A formiguinha ruiva

 

          Annibal Augusto Gama

ANNBAL~1

 

 

 

 

 

 

 

Debruçado no parapeito da janela, ele vê a formiguinha ruiva, que se esconde numa fresta da madeira. A formiguinha disfarçada, que espera a mosca pousar ali, para a agarrar.

Teve um amigo e colega que não deixava varrer, do encontro de duas paredes, na sua sala, uma teia de aranha, com a sua aranha pernalta, lá em cima. Ele punha na vitrola o disco de Mozart, e começada a melodia, a aranha descia por um fio e permanecia escutando, embevecida, a música. Mas, quando tocava Beethoven, a aranha, mais que depressa, subia pelo fio e ficava lá em cima. Não apreciava Beethoven.

 

                                   Desta janela, exígua fresta

                                   Elegeu por morada uma formiga.

                                   Ao peitoril, como por praça antiga,

                                   Sai a passeio, a ver o sol, em festa.

 

                                   Foge ao menor rumor, lépida e lesta,

                                   (Lembrando-me, permita-me que t´o diga,

                                   A almazinha que tens, querida amiga,

                                   E que a todos se esquiva por modesta).

 

                                   Se é surpreendida acaso e o tempo é estreito

                                   Para tornar, fugindo, à frincha escura,

                                   Súbito estaca… nem um passo além!

 

                                   E ruiva como a luz, e de mistura

                                   Com a luz, na luz se some de tal jeito,

                                   Que estando à vista, não a vê míngüem.

 

O poeta Alberto de Oliveira, com o seu bigode torcido em ponta, fala, em outro poema, em “cheiro de espádua”. Mas era a tua espádua, Aninha, que cheirava bem.

Agora, ele está, menino, agachado sobre o rego, mo quintal, construindo com pauzinhos, uma ponte, para as formigas passarem de um lado para outro da torrentezinha.

— Que está você fazendo aí, menino?

— Estou fazendo uma ponte, para as formigas atravessarem o reguinho 

— Que menino mais bobo.

Bobas ou espertas eram também as formigas, que se recusavam atravessar sobre a sua ponte. Não acreditavam na sua engenharia.

Mais tarde, muito mais tarde, ele veria a ponte de ferro, que Euclides da Cunha construíra sobre o Rio Pardo. E, para cá, a casinhola de sarrafos, onde ele escreveu algumas páginas de Os Sertões. Mais duro foi atravessar a ponte sobre o Rio Grande, da fazenda à Estação de Jaguara. O pai ia à frente e recomendava: “Não olhe para baixo”. Lá embaixo, um abismo, as águas ferviam, E se viesse o trem, pela ponte? Não vinha, não era hora dele.

 E ele chegou afinal à Estação de Jaguara, trêmulo, as pernas bambas.

 Mas tinham ainda de voltar, santo Deus!

Hoje ele percebe que todas as pontes ruíram atrás dele.

 

 formiguinha

 

 

 

2 comentários

  1. 25/03/13 at 15:43

    Eis que se chega à última frase e a leitura continua… Escrita cativante.
    O Ribamar, ainda que atento ao ofício de beijar a namorada em flor, bebeu suas palavras em “Os urubus, as aves e outros pássaros”, Dr. Annibal.
    Já a crônica de hoje será apresentada a Aracnilson e Aracneide, um casal pleno de Jobim e madrugadas adentro que habita a sacada do quarto. Posseiros do meu verde.
    É isso. Que as formigas nos cocem os dedos para a escrita e as aranhas nos mostrem o fio da trama… Novas pontes?
    Beijoca! (se me permite) 
    P.S.: De Mendoza virá “O Coração de Euclides”.

  2. André
    25/03/13 at 21:05

    Gama, o título do post me remeteu à famosa fábula que foi passa de geração em geração, da amizade entre a formiga e a cigarra… aprendemos isso na infância.
    Com muitas pessoas já aconteceu de ser picada por sentar-se ou ficar em pé em cima de um formigueiro.
    Alberto de Oliveira escreveu mais um grande soneto.
    Abraçaço.

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