                                    Ora ouvireis,

                                    clareando ofuscantes,

                                    vagas e sensivelmente,

                                    do tempo e da distância,

                                    as massas estelares,

                                    as estrelas violentas,

                                    as estrelas cadentes,

                                    os eclipses vários

                                    preocupantes.

 

                                    Hora a hora,

                                    só indo embora,

                                    sempre, sempre.

 

 

 

De volta

 

 

“Ah, não há saudades mais dolorosas do que as das coisas que nunca foram!”

(Bernardo Soares)

 

 

  

Acordou num quarto de hotel, sem saber onde estava e como fora parar ali.

Percebeu que anoitecia, em vez de amanhecer.

Quando procurou o relógio na mesa de cabeceira para ver as horas, encontrou um bilhete de trem, que partiria às 22h30min.

Faltava pouco para as 20h e se quisesse pegar o trem deveria se apressar.

Estava nu. Foi ao banheiro, escovou os dentes e tomou um banho usando os utensílios e produtos oferecidos como cortesia pelo hotel.

Abriu a porta do pequeno armário do quarto e encontrou as roupas e os sapatos. Havia também uma pequena valise de couro, bastante desgastada, com alguns livros. Nada mais.

Vestiu-se, apanhou a valise e desceu à recepção.

— A conta já está paga, senhor, e o táxi o espera, disse-lhe a recepcionista.

Tomou o táxi e o motorista, sem que lhe dissesse nada, levou-o à estação.

Chegou com quarenta minutos de antecedência. Teve tempo de perambular um pouco pelos corredores tentando descobrir, sem êxito, em que cidade se achava. Tomou um café e o atendente, assim como a moça do hotel, conversou com ele em inglês, mas as pessoas ao redor falavam espanhol, francês, alemão, árabe, japonês e até português.

Não teve tempo de mais nada.

 Tratou de embarcar no trem e se acomodou numa poltrona vazia, junto da janela.

Pouco depois o comboio partiu, deixando para trás a cidade misteriosa. Logo percorriam uma região campestre, com lindas paisagens que se alternavam, planícies, grandes lagos, florestas espessas, montanhas e túneis. O céu estrelado estava magnífico, e a lua cheia projetava uma luz suave e melancólica.

Além dele, havia apenas três ou quatro passageiros dispersos pelo vagão.

Tirou um dos livros da valise, com a capa de couro avermelhado e letras douradas. Era de Fernando Pessoa. Abriu-o ao acaso e deu na página do poema que se inicia com o verso “Viajar! Perder países!”. Releu este e alguns outros. Pouco a pouco a leitura e o embalo do trem deixaram-lhe os olhos pesados de sono.

Adormeceu com a sensação apaziguada de quem está voltando para casa.

Toda viagem é um regresso.

 

 

mala

 

 

 

Velho jacaré

 

 

O mar estava para peixe, e para jacaré.

Maré baixa, água quentinha, vento gostoso e lindas ondas se formando, uma atrás da outra. Surfistas e outros tipos de prancheiros se esbaldavam lá longe.

Ignorando os apelos à sanidade feitos pela minha Penélope (que insistia em me lembrar do pulso esmigalhado anos atrás, no primeiro dia de férias… uma provação dos deuses!) levantei-me resoluto e qual Ulisses avancei mar adentro, levado pelo canto das sereias, sem ter a cautela de me amarrar ao mastro.

Devo confessar que professo a prática primitiva do velho e bom jacaré, precedente ao surfe e a todas as outras modalidades prancheiras.

O jacaré, para quem não sabe, consiste em pegar onda sem prancha ou outro intermediário, fazendo do próprio corpo o apetrecho deslizante. Exige prática e habilidade, mas só não desapareceu ainda porque na tenra idade as crianças, intuitivamente, começam por ele. Logo o abandonam, porém, assim que têm acesso aos aparatos cada vez mais tecnológicos, de vário feitio. De modo que não chegam a alcançar o grau de excelência no jacaré.

É vero que fiquei aquém mar dos surfistas e companhia, com água à altura do peito, um pouco mais ao fundo do que a molecadinha do bodyboard iniciante.

Estudei o vento, a formação das ondas, a correnteza e outras variáveis. Para pegar um jacaré magistral, não se pode afobar, entrar antes do momento exato na onda, no preciso instante em que ela cresce e se precipita.

Veio afinal a onda perfeita, bracejei, incorporei-me a ela e deslizei intrépida e velozmente até chegar ao rés da praia, enquanto a molecadinha afoita do bodyboard ia ficando pelo caminho.

Quando me erguia triunfante, dois meninos vieram até mim com suas pranchas para me reverenciar:

— Tio, como é que você faz isso?

Cinquenta anos de praia, respondi-lhes magnânimo, enquanto tratava de cair fora para manter a minha fama de mau.

 

 

jacaré 

 

 

Véspera

 

 

Brenno Augusto Spinelli Martins

 Brenno (facebook)

 

 

 

 

 

 

 

                                   Enquanto

                                   o encanto

                                   é por enquanto

                                   me apronto

                                   para a festa.

 

                                   Calço de novo

                                   o velho sapato velho

                                   nos pés do talvez.

 

sapatos velhos