Posts from novembro, 2012

Soneto silente

 

 

 

                                   Ouvi dizer um dia que calar é ouro,

                                   sem ter o que dizer me calei, com desdouro.

                                    Não tem valor esse silêncio obsequioso

                                    que é só uma face do espanto tormentoso

 

                                   em face das forças de um mundo enigmático

                                    tirado da cartola maluca de um mágico

                                    que depois se esqueceu de todos os seus truques

                                    e acabou sendo expulso de todas as trupes.

 

                                    Foi esse ilusionista desmemoriado

                                   que me deixou no picadeiro abandonado

                                    com a luz apagada e a banda calada.

 

                                   Por isso não canto, danço, nem falo nada,

                                   em qual canto estará a cabala abstrata

                                   que revela a palavra do abracadabra?

 

 

 

 

 

 

Trocando passos

 

 

 Selma Barcellos

 

 

 

 

 

 

 

 

Lindalva tremia só de imaginar que pudesse ser um estorvo na vida dos filhos. Daí que vivia sem desperdícios, esticando como podia a modesta pensão que Inércio lhe deixara, guardando o dinheiro que ainda entrava da venda das toalhas pintadas à mão, barrinhas de crochê, tudo muito caprichado, by Linda. Achava tão chique assinar assim…

Anos a fio e a tinta, encomendas dobrando nos dias das mães e natais, Lindalva seguia batalhando, tecendo seu pé-de-meia e, na casa própria que a duras penas ajudara a pagar (Inércio não era chegado a um batente), ainda encontrava forças para receber filhos e netos para a lasanha dos domingos.

O falecido fora um bom pai. Nada faltou aos meninos, é certo. Mas, para Lindalva, a tal vida a dois não passara de um filme de quinta, uma fita esquecida na máquina de um embolorado cinema, rodando ininterruptamente.

Lindalva adorava dançar. Vivia cantarolando “um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar”, esperando que Inércio a tirasse para dançar, ao menos uma vez, na cozinha que fosse, ao som mesmo daquele rádio horroroso em cima da geladeira, bandeirinha do time presa na antena fazia anos.

Jogo jogado, prorrogação quase, Lindalva começou a cobrar um pouco mais da vida. Deu de se olhar no espelho, restinho de vaidade pulsando tal qual as tantas veias que insistiam em lhe tatuar as pernas. E resolveu tirá-las do mapa. Vaidade ou não, merecia. Tanto sacrifício, privação, noites em claro para dar conta das encomendas, poupando, guardando… Marcara dia e hora. Avisara aos filhos.

Mas havia um sonho no meio do caminho. Um desejo sublimado que aquela poupança de tantos anos tinha por obrigação realizar, sob pena de arrependimento sem volta. Até porque não haveria tempo hábil para recomeçar do zero, amealhar tudo de novo. Pensou. Pesou. Decidiu.

Deu-se de presente uma festa. O acalentado baile de seus 70 anos. Mandou florir o salão do pequeno clube do bairro, convidou poucos e bons amigos. À meia-noite fez um sinal para o músico, colocou-se no centro da pista. Sob aplausos, com um partner de aluguel,  dançou aquele tango tantas vezes ensaiado na solidão do quarto. Flor vermelha nos cabelos, vestido bordado, sandálias altas. Tudo muito caprichado, by Linda.

Num único instante, ainda que as pernas não estivessem lá essas maravilhas, dançou por uma vida inteira. Resgatando todas as festas e prazeres que o destino implacavelmente lhe negara, Lindalva nunca foi tão feliz.

 

P.S.: A personagem é real e vai bem, obrigada. Não mexeu até hoje nas veias bailarinas, mas aquela festa com direito a tango ficou na história. Se lhes interessa, o vestido dela era verde como seus olhos, já nasceu o primeiro bisneto, e tudo me foi relatado por uma de suas amigas presentes. Apenas o nome do falecido é ficção. Pelo conjunto da obra, merecido. (novembro/2008)

 

Para Lindalva, pelos 74 recém-completados. A menina ainda dança.

 

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Zumbi e Tiradentes

 

 

 

Não sei quantos saberemos que em 20 de novembro de 1695 morreu Zumbi, o grande líder do Quilombo dos Palmares, daí a escolha da data como o Dia Nacional da Consciência Negra.

Nunca me ensinaram isso na escola. Ensinaram-me sobre a Inconfidência Mineira e o mártir da nossa independência, Tiradentes, enforcado no dia 21 de abril de 1792. 

Tive real conhecimento da epopeia de Zumbi somente a partir da peça “Arena conta Zumbi”, escrita e encenada por Gianfrancesco Guarnieri e Augusto Boal em 1965, com músicas de Edu Lobo, entre as quais “Upa negrinho”.

Além de anteceder a conjuração mineira em quase um século, a insurreição de Palmares foi um episódio de magna grandeza e significado, e a morte de Zumbi encerra a mesma dimensão heróica do sacrifício do branco Tiradentes. Zumbi já passou a integrar os currículos escolares?

Somos um povo mestiço, mas quem disse que não existe preconceito ou distinção racial no Brasil?

 

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Eu vejo flores em você

 

 

Bell e as flores em garrafinhas ao fundo

 

 

 

Ele religiosamente acorda todos os dias às 4h da manhã. Depois do café com leite, dirige seu carrinho velho rumo ao Ceasa. Compra flores. Nunca são para ele. São para mim.

Não sabe que me mudei para cá por causa dele. Quando passei na ruazinha da sinagoga e vi que ele estava lá vendendo flores sabia que seria um bom lugar para morar. Em uma rua onde há um vendedor de flores todos os dias não há de acontecer nenhum mal.

Mudança na caixa, esperanças renovadas, novos hábitos. Decidi: na minha casa há de ter flores todos os dias – até duvidei da minha capacidade de manter a promessa já que não consigo ter um só dia como o outro. Mas com a ajuda da irmã mais nova, a gente vem cumprindo a tarefa há quase dois anos ininterruptamente. Semanalmente ele nos entrega 6 rosas. Cobra 5.

Outro dia, à tarde, recebo a ligação da irmã mais nova:

– “Estou na rua. Estão tentando prender o florista. Disseram que é crime. Tentei impedir. O policial é um estúpido”.

Não sou de briga. Mas ao ouvir a voz da minha irmã que acabara de sair do trabalho no hospital revoltada com a confusão, virei onça. Papai, sempre papai, estava presente.

–  “ Que crime? Isso não é crime! É no máximo infração administrativa.”

Mesmo com um jurista por perto fiquei atordoada. Parei o carro e corremos em direção das viaturas policiais que faziam uma intervenção digna de um homicídio. O florista estava lá, sem flores.

– “Você está bem? Minha irmã me ligou”…

–  “Está tudo bem sim. Não foi nada. Eles queriam prender o vendedor de DVDs pirata que estava ao meu lado. Eu disse que não tinha nada a ver com a história. Mas levaram minhas flores. Disseram que se tinham que apreender os DVDs também tinham que apreender as flores.”

Fiquei chocada com a situação. Que mundo é esse que humilham um vendedor de flores? Argumentamos que ele não poderia ser preso, que ninguém poderia fazer nada com ele, fizemos um discurso enorme, nos colocamos à disposição. Acho que nunca ninguém havia se preocupado tanto assim com ele. Assustado com minha revolta. Sua resposta foi uma só:

–  “Não se preocupe. Não vou parar de trabalhar. Amanhã trarei mais flores”.

 

 

 

Bell Gama

Novembro/2012

 

(PS: Texto dedicado a minha justiceira Júlia Moreira Gama)

 

 

Soneto sessentano

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                   Aos sessenta, que maldizem de melhor idade,

                                   o homem se senta na cadeira de balanço

                                   e se abalança a fazer um balanço:

                                   o futuro caducou.

 

                                   Restam-lhe o passado e o presente,

                                   sobretudo aquele de quando somava

                                   menos quarenta, que se não se engana

                                   dá vinte (o que é quase um acinte).

 

                                   Aos vinte, o homem não se senta

                                   anda por todo lado e fala pelos cotovelos,

                                   sem tempo de ser ouvinte.

 

                                   Aos sessenta, quando é todo ouvidos,

                                   se sente meio surdo de tudo

                                   e lhe zumbem todos os olvidos.