Selma Barcellos
Manhã de check-up:
Saio quase duas horas antes por causa do trânsito infernal. Chego pontualmente e ainda mofo para ser atendida em exames marcados.
Aguardo minha vez com aquelas risadas tor-tu-ran-tes de Ana Maria Braga na TV da sala de espera. Não consigo ler meu livro. Não posso fugir. Corto os pulsos? Ao menos eu entraria logo.
Uma jovem folheia “Caras”, sacode o carrinho do bebê com os pés e imita um chocalho ininterrupto com a voz. A criança grita fininho. Sabe motor de dentista?
Toca um celular. O ring é um cidadão aos berros: “Ora comigo! Sai deste corpo que não te pertence! Sangue de Cristo tem poder!” Que isso.
Na volta, já perto de casa, mais engarrafamento. São 40 cones para 10 homens asfaltarem UM buraco, em horário de pico, num trecho afunilado da estrada.
À tardinha… o impensável: “Senhora, queira desculpar, mas vamos estar repetindo um dos seus exames porque faltou luz* e nós o perdemos. Não se preocupe, vamos estar disponibilizando o horário que lhe for mais conveniente”. _ De madrugada!, respondo. Mentira, rosno.
Querido diário, eu não acho, tenho certeza. Nunca mais domínio sobre a qualidade do nosso tempo, pessoas silenciosas, inteiras (suas metades estão sobre a mesa, no bolso, nas mãos), respeito mínimo, privacidade… Nunca mais restaurantes calmos, praias quase vazias…
Admirável mundo novo.
*Que faltou luz. Simplesmente o profissional que me atendeu não dominava aquela estrovenga de medir esqueleto e o exame ficou ilegível. Rrrrr…
Selma, quando criança as meninas adoram escrever suas vivências no diário, que é tido por elas como melhor amigo. Realmente as pessoas precisam encontrar um tempo para meditar em si mesmas e fugir da correria do dia-a-dia, o trânsito nas grandes cidades é realmente caótico, as pessoas não têm muita paciência. Concordo contigo sobre a risada de Ana Maria Braga: na minha opinião, é uma risada forçada e até irritante.
Beijocas!
André, com a internet indo e vindo durante todo o dia e, até há pouco, sem luz (o dilúvio de ontem foi punk), só agora posso retribuir sua beijoca.
Ah, Selminha,
“Nunca mais romance
Nunca mais cinema
Nunca mais drinque no dancing
Nunca mais cheese
Nunca uma espelunca
Uma rosa nunca
Nunca mais feliz”
Mas há quem ainda encontre sua metade em outros lugares que não na mesa, nos bolsos, nas mãos…
Beijocas.
Nunca mais dói, não? É tão para sempre. Deveria haver um meio termo, uma meia verdade, meia mentira, vá lá, que nos ludibriasse…
As guias
as filas
as frias
radiografias.
As águias
as fitas
as crias
da radiopoesia…
Lendo os comentários…vocês todos são DEMAIS! Vocês são meus poetas cheios de lirismo, de sentimentos e delicadezas…
Selminha, da minha varanda onde neste momento trabalho, resolvi passear por dois jardins: o seu e o de Antonio. GANHEI MINHA NOITE! Que beleza de crônica, Selma, un beso!
Soph, sa’minina, você é o beija-flor dos nossos jardins.
Esvoace sempre por eles, espargindo seu néctar.
Soph, apareça mais! Não podemos prescindir de meninas-passarinhos!